       
A CHAVE DE REBECA
Ken Follett
       
       
       
       
       A CHAVE DE REBECA


Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!
       
       Pino do Vero. Sopra do deserto um vento quente, carregado de poeira. E o major William Vandam est to longe de apanhar o espio alemo como quando comeou a procur-lo.
       As pistas de que dispe so reduzidssimas: um cadver ensanguentado, um nome, uma descrio vaga  nada mais.
       Entretanto, os exrcitos de Rommel aproximam-se progressivamente do Cairo e parecem esgotadas as possibilidades de os deter.
       Porque Rommel sabe antecipadamente todas as aces planeadas pelos Ingleses.
       Porque o major Vandam no conseguiu decifrar o cdigo alemo.
       E porque, neste fatal jogo de escondidas, o espio consegue sempre escapar-se por entre os dedos de Vandam...
       
       "A aco  rpida, violenta, o enredo inteligente e tortuoso, a excitao aumenta e at as personagens menores adquirem vida."
        Publishers Weeklv
       
       "O nosso espio no Cairo  o maior heri de todos."
       Marechal de campo Erwin Rommel, Setembro de 1942
       
       
       
       Captulo 1
       
       O ltimo camelo caiu ao meio-dia.
       Era o macho branco de cinco anos que ele comprara em Jalo, o mais jovem e resistente dos trs animais e o menos recalcitrante. Gostava dele tanto quanto um homem pode gostar de um camelo, o que significa que s o detestava um pouco.
       Subiram a encosta sotavento de uma colina, homem e camelo apoiando desajeitadamente os enormes ps na areia instvel, e detiveram-se no cimo. olharam em frente e viram apenas outra colina que teriam de escalar, e depois dessa mais outras mil, e foi como se o camelo desesperasse ante tal perspectiva.
       Dobrou as patas dianteiras, depois a garupa abateu-se-lhe e o animal deitou-se no cimo da colina como um monumento, contemplando o deserto vazio com a indiferena dos moribundos.
       O homem puxou-lhe a corda presa ao focinho, mas em vo.
       Depois, contornou o corpo cado e desferiu-lhe pontaps nos quartos traseiros. Por fim, empunhou uma faca beduna de lamina curva e aguada, afiada como uma navalha, e espetou-a na garupa do camelo. o sangue jorrou, mas o animal nem sequer o olhou.
       O homem compreendeu o que sucedera. o corpo do animal faminto deixara pura e simplesmente d- funcionar, como uma mquina cujo combustvel se esgota. J vira camelos cair assim  entrada de osis, rodeados de folhagem revivificante que ignoravam, pois faltava-lhes a energia para a comerem.
       De qualquer modo, eram horas de parar. o Sol estava alto e queimava. Iniciava-se o longo Vero sariano, e a temperatura do meio-dia atingiria os sessenta graus  sombra. Sem descarregar o camelo, o homem abriu um dos alforges, do qual retirou a tenda, que montou ao lado do animal moribundo, no alto da colina.
       Sentou-se de pernas cruzadas do lado aberto da tenda, comeu umas tmaras e viu o camelo morrer enquanto esperava que o Sol passasse por cima deles. Devia a sua tranquilidade  experincia. Percorrera mais de mil e quinhentos quilmetros daquele deserto. Partira havia dois meses de El Agheila, na costa mediterrnica da Lbia, e viajara oitocentos quilmetros para sul, via Jalo e Kufra, at ao corao deserto do Sara. A virara para leste e atravessara a fronteira para o Egipto, sem ser visto por homem ou animal. Prximo de Kharga virara para norte, e agora j no se encontrava longe do seu destino.
       Conhecia o deserto e temia-o, como todos os homens inteligentes, mas nunca permitiria que esse temor se transformasse em pnico. Havia sempre catstrofes: erros de orientao devido aos quais se perdia um poo por dois ou trs quilmetros, odres de gua que se rompiam ou rebentavam e camelos aparentemente saudveis que adoeciam. A nica soluo era dizer: "Inshallah"   a vontade de Deus.
       Por fim, o Sol comeou a descer para ocidente. o homem olhou para a carga do camelo, calculando que parte dela poderia transportar. Havia trs pequenas malas europeias, de couro, duas pesadas e uma leve, todas importantes. Havia uma maleta de roupa, um sextante, mapas, vveres e um odre de pele de cabra. Era demais: teria de abandonar a tenda, o cobertor e a caarola de cozinhar.
       Reuniu as trs malas e prendeu-lhes no cimo a roupa, os vveres e o sextante. Depois amarrou o conjunto com uma tira de pano. Podia enfiar os braos pelas pegas que formara com a tira e transportar a carga s costas, como uma mochila.
       Suspendeu o odre da gua do pescoo. Era uma carga pesada. 
       Trs meses antes teria sido capaz de transportar aquela carga o dia inteiro e jogar a seguir tnis, mas o deserto enfraquecera-o. os seus intestinos pareciam de gua, a sua pele apresentava-se coberta de feridas e cicatrizes e perdera quase dez quilos. Sem o camelo no poderia ir longe.
       Comeou a andar. Seguia as indicaes da bssola e resistia  tentao de atalhar caminho contornando as colinas, pois tinha de percorrer os ltimos quilmetros segundo clculos exactos, e um erro fraccional poderia desvi-lo do percurso uns centos de metros que lhe seriam fatais.
       Com o cair da tarde, a temperatura desceu. A medida que consumia a gua, o odre que levava suspenso do pescoo tornava-se-lhe mais leve. Sabia que a gua no chegaria para outro dia. Atrs dele o Sol ps-se e transformou-se num enorme balo amarelo. Pouco depois, uma lua branca surgiu no cu cor de prpura. Pensou em parar. No seria possvel caminhar toda a noite. Mas no tinha tenda nem cobertor e estava certo de que se encontrava perto do poo. Pelos seus clculos, j l deveria ter chegado.
       Continuou a andar. A calma comeava a abandon-lo. Jogara a sua fora e a sua experincia contra o deserto implacvel, e comeava a parecer-lhe que o deserto ia ganhar. J no conseguia reprimir o medo. Quando a morte se tornasse inevitvel, correria ao seu encontro. No se resignaria a horas de agonia e loucura crescentes. Tinha a sua faca.
       Pareceu-lhe ver a me  distncia e ouvir um comboio a acompanhar o ritmo lento do seu corao. Atravessavam-se-lhe no caminho pequenas pedras, como ratos a fugir. Cheirou-lhe a cordeiro assado. Subiu uma encosta e viu a fogueira onde o cordeiro fora assado e ao lado um rapazinho a chupar os ossos.
       Viu tendas em torno da fogueira, os camelos a manquejar e o poo em frente. Penetrou na alucinao. As personagens do sonho olharam-no assombradas. Um homem alto levantou-se e falou. o viajante puxou o howli e desenrolou-o parcialmente, revelando o rosto.
       O homem alto aproximou-se, agitado, e exclamou: 
        Meu primo!
       O viajante compreendeu que afinal no se tratava de uma iluso. Teve um sorriso e caiu.
       Quando acordou, ao alvorecer, pensou por momentos que era outra vez um rapaz e que a sua vida adulta fora um sonho.
       Algum lhe tocava no ombro e lhe dizia na linguagem do deserto:
        Acorda, Achmed.
       Havia anos que ningum lhe chamava Achmed. Apercebeu-se de que estava embrulhado num cobertor spero e deitado na areia fria, com a cabea envolta num howli. Abriu os olhos e viu o esplendoroso nascer do Sol, como um arco-ris recto reflectido no horizonte plano e negro. Sentiu no rosto o glido vento matinal. Nesse instante experimentou de novo toda a confuso e ansiedade dos seus quinze anos
       A primeira vez que acordara no deserto sentira-se completamente perdido. "o meu pai morreu", pensara. E depois: 
       "Tenho um novo pai." Haviam-lhe ocorrido ao pensamento trechos do Coro, de mistura com passagens do credo cristo que a me ainda lhe ensinava em segredo e em alemo, que fora tambm a lngua do seu falecido pai. Evocou a longa viagem de comboio durante a qual se interrogara sobre os seus primos do deserto e perguntara a si prprio se desprezariam o seu corpo plido e os seus hbitos citadinos. Sara da estao do caminho de ferro e vira os dois rabes sentados ao lado dos camelos na poeira do ptio, envoltos em mantos da cabea aos ps,  excepo da abertura no howli, atravs da qual se lhes viam os olhos escuros e indecifrveis. Tinham-no levado para o poo.
       Fora assustador; ningum lhe falara a no ser por gestos. No entanto, apesar de duros, aqueles homens eram bondosos. 
       Tinham-se convencido de que ele no sabia falar a sua lngua, razo por que haviam tentado estabelecer comunicao por meio de sinais.
       Todos esses pensamentos lhe haviam atravessado a mente ao admirar o seu primeiro nascer do Sol no deserto. E agora voltavam, decorridos vinte anos, com as palavras "Acorda, Achmed", pronunciadas pelo seu companheiro de mocidade.
       Sentou-se bruscamente, a cabea a desanuviar-se. Atravessara o deserto no cumprimento de uma misso de uma importncia vital.
       Encontrara o poo, no fora uma alucinao: os primos estavam ali, como sempre naquela altura do ano. Invadiu-o um pnico sbito e angustiante ao lembrar-se da sua preciosa bagagem  ainda a traria quando chegara?  , mas depois viu-a ordenadamente empilhada a seus ps.
        Grandes preocupaes, primo  observou Ishmael, acocorando-se a seu lado.
        H guerra  confirmou Achmed com um aceno da cabea.
       Ishmael afastou-se. Subserviente, uma das mulheres serviu ch a Achmed, que o aceitou sem agradecer e o bebeu rapidamente. 
       Depois, comeu um pouco de arroz cozido e frio, enquanto o trabalho moroso do acampamento decorria em seu redor. Segundo parecia, aquele ramo nmada da famlia continuava prspero: havia diversos criados, muitas crianas, numerosos carneiros e mais de vinte camelos.
       Achmed acabou de tomar o pequeno-almoo e examinou a bagagem.
       Abriu uma das malas pesadas, e quando os seus olhos pousaram nos interruptores e mostradores do compacto aparelho de rdio, assaltou-o uma recordao clara e rpida, como as imagens de um filme: a movimentada cidade de Berlim; uma rua ladeada de rvores chamada Tirpitzufer; um edifcio de arenito de quatro andares; um labirinto de corredores; um gabinete e um almirante prematuramente encanecido a dizer: "Rommel quer que eu coloque um agente no Cairo."
       A mala continha tambm um livro, um romance em ingls.
       Distraidamente, Achmed leu a primeira frase: "A noite passada sonhei que regressava a Manderley." De entre as pginas do livro caiu uma folha de papel dobrada. Achmed apanhou-a cuidadosamente e rep-la entre as pginas do romance. Depois, fechou-o e guardou-o de novo na mala, que tambm fechou.
       Ishmael estava de p a seu lado.
        Foi uma viagem longa?  perguntou.
        Vim da Lbia  respondeu Achmed, acenando afirmativamente.
        Do mar.
        Do mar!  exclamou Ishmael, estupefacto, pois nunca vira o mar.  Mas porqu?
        Tem a ver com esta guerra.
        Dois bandos de europeus a lutarem entre si pela posse do Cairo ... Que interessa essa luta aos filhos do deserto?
        O povo da minha me participa na guerra  respondeu Achmed.
        Um homem deve seguir o seu pai.
        E se tem dois pais?
       Ishmael encolheu os ombros. Sabia o que eram dilemas.
       Achmed pegou na mala e pediu-lhe:
        Guardas-me isto?
        Guardo  respondeu o primo, retirando-lha das mos.  Quem est a ganhar a guerra?
        O povo da minha me. So como os nmadas: orgulhosos, cruis e fortes. Vo dominar o Mundo.
       Os dois primos entreolharam-se. Tinham passado cinco anos sem se verem. o Mundo mudara. Achmed pensou em tudo quanto poderia contar: o encontro crucial de Beirute, em 1938, a sua viagem a Berlim, o seu grande golpe em Istambul ... Nenhum destes incidentes significaria fosse o que fosse para o primo  e Ishmael pensava provavelmente o mesmo a respeito de acontecimentos dos seus ltimos cinco anos. Em rapazes tinham-se estimado ferozmente, mas nunca tinham tido nada para dizer um ao outro.
       Aps um momento, Ishmael levou a mala para a sua tenda. Achmed foi buscar um pouco de gua numa tigela. Abriu a mala da roupa, da qual retirou um pouco de sabo, um pincel, um espelho e uma navalha. Enterrou o espelho na areia, fixou-o e comeou a desenrolar o howli que lhe envolvia a cabea.
       O rosto que viu reflectido no espelho assustou-o.
       A sua testa forte e normalmente lisa estava coberta de crostas, a barba escura crescia-lhe, emaranhada e revolta, nas faces de malares salientes e a pele do nariz, grande e adunco, apresentava-se vermelha e gretada. Entreabriu os lbios empolados e notou que os seus dentes, pequenos e regulares, estavam imundos.
       Espalhou sabo na barba com o pincel e comeou a barbear-se.
       Pouco a pouco, o rosto antigo reapareceu. Era mais forte do que belo e normalmente apresentava uma expresso que, nos seus momentos de maior relaxamento, ele reconhecia como levemente dissoluta. Mas naquele momento apresentava-se simplesmente devastado.
       Levou a mala para a tenda de Ishmael. Despiu a roupa do deserto e envergou uma camisa inglesa branca, uma gravata s riscas, pegas cinzentas e fato castanho aos quadrados. Quando tentou calar os sapatos, verificou que tinha os ps inchados.
       Foi um tormento tentar enfi-los no cabedal novo e duro. Por fim, cortou-os com a faca de lamina curva e calou-os sem apertar os atacadores.
       Necessitava de mais coisas: um banho quente, um corte de cabelo, creme fresco e balsmico para as feridas, uma camisa de seda, uma pulseira de ouro, uma garrafa de champanhe gelado e o corpo tpido e macio de uma mulher. Mas isso teria de esperar.
       Quando saiu da tenda, os nmadas olharam-no como se fosse um desconhecido. Ishmael aproximou-se e os primos abraaram-se.
       Achmed retirou uma carteira do bolso do casaco para verificar os seus documentos. Ao olhar para o bilhete de identidade, consciencializou que era de novo Alexander Wolff, de trinta e quatro anos, morador na Villa les oliviers, Garden City, Cairo. Homem de negcios de ascendncia europeia.
       Colocou o chapu, pegou nas duas malas restantes  uma pesada e outra leve  e preparou-se para percorrer os ltimos quilmetros de deserto at  cidade.
       A antiga estrada das caravanas, que Wolff seguira de osis em osis atravs do deserto imenso e vazio, atravessava um desfiladeiro da montanha e acabava por se fundir com uma estrada moderna, ladeada de uma parte por colinas amarelas, poeirentas e ridas e da outra por viosos campos de algodo sulcados por valas de irrigao, onde os camponeses se curvavam sobre as suas colheitas. Enquanto palmilhava a estrada para norte, aspirava a brisa fresca e hmida que soprava do Nilo prximo e observava os sinais crescentes de civilizao urbana, Wolff comeou a sentir-se novamente humano. Por fim, ouviu o motor de um automvel e compreendeu que conseguira.
       O veculo que se aproximava vindo da direco da cidade de Asyut era um jipe militar. Quando ficou perto, Wolff viu os uniformes do Exrcito Britnico dos homens que viajavam nele e compreendeu que deixara para trs um perigo apenas para enfrentar outro.
       Fez um esforo deliberado para se manter calmo. "Tenho todo o direito de estar aqui", pensou. "Nasci em Alexandria. A minha nacionalidade  egpcia. Possuo uma casa no Cairo. os meus documentos so autnticos. Sou um homem rico, um europeu e um espio alemo atrs das linhas inimigas."
       O jipe parou com um chiar de pneus e uma nuvem de poeira. Um dos homens saltou para a estrada. ostentava trs tiras de tecido em cada ombro da camisa: era capito. Coxeava um pouco.
        De onde diabo surgiu voc?  perguntou.
       Wolff pousou as malas e apontou com um polegar para trs, por cima do ombro.
        O meu carro avariou-se na estrada do deserto.
        Mostre-me os seus documentos, por favor.
       Wolff entregou-lhos. o capito examinou-os e depois ergueu os olhos.
        Parece estafado, Mr. Wolff. Quanto tempo veio a p?
        Desde ontem  tarde  respondeu Wolff, com uma fadiga que no era inteiramente simulada.   Andei perdido.
        O qu?! Passou toda a noite no deserto? Meu Deus,  melhor aceitar uma boleia nossa!   o capito voltou-se para o jipe e ordenou:  Cabo, pegue nas malas deste senhor.
       Wolff abriu a boca para protestar, mas imediatamente a voltou a fechar. Um homem que tivesse caminhado toda a noite aceitaria de bom grado que lhe carregassem a bagagem. Enquanto o cabo colocava as malas na retaguarda do jipe, Wolff lembrou-se, apavorado, de que nem sequer se dera ao trabalho de as fechar  chave. "Como pude ser to estpido?", pensou.
       Mas sabia a resposta: ainda estava sintonizade, com o deserto, onde a ltima coisa que algum pensaria em roubar seria um transmissor de rdio que tinha de ser ligado a uma tomada de corrente. Mas agora precisava de pensar em polcias e documentos, fechaduras e mentiras.
       Decidiu ter mais cuidado e subiu para o jipe.
       O capito instalou-se a seu lado e disse ao motorista:
        Voltamos para a cidade.  Depois apresentou-se a Wolff, estendendo-lhe a mo:  Capito Newman.
       Wolff apertou-lha e observou-o com ateno. o seu companheiro era novo  pelo aspecto teria vinte e poucos anos  , caa-lhe sobre a testa uma madeixa de cabelo agarotada e tinha um sorriso fcil; mas percebia-se na sua atitude o cansao da maturidade que os homens que combatem adquirem precocemente.
        J esteve em combate?  perguntou-lhe Wolff.
        Um pouco.  o capito Newman tocou na pera coxa e explicou:  Arranjei isto no deserto lbio, na Cirenaica. Foi por isso que me mandaram para esta vilria.  Sorriu.  De onde  o seu sotaque?
       A pergunta inesperada apanhou Wolff de surpresa. Alis, pareceu-lhe intencional: o capito Newman era esperto.
       Afortunadamente, Wolff tinha uma resposta preparada:
        Os meus pais eram beres que vieram da frica do Sul para o Egipto. Cresci a falar africnder e rabe.  Hesitou, enervado por parecer demasiado ansioso por fornecer explicaes:  A origem do apelido Wolff  holandesa.
       Newman pareceu cortesmente interessado.
        Que o trouxe c?
        Tenho interesses comerciais em vrias cidades a montante d rio.  Wolff sorriu e acrescentou:  Gosto de fazer visitas surpresa aos meus representantes.
       Estavam a entrar em Asyut. Pelos padres egpcios, era uma grande cidade, com fbricas, hospitais, uma universidade muulmana e uns sessenta mil habitantes. Wolff estava quase a pedir que o deixassem na estao do caminho de ferro, mas Newman evitou-lhe esse erro:
        Vamos lev-lo  garagem do Nasif  disse o capito.  Ele tem um reboque.
        Obrigado  agradeceu Wolff com esforo, e engoliu em seco.
       Continuava a no raciocinar com a rapidez necessria. " o deserto", pensou. "Tornou-me lento." Consultou o relgio. Tinha tempo para uma farsa na garagem, sem no entanto perder o comboio dirio que o levaria cerca de quinhentos quilmetros para norte, at ao Cairo. Teria de entrar na garagem e demorar-se at os soldados partirem. Pediria informaes acerca de peas para automveis ou qualquer outro acessrio, aps o que seguiria para a estao. Se tivesse sorte, talvez o garagista e o capito Newman nunca chegassem a trocar informaes a respeito de Alex Wolff. o jipe percorria as ruas estreitas e movimentadas. Wolff apreciava os aspectos familiares de uma cidade egpcia: as mulheres com carregos  cabea, os espertalhes de culos de sol, as pequenas lojas disseminadas nas ruas esburacadas, os automveis amachucados e os burros sobrecarregados. Pararam defronte de uma srie de construes baixas de tijolo. A estrada estava semibloqueada por uma velha camioneta e pelos restos de um Fiat desfeito.
        Tenho de o deixar aqui  disse Newman.  Questes de servio.
        Foi muito amvel  redarguiu Wolff, apertando-lhe a mo.
        Custa-me abandon-lo assim ...  prossegui  Newman. J sei! Deixo-lhe o cabo Cox para olhar por si.
         muito amvel, mas, francamente ...
       O capito no lhe deu ouvidos e ordenou:
        Pegue nas malas deste senhor, Cox. Quero que cuide dele compreende?
        Sim, meu capito!  respondeu Cox.
       Wolff praguejou intimamente. A amabilidade do capito Newman estava a transformar-se num incmodo. Seria acaso intencional?
       Wolff apercebeu-se de que o seu plano de entrar no Egipto despercebidamente podia muito bem fracassar. Ele e Cox apearam-se e o Jipe arrancou.
       Wolff entrou na garagem de Nasif e Cox seguiu-o com as malas. 
       Nasif, um jovem sorridente, estava a reparar um automvel  luz de um candeeiro a petrleo. Wolff dirigiu-se-lhe rapidamente num rabe egpcio:
        O meu carro avariou-se. Disseram-me que tinha um reboque.
        Tenho. Podemos partir imediatamente. onde est o carro?
        Na estrada do deserto, a setenta ou oitenta quilmetros daqui. E um Ford. Mas ns no vamos consigo.  Retirou a carteira do bolso e deu a Nasif uma nota de libra inglesa.  Encontra-me no Grande Hotel, junto da estao de caminho de ferro.
       Nasif aceitou o dinheiro com alacridade.
        Muito bem!  exclamou.
       Wolff acenou secamente com a cabea e girou nos calcanhares. 
       Ao sair da garagem seguido por Cox, consultou de novo o relgio. Ainda tinha tempo para apanhar o comboio.
       Livrar-se-ia do cabo no trio do hotel e depois comeria qualquer coisa enquanto esperasse.
       Cox era um homem baixo e moreno, com um sotaque regional britnico que Wolff no sabia identificar. Parecia aproximadamente da idade de Wolff e o facto de ainda ser cabo talvez significasse que no era muito inteligente.
       Entraram no hotel e Wolff virou-se para Cox:
        Muito obrigado, cabo. Agora j pode voltar para o seu trabalho.
        No tenho pressa, Mr. Wolff  redarguiu Cox alegremente.  Levo-lhe as malas para cima.
        Tenho a certeza de que tm mandaretes e ...
        No seu lugar no confiava neles, Mr. Wolff.
       A situao assemelhava-se cada vez mais a um pesadelo ou uma farsa em que pessoas bem-intencionadas o foravam a um comportamento cada vez mais insensato em consequncia de uma pequena mentira. ocorreu-lhe a ideia tremendamente absurda de que talvez soubessem tudo e estivessem a brincar com ele.
       Afastou semelhante ideia e disse a Cox:
        Obrigado.
       Foi  recepo e pediu um quarto. Viu as horas: faltavam quinze minutos para o comboio partir. Um mandarete nbio levou-os ao quarto e Wolff gratificou-o  porta. Cox colocou as malas sobre a cama.
        Bem, cabo, foi muito til ...
        Deixe-me desfazer-lhe as malas, Mr. Wolff  interrompeu-o Cox.
        No, obrigado  respondeu Wolff em tom firme.  Quero deitar-me.
        Deite-se  vontade  insistiu Cox generosamente.   No levo mais de ...
        No abra isso!
       Cox erguia a tampa da mala mais leve. Wolff levou a mo ao interior do casaco, pensando: "Diabo do homem, l se foi o segredo!" E: "Conseguirei fazer isto sem barulho?" o cabo contemplava os montes ordenadamente acondicionados de libras inglesas novas que enchiam a mala. Comentou:
        Meu Deus, est bem aviado!  Cox comeou a virar-se para ele, enquanto dizia:   o que quer com toda esta ...?
       Wolff sacou da mortfera faca beduna de lamina curva, que lhe cintilou na mo quando os seus olhos encontraram os de Cox e este se encolheu e abriu a boca para gritar. A lamina afiada como uma navalha cortou-lhe a garganta, o grito de medo transformou-se num gorgolejar de sangue e ele morreu. Wolff sentiu apenas desapontamento.
       
       
       
       Captulo 2
       
       Corria o ms de Maio e soprava o khamsin, um vento quente e carregado de poeira procedente do sul. De p sob o chuveiro, William Vandam teve o pensamento deprimente de que aquele momento seria o nico em que se sentiria fresco durante todo o dia. Fechou a torneira e enxugou-se rapidamente. Tinha o corpo dorido. Na vspera jogara crquete pela primeira vez em anos. 
       O Estado-Maior dos Servios de Informao formara uma equipa para jogar com os mdicos do hospital de campanha  espies contra curandeiros, como lhe tinham chamado , e Vandam ficara muito maltratado numa jogada mais violenta. Era forado a admitir que no se encontrava em boa forma. os cigarros haviam-lhe encurtado o flego e as muitas preocupaes tinham-no impedido de se concentrar no Jogo.
       Acendeu um cigarro, tossiu e comeou a barbear-se. Fumava sempre enquanto se barbeava  era a nica maneira que conhecia de tornar menos enfadonha aquela inevitvel tarefa diria.
       Quinze anos antes jurara a si prprio que deixaria crescer a barba assim que sasse da tropa, mas estava-se em 1942 e continuava no Exrcito.
       Vestiu o uniforme de todos os dias: sandlias grossas, pegas, camisa de mato e cales de caqui. Depois desceu. Gaafar estava na cozinha a fazer ch. o criado de Vandarn era um copta idoso, de cabea calva e andar arrastado, com pretenses a mordomo ingls. Claro que nunca o seria, mas tinha uma certa dignidade e era honesto.
        Billy j se levantou?  perguntou-lhe Vandam.
        J sim, Sr. Major. Desce j.
       Vandam dirigiu-lhe com a cabea um sinal de assentimento.
       Sobre o fogo a gua borbulhava numa pequena caarola. Vandam introduziu-lhe um ovo dentro e regulou o relgio. Fez torradas, barrou-as com manteiga, retirou o ovo da gua e cortou-lhe uma das extremidades.
       Billy entrou na cozinha:
        Bons dias, pai!
       Vandam sorriu ao filho, de dez anos, e anunciou:
        O pequeno-almoo est pronto.
       O rapaz sentou-se e comeou a comer. Vandam sentou-se  sua frente com uma chvena de ch, observando-o. Era afirmao corrente que Billy se parecia com ele, mas Vandam no conseguia descobrir a semelhana. Detectava, no entanto, na criana traos da me: os olhos cinzentos, a pele delicada e a expresso levemente arrogante que arvorava quando algum o irritava.
       Vandam preparava sempre o pequeno-almoo do filho. A maior parte do tempo era o criado quem olhava pelo rapaz, mas Vandam gostava de reservar para si aquele pequeno ritual.
       Frequentemente, era o nico momento do dia que passava com o filho.
       Depois de tomar o pequeno-almoo, Billy foi lavar os dentes, enquanto Gaafar trazia para a porta a motocicleta de Vandam, uma veloz BSA 350, muito prtica para atravessar os engarrafamentos de transito do Cairo. Billy regressou com o bon da escola e Vandam colocou tambm o seu. Como todos os dias, fizeram a continncia um ao outro e Billy disse:  Muito bem. Vamos l ganhar a guerra.
       Depois saram. 
       O gabinete do major Vandam situava-se num grupo de edifcios cercados de arame farpado que constituam o Quartel-General do Mdio oriente. Quando chegou, o oficial encontrou sobre a secretria o relatrio de um incidente. Sentou-se, acendeu um cigarro e comeou a ler.
       O relatrio procedia de Asyut e inicialmente Vandam no compreendeu por que motivo fora enviado para o Servio de Informaes. Uma patrulha dera boleia a um europeu que, posteriormente, assassinara um cabo com uma faca. o corpo fora encontrado na noite anterior, vrias horas aps a morte. Um homem cuja descrio correspondia  do referido europeu comprara um bilhete para o Cairo na estao de caminho de ferro local. No havia qualquer indicao quanto ao mbil do crime.
       Nesse momento a Polcia Egpcia e a Polcia Militar Britnica deviam j estar a proceder a investigaes em Asyut e no Cairo. Qual a razo para intrometer no caso o Servio de Informaes?
       Vandam franziu a testa, pensativo. Depois compreendeu. Ligou para Asyut e mandou chamar o capito Newman.
        Esse assassnio  facada parece dever-se a um disfarce que foi ao ar  observou Vandam.
        Foi o que me pareceu, meu major  respondeu Newman, que pela voz parecia ser jovem.  Por isso mandei o relatrio para o Servio de Informaes.
        Bom raciocnio. Que impresso lhe deixou o homem? Tenho aqui a descrio dele  um metro e oitenta, setenta e sete quilos e cabelo e olhos escuros  , mas isso no me diz como ele era.
        Bem, para ser franco, inicialmente no desconfiei dele-confessou Newman.   Pareceu-me um cidado honesto: decentemente vestido, bem falante, com um sotaque que disse ser holands, ou melhor, africnder, e documentos autnticos.
        Mas?...
        Disse-me que andava em viagem de negcios a visitar representantes de interesses comerciais que tinha no Alto Egipto, mas no me pareceu homem para passar a vida a investir numas lojazitas e numas herdades de algodo. Era muito mais o tipo cosmopolita senhor de si. Se tivesse dinheiro para investir, provavelmente trataria com um corretor londrino ou um banco suo. Depois, lembrei-me de que aparecera de repente no deserto sem que eu soubesse de facto de onde poderia ter vindo, e por isso disse ao pobre do Cox que ficasse com ele, a pretexto de o ajudar, at termos possibilidade de confirmar a sua histria. Devia t-lo prendido, claro, mas tinha apenas uma suspeita muito vaga ...
        No creio que algum o censure, capito   interrompeu Vandam.  J foi bom ter fixado o nome e o endereo mencionados nos documentos. Alexander Wolff, Villa les oliviers, Garden City, no ?
        Exactamente, meu major.
        Muito bem. Mantenha-me ao corrente se houver alguma novidade do seu lado.
       Vandam desligou. As suspeitas de Newman corroboravam o que o seu prprio instinto lhe dizia a respeito do crime. Resolveu falar com o seu superior e saiu do gabinete, levando o relatrio do incidente.
       O superior de Vandam, o tenente-coronel Bogge, era um director-adjunto do Servio de Informaes. Bogge era responsvel pela segurana do pessoal e dedicava a maior parte do seu tempo ao funcionamento do aparelho de censura. A cargo de Vandam estavam as fugas de segurana por outros meios que no cartas.
       Ele e os seus homens tinham vrias centenas de agentes no Cairo e em Alexandria; Vandam tinha informadores na maioria dos clubes e dos bares e entre o pessoal domstico dos mais importantes polticos rabes. o criado de quarto do rei Faruk trabalhava para Vandam, bem como, ocasionalmente, Abdullah, o mais rico ladro do Cairo, cujos servios estavam  venda a favor de qualquer dos lados. Vandam estava interessado em saber quem falava demais e quem ouvia, e entre estes ltimos os nacionalistas rabes constituam o seu alvo principal. No entanto, o misterioso homem de Asyut parecia representar um tipo de ameaa diferente.
       At quele momento, a carreira militar de Vandam em tempo de guerra fora distinguida por um xito espectacular e um grande fracasso. Este verificara-se na Turquia, onde Rashid Ali, primeiro-ministro nacionalista do Iraque, conseguira exilar-se. os Alemes tinham querido lev-lo do pas e utiliz-lo para fins de propaganda. A misso de Vandam consistira em certificar-se de que Ali permaneceria em Istambul, mas este trocara de roupa com um agente alemo e sara do pas mesmo nas barbas de Vandam. Poucos dias depois, Ali proferia discursos de propaganda para o Mdio oriente atravs da rdio nazi. Vandam redimira-se no Cairo, onde descobrira uma importante fuga de segurana: um diplomata americano comunicava com Washington atravs de um cdigo que no oferecia confiana. o cdigo fora alterado, a fuga de segurana colmatada e Vandam promovido a major.
       Se fosse um soldado em tempo de paz, ter-se-ia sentido orgulhoso do seu triunfo e resignado com a sua derrota: "Umas vezes ganha-se, outras perde-se." Mas em guerra os erros de um oficial causavam mortes. Em consequncia do caso Rashid Ali, uma agente    uma mulher ainda jovem   fora assassinada, e Vandam no conseguira perdoar-se a Sl mesmo.
       Bateu  porta do tenente-coronel Bogge e entrou. Reggie Bogge era um cinquentenrio de baixa estatura e entroncado, cabelo preto untado de brilhantina, que envergava um uniforme imaculado. Tinha uma tosse nervosa, a que recorria quando no sabia que dizer, o que se verificava frequentemente. Sentado a uma enorme secretria curva, despachava o trabalho amontoado no seu tabuleiro. Quando Vandam se sentou, Bogge disse:
         Mais umas malditas notcias desagradveis. Espervamos que Rommel atacasse a linha de Gazala a direito, mas devamos ter pensado melhor. Ele contornou o nosso flanco sul e tomou o Quartel-General do 7.o de Blindados.
        Quando  que vamos det-lo?   perguntou Vandam, preocupado.
        No avanar muito mais  respondeu Bogge, que no queria criticar os generais.   Que traz a?
       Vandam entregou-lhe o relatrio do incidente e observou:
        Parece tratar-se de um disfarce que foi ao ar.
       Bogge leu o relatrio.
        Quer dizer que ele era um espio?  indagou, e riu desdenhosamente.   Como lhe parece que chegou a Asyut? De pra-quedas? ou veio a p?
       O mal de Bogge era aquele, pensou Vandam. Tinha de ridicularizar a ideia por no ter sido ele a t-la.
        No  impossvel um pequeno avio conseguir passar. E tambm no  impossvel atravessar o deserto.
       Bogge atirou o relatrio pelo ar, atravs da secretria, e declarou:
        Acho muito improvvel. No perca tempo com isso.
        Muito bem, meu coronel.  Vandam apanhou o relatrio do cho contendo a clera habitual.  No entanto, vou pedir  Polcia que nos mantenha informados, por uma questo de rotina.
       Ao regressar ao seu gabinete, uma mulher de bata hospitalar branca fez-lhe a continncia, que ele retribuiu distraidamente. A mulher interpelou-o:
         o major Vandam, no ?
       O oficial deteve-se e olhou-a. Ela assistira ao jogo de criquete, e agora Vandam lembrava-se do seu nome:
        Bons dias, Dr.a Abuthnot  saudou.
       Era uma mulher alta e morena, aproximadamente da sua idade, e Vandam recordou-se tambm de que era cirurgia e tinha a patente de capito.
        Ontem esforou-se muito no jogo, major.
        Mas gostei  afirmou Vandam, sorrindo.
        Tambm eu.  Tinha uma voz baixa e clara e via-se que possua uma grande dose de confiana.  Vemo-lo na sexta-feira?
        Onde?
        Na recepo do Union.
        Ah!  o Anglo-Egyptian Union, clube para europeus enfastiados, oferecia ocasionalmente uma recepo a convidados e egpcios para tentar justificar o seu nome.  Vou com certeza.  Vandam estava profissionalmente interessado em comparecer: tratava-se de uma ocasio em que alguns egpcios poderiam ouvir algumas coscuvilhices de servio, as quais continham por vezes informaes teis para o inimigo.   Com todo o gosto.
        ptimo. Vemo-nos l.   E a mdica afastou-se.
       Vandam acompanhou-a com o olhar, enquanto ela atravessava o hall. Era esbelta, elegante e senhora de si. Recordava-lhe Angela, a sua mulher.
       Entrou no seu gabinete de novo a pensar no relatrio do capito Newman. No tencionava esquecer o assassnio de Asyut. Bogge que fosse para o inferno. Ele ia trabalhar no assunto. 
       Comeou por telefonar  Polcia Egpcia, e foi-lhe confirmado que naquele dia seriam visitados os hotis e as penses baratas do Cairo. Contactou tambm a segurana de campo britnica e pediu que acelerassem o controle de documentos de identificao. Transmitiu instrues ao oficial tesoureiro para que fosse prestada especial ateno  eventual existncia de notas falsas. Recomendou aos servios de escuta de TSF que estivessem atentos a qualquer transmisso de um novo emissor local, e destacou um sargento para visitar todos os estabelecimentos de rdio da rea e pedir-lhes que comunicassem qualquer venda de peas e equipamento que pudessem ser utilizados para reparar ou fabricar um emissor.
       Depois, dirigiu-se ao endereo indicado nos documentos de Alex Wolff.
       A Villa les oliviers devia o nome a um pequeno jardim pblico existente do outro lado da rua e no qual um reduzido olival se encontrava naquele momento em flor, disseminando sobre a erva seca e castanha ptalas brancas semelhantes a poeira.
       A casa tinha um muro alto, interrompido por um pesado porto de madeira trabalhada. Servindo-se dos ornamentos como de apoios para os ps, Vandam escalou o porto, saltou e encontrou-se num vasto ptio. As paredes caiadas de branco estavam sujas e a tinta das portadas fechadas apresentava-se estalada. Havia pelo menos um ano que ningum ali vivia.
       Vandam abriu uma portada, partiu uma vidraa, enfiou a mo pela abertura para abrir a janela e saltou pelo parapeito para dentro de casa.
       No parecia a casa de um europeu, pensou ao percorrer as salas escuras e frescas. No havia gravuras de caa suspensas nas paredes. nem fiadas de romances de sobrecapas coloridas, nem mobilirio importado dos Harrods, de Londres. Em seu lugar viam-se grandes almofadas, mesas baixas, tapetes tecidos  mo e tapearias.
       No primeiro andar, por detrs de uma porta fechada  chave que abriu a pontap, encontrou um escritrio limpo e arrumado, com alguns mveis bastante luxuosos: um diva largo e baixo forrado de veludo, uma mesa de apoio entalhada  mo, uma secretria com belos embutidos e uma cadeira de couro. Na gaveta da secretria descobriu relatrios de empresas da Sua, da Alemanha e dos Estados Unidos. A acumular p numa prateleira atrs da secretria havia livros em vrias lnguas: romances franceses do sculo XIX, o Shorter oxford English Dictionary, um volume de poesia rabe com ilustraes erticas e a Bblia em alemo. No havia documentos pessoais, nem cartas, nem uma nica fotografia.
       Vandam sentou-se  secretria na macia cadeira de couro e olhou em redor. Era uma sala masculina, o lugar privado de um intelectual cosmopolita, de um homem simultaneamente cuidadoso, meticuloso e arrumado e sensitivo e sensual. 
       Vandam sentia-se intrigado. Um nome europeu e uma casa totalmente rabe. Uma abundncia de informaes a respeito do carcter do proprietrio, mas nem uma pista que ajudasse a encontrar o homem. Deveria haver extractos de contas bancrias, contas uma certido de nascimento, um testamento, fotografias de pais ou filhos. o homem, porm, no deixara nenhum vestgio da sua identidade, como se soubesse que um dia algum os iria procurar.
        Alex Wolff, quem s tu?  perguntou Vandam em voz alta.
       Levantou-se da cadeira e saiu da casa. Escalou de novo o porto e saltou para a rua. Do outro lado da estrada, um rabe envergando uma galabia branca  nome por que  designado o vesturio solto dos nativos  , sentado no cho, de pernas cruzadas,  sombra das oliveiras, observava Vandam negligentemente. o major pensou noutras fontes onde poderia procurar informaes sobre o dono da casa: arquivos municipais, comerciantes locais e vizinhos. Encarregaria dessa tarefa dois dos seus homens e inventaria uma histria qualquer para contar a Bogge como justificao. Montou na motocicleta e embraiou. o motor roncou e Vandam afastou-se.
       Sentado defronte da sua casa, dominado pela clera e pelo desespero Wolff viu o oficial britnico partir. o oficial era arrogante e intrometido  invadira e violara o domnio de Wolff. Este lamentou no lhe ter visto o rosto, pois gostaria um dia de o matar.
       Pensara naquela casa durante toda a viagem. Em Berlim e Tripoli, na travessia do deserto e na fuga apressada de Asyut, a vivenda representara sempre um porto de abrigo, um lugar onde poderia repousar, purificar-se, recuperar-se a si mesmo.
       Mas agora tinha de se afastar e de se manter afastado.
       Permanecera ali toda a manha, com a galabia que comprara no mercado nativo, no fosse o capito Newman ter fixado a morada e mandado algum revistar a casa. Fora um erro mostrar documentos de identificao autnticos. Compreendia-o agora, retrospectivamente. o problema  que no confiava nas falsificaes feitas pelos Servios. Secretos Alemes. Em conversas com outros espies ouvira histrias pavorosas sobre erros primrios que os documentos deles registavam: impresso empastada, erros ortogrficos em palavras inglesas correntes, etc. Wolff avaliara as alternativas e optara pela que lhe parecera menos arriscada. Enganara-se e agora no tinha para onde ir.
       Levantou-se, pegou nas duas malas e comeou a andar.
       Pensou na sua famlia. A me e o padrasto egpcio tinham morrido, mas tinha trs meios-irmos e uma meia-irma no Cairo.
       Seria, porm, difcil esconderem-no. Seriam interrogados quando os Ingleses descobrissem o seu relacionamento com eles.
       Talvez mentissem, mas os seus criados falariam com certeza.
       Deixou Garden City e dirigiu-se para o centro. As ruas estavam ainda mais movimentadas do que quando deixara o Cairo. Havia inmeros uniformes  no s britnicos, mas tambm australianos, neozelandeses, polacos, jugoslavos, palestinianos, indianos e gregos. os mendigos e os vendedores tinham sado para as ruas em fora, a fim de tirarem partido do afluxo de estrangeiros ingnuos.
       O transito tambm piorara. os lentos e miserveis troleicarros andavam mais cheios do que nunca, com passageiros empoleirados nos estribos e sentados, de pernas cruzadas, nos tejadilhos.
       No tocante a autocarros e txis, a situao no era melhor: parecia haver falta de peas, pois muitos dos automveis tinham janelas partidas, pneus carecas e motores avariados. os nicos veculos decentes eram as monstruosas limusinas americanas dos paxs ricos. De mistura com os veculos motorizados viam-se gharries puxadas a cavalos e carroas de camponeses puxadas por parelhas de muares e gado: camelos, carneiros e cabras.
       E o barulho ... Wolff esquecera-se do barulho. Tilintavam campainhas de troleicarros, buzinavam automveis e condutores de carroas e camelos gritavam a plenos pulmes. Rdios baratos de lojas e cafs, com o volume no mximo, transmitiam msica rabe que ecoava pelas ruas. Vendedores apregoavam e ces ladravam. De vez em quando, todos esses rudos eram abafados pelo roncar de um avio.
       "Esta  a minha cidade", pensou Wolff. "Aqui no me podem apanhar. "
       Lembrou-se de uma penso barata, gerida por freiras, em Bulaq, o bairro do porto. Acolhia principalmente marinheiros que desciam o Nilo em rebocadores a vapor e faluchos carregados de algodo, carvo, papel e pedra. Ningum se lembraria de o procurar a.
       O albergue estava instalado num grande edifcio em runas, que fora em tempos vivenda de algum pax. Atravs da arcada da frente, Wolff viu o trio fresco e sossegado. Nesse dia carregara as malas durante quilmetros, e estava ansioso por descansar.
       Dois polcias egpcios saram do albergue.
       Wolff sentiu-se sucumbir. Virou-se e continuou a andar. Era pior do que imaginara. A Polcia devia estar a investigar em toda a parte. Comeava a experimentar a sensao que tivera no deserto, de que caminhava sem descanso sem chegar a lado nenhum.
       Viu um txi, um grande Ford velho de sob cujo capot o vapor irrompia, sibilante. Meteu-se nele e mandou seguir para o Cairo Copta, o antigo bairro cristo. Pagou ao motorista e desceu os degraus que lhe davam acesso.
       O bairro era uma ilha de escurido e silncio no mar tempestuoso do Cairo. Wolff percorreu os becos estreitos e penetrou na mais pequena das cinco antigas igrejas. o servio religioso estava prestes a iniciar-se. Colocou as preciosas malas ao lado de um banco e sentou-se.
       O coro comeou a entoar uma passagem das Escrituras. Wolff instalou-se no banco. Ali estaria em segurana at escurecer.
       Depois despiria a  alabia e tentaria a ltima cartada.
       O Cha-Cha era um grande clube nocturno situado num jardim junto ao rio. Estava cheio, como de costume, mas Wolff conseguiu arranjar uma mesa e pediu uma garrafa de champanhe.
       A noite estava quente e as luzes do palco tornavam-na ainda mais quente. A assistncia turbulenta comeou a gritar pela estrela do espectculo. Sonja el-Aram. Por fim, ouviu-se um rufar de tambores, as luzes a a aram-se e fez-se silncio.
       Quando o projector se acendeu, Sonja permaneceu imvel no meio do palco, de braos erguidos para o cu. Vestia umas calas difanas e um corpete coberto de lantejoulas. A msica soou  tambores e uma flauta  e ela comeou a mover-se. Wolff observava-a, sorrindo, sorvendo o champanhe. Ela continuava a ser a melhor.
       Meneava as ancas com lentido, apoiando firmemente no cho ora um p, ora outro. os braos comearam-lhe a tremer, depois moveu os ombros e sacudiu os seios. E por fim o seu ventre famoso agitou-se hipnoticamente. o ritmo acelerou-se. Sonja fechou os olhos. Cada parcela do seu corpo parecia mover-se independentemente do restante. A assistncia mantinha-se silenciosa, fascinada. Ela prosseguiu com rapidez crescente, como que em transe. A msica atingiu o auge, clangorosamente.
       No instante de silncio que se seguiu, Sonja soltou um grito agudo e breve; depois caiu para trs, as pernas dobradas sob o corpo, at tocar com a cabea nas tbuas do palco. Sustentou a posio um momento, at o projector se apagar. A assistncia levantou-se numa tempestade de aplausos, as luzes acenderam-se... e ela desaparecera.
       Sonja nunca bisava.
       Wolff ofereceu uma libra ao criado  trs meses de salrio para a maioria dos Egpcios  e pediu-lhe que o conduzisse aos bastidores. o homem mostrou-lhe a porta do camarim de Sonja e afastou-se. Wolff entrou.
       Ela estava sentada num banco, de robe de seda, removendo a caracterizao. Quando o viu no espelho, rodou sobre si.
        Ol, Sonja  saudou-a Wolff. 
       Os olhos dela coruscaram de clera.
        Que fazes aqui?
       No mudara. Era uma mulher bonita. Tinha cabelo comprido e lustroso; grandes olhos castanhos com fartas pestanas; malares salientes e nariz curvo e graciosamente arrogante; duas fiadas de dentes brancos e regulares. No obstante as curvas sinuosas do seu corpo, no parecia rolia, pois era mais alta do que a mdia.
       Wolff pousou as malas e sentou-se no diva. Ela ergueu-se e postou-se  sua frente, mos nas ancas, queixo lanado para a frente, a seda verde do robe a delinear-lhe os seios.
        s bela  disse-lhe ele.
        Vai-te embora.
       Wolff observou-a cuidadosamente. Parecia zangada e desdenhosa, mas est-lo-ia?
        Preciso de auxlio  confessou francamente.  os Ingleses andam atrs de mim, esto a vigiar a minha casa. Quero ir viver contigo.
        Vai para o inferno.
        Espera um minuto, deixa-me contar-te por que motivo te abandonei.
        Ao fim de dois anos, no h desculpa que sirva.   Sonja lanou-lhe um olhar furioso e depois abriu a porta.
       Wolff julgou que fosse p-lo fora, mas em vez disso estendeu a cabea para o exterior e gritou:
        Tragam-me uma bebida!  Wolff descontraiu-se um pouco e Sonja fechou a porta.  Tens um minuto  declarou. Sentou-se de novo no banco e continuou a desmaquilhar-se.
       Wolff hesitou. Como poderia explicar-lhe o motivo por que a deixara sem se despedir e nunca mais voltara a comunicar com ela? No obstante a relutncia que sentia em compartilhar o seu segredo, compreendeu que tinha de lhe dizer a verdade, pois estava desesperado e ela era a sua nica esperana.
        Deves lembrar-te de que fui a Beirute em 1938. Fui encontrar-me com um oficial do Exrcito Alemo que me convidou a trabalhar para a Alemanha na guerra que se avizinhava. Aceitei.
       Ela desviou o rosto do espelho e fitou-o de frente. Wolff viu-lhe nos olhos um claro que poderia ser de esperana.
        Disseram-me que regressasse ao Cairo e aguardasse. H dois anos mandaram-me ir a Berlim, e eu fui. Frequentei um curso de treino e depois trabalhei no Levante. Voltei a Berlim em Fevereiro a fim de receber instrues para uma nova misso. Mandaram-me para c . . .
        s espio?  perguntou, incrdula.   No acredito.
        Olha.    Pegou numa das malas e abriu-a.   Isto  um emissor de rdio para enviar mensagens a Rommel.   Fechou a mala, abriu a outra e acrescentou:  Isto  o meu financiamento.
       Sonja fitou, assombrada, os maos de notas ordenadamente dispostas.
         uma fortuna!  exclamou.
       Bateram  porta e Wolff fechou a mala. Entrou um criado com uma garrafa de champanhe num balde de gelo. Ao ver Wolff, perguntou:
        Trago outra taca?
        No  respondeu a bailarina, impaciente.  V-se embora! 
       O criado saiu. Wolff abriu a garrafa, encheu a taa, deu-a a Sonja e sorveu um grande gole pelo gargalo.
        Escuta  pediu.  o nosso exrcito precisa de saber qual  a fora dos Ingleses: nmero de soldados, que divises esto em campo, nomes dos comandantes, tipo de armas e equipamento e planos de combate. Ns podemos descobrir essas coisas. Depois, quando os Alemes tomarem o Cairo, seremos heris.
        Ns?
        Podes ajudar, comeando por me dares um lugar para viver. Odeias os Ingleses, no odeias? No queres v-los corridos de c?
        Faria o que pedes por qualquer pessoa, menos por ti.
        Sonja! Se eu te tivesse mandado nem que fosse um postal de Berlim, os Ingleses ter-te-iam metido na priso. No tens que estar zangada.  Baixou a voz e continuou:  Podemos reviver os velhos tempos. 'teremos boa cozinha, champanhe do melhor e roupas novas. Iremos para Berlim, onde sempre desejaste danar. Sers uma estrela. Ns ...  Fez uma pausa, pois nada do que dizia produzira efeito nela. Chegara a altura de jogar a sua ltima carta:  Como est a tua amiga Fawzi?
       Sonja baixou os olhos.
        Foi-se embora.
       Wolff colocou ambas as mos no pescoo de Sonja e, exercendo presso com os polegares sob o queixo dela, obrigou-a a levantar-se.
        Arranjo-te outra Fawzi  prometeu suavemente, e viu-lhe os olhos humedecerem-se-lhe de sbito.  Sou o nico que compreende aquilo de que precisas.  Baixou a boca ao encontro da dela.
       Sonja fechou os olhos e gemeu:
        Odeio te.
       Na frescura do entardecer, Wolff caminhava ao longo do cais, junto ao Nilo, em direco ao barco habitao de Sonja, o Jlhan. As feridas do seu rosto estavam curadas, vestia um fato branco novo e transportava dois sacos cheios dos seus gneros de mercearia preferidos.
       O subrbio insular de Zamalek era sossegado. S vagamente se ouvia, atravs de uma ampla extenso de gua, o rudo insuportvel do centro do Cairo. o rio, calmo e lodoso, batia levemente nos barcos habitaes atracados ao longo da margem.
       O de Sonja era mais pequeno e mais luxuosamente mobilado do que a maioria. Um portal unia o caminho ao convs superior. 
       Wolff entrou no barco e desceu a escada para o interior, atravancado de cadeiras, divas, mesas e armrios cheios de bugigangas.
       Havia uma cozinha minscula  proa. Reposteiros de veludo dividiam o resto do interior em duas divises, isolando o quarto. A seguir ao quarto,  popa, havia uma casa de banho.
       Sonja estava sentada numa almofada a pintar as unhas dos ps antes de seguir para o Cha Cha Club. Wolff colocou o saco das compras sobre uma mesa e comeou a despej-lo:
        Champanhe francs... marmelade inglesa... salmo escocs
       Sonja ergueu os olhos, estupfacta.
        Ningum tem coisas dessas
       Wolff sorriu.
        H um pequeno merceeiro e sua loja  o  nico lugar do Norte de frica onde se consegue arranjar caviar.
       Sonja introduziu a mo num dos sacos.
        Caviar!  Abriu o boio e comeou a comer com os dedos.
       Wolff ps uma garrafa de champanhe no frigorfico, retirou um jornal de um dos sacos e comeou a folhe-lo.
        Ainda no vem nada a meu respeito.  Contara a Sonja o que se passara em Asyut.
        Do sempre as notcias atrasadas  observou ela com a boca cheia de caviar.
        No  isso. Os Ingleses no querem que se desconfie que os Alemes tm espies no Egipto. Dava mau aspecto.
       Sonja retirou se para o quarto, a fim de mudar de roupa. Do outro lado do reposteiro, perguntou:
        Isso significa que deixaram de te procurar?
        No. Vi o Abdullah no mercado e ele disse-me que um tal major Vandam continua a exercer presso.
        Como  que o Abdullah sabe?  perguntou Sonja.
         ladro, ouve coisas.
       Wolff foi buscar o champanhe ao frigorfico. No estava suficientemente gelado, mas ele encheu duas taas. Sonja saiu do quarto, ligeiramente maquilhada, com um finssimo vestido cor de cereja e sapatos a condizer. Dois minutos depois, chegou o txi para a levar.
       Wolff foi ao armrio onde arrumara o rdio, do qual retirou o romance ingls e a folha de papel com a chave do cdigo, que estudou. Estava se a 28 de Maio e ele tinha de acrescentar 42  o ano  a 28 para obter o nmero da pgina do romance que deveria  utilizar para cifrar a sua mensagem. Como Maio era o quinto ms, todas as quintas letras da pgina seriam descontadas.
       Decidiu enviar a seguinte mensagem: "Cheguei. Acusem recepo. Comeando pelo cimo da pgina 70 do livro, procurou a letra c ao longo da linha. Era a dcima, descontando todas as quintas letras. No seu cdigo seria, portanto, representada pela dcima letra do alfabeto, j. A seguir precisava de um h.
       No livro, a quarta letra depois do c era um h.
       Consequentemente, o h de "cheguei" seria representado pela quarta letra do alfabeto, d. Havia normas especiais para representar as letras menos vulgares, como o x. Para descodificar a mensagem, quem a ouvisse precisaria de ter o livro e a chave, o que tornava o cdigo indecifrvel a estranhos, na teoria e na prtica.
       Depois de cifrar a mensagem, consultou o relgio. Tinha de transmitir s vinte e quatro horas  meia-noite. Ainda tinha tempo. Encheu outra taa de champanhe e resolveu acabar com o caviar. Foi buscar uma colher e pegou no boio. Estava vazio, Sonja comera-o todo.
       A pista de aterragem era uma faixa de deserto que fora apressadamente desbravada de cactos e pedras grandes. Ervin Rommel fitou o solo que parecia subir ao seu encontro. O Storch, um avio ligeiro que utilizava para pequenas viagens pelo campo de batalha, aterrou como uma mosca e parou. Rommel saltou para o cho.
       Sentiu primeiro o impacto do calor e depois o da poeira. No ar estivera relativamente fresco; agora sentia-se como se tivesse entrado num forno. Comeou imediatamente a transpirar, e uma fina camada de p cobriu-lhe os lbios.
       Friedrich von Mellenthin, o seu oficial do Servio de Informaes, atravessou a areia, correndo na sua direco, e anunciou:
        Kesselring est c.
        Auch das noch  explodiu Rommel.  S me faltava isto.
       Albert Kesselring, o sorridente marechal de campo, representava tudo quanto era antiptico a Rommel nas foras armadas alems. Era oficial do Estado-Maior, e Rommel detestava o Estado-Maior; era um dos fundadores da Luftwaffe, que tantas vezes j colocara mal Rommel na guerra do deserto, e era um pedante.
       Rommel avanou pesadamente pela areia na direco do carro de comando  seguido por Von Mellenthin. Entraram pela retaguarda do enorme camio. Kesselring, que estava inclinado sobre um mapa, ergueu os olhos.
        Meu caro Rommel, graas a Deus que voltou!  exclamou em voz sedosa.
       Rommel tirou o bon e redarguiu-lhe:
        Estive a travar um combate.
        J sabia. Que aconteceu?
       Rommel apontou para o mapa e respondeu-lhe:
        Isto  a linha de Gazala.   Tratava-se de uma srie de "boxes" fortificadas, interligadas por campos de minas que se prolongavam da costa, em El Gazala, para sul, at ao deserto lbio, numa extenso de cerca de oitenta quilmetros.  Contornmos a extremidade sul descrevendo uma curva pronunciada e atacmo-los pela retaguarda. Depois esgotaram-se nos a gasolina e as munies.   Sentou se pesadamente, tomado de uma sbita fadiga.  outra vez  acrescentou significativamente. Kesselring, como comandante chefe (Sul), era responsvel pelo aprovisionamento de Rommel.
        Mas estou a ganhar  continuou Rommel.  Se tivesse disposto dos aprovisionamentos necessrios, a esta hora estaria no Cairo.
        No vai para o Cairo  redarguiu lhe Kesselring vivamente.
        Vai para Tobruk e fica l at eu ter tomado Malta. So essas as ordens do Fhrer.
        Claro.  Rommel no ia reabrir essa discusso, pelo menos de momento. o objectivo imediato era Tobruk, o porto britnico fortificado prximo da fronteira egpcia. Uma vez tomado, os comboios de navios procedentes da Europa poderiam seguir directa mente para a linha da frente, evitando assim a longa viagem atravs do deserto.  Mas para chegarmos a Tobruk temos de penetrar na linha de Gazala.
        Que tenciona fazer a seguir?
        Recuar e reagrupar  respondeu Rommel.
        Os Ingleses vo perseguir nos, mas no imediatamente-interveio Von Mellenthin.  So sempre lentos a tirar partido de uma vantagem. Mas mais cedo ou mais tarde vo tentar uma avanada.
        A questo  quando e como  observou Rommel.
        Sem dvida  concordou Mellenthin.  H um apontamento nos relatrios de hoje que lhe vai interessar: o espio deu notcias.
        O espio?    perguntou Rommel. Depois lembrou se. Deslocara se de avio at ao osis Jalo, bem no interior do deserto lbio, a fim de transmitir instrues ao indivduo, antes de ele iniciar uma longa maratona a p para leste. o espio chamava-se Wolff e Rommel ficara impressionado com a sua coragem.  De onde falou ele?
        Do Cairo.
        Ento sempre chegou l! Se foi capaz disso,  capaz de tudo.
       Talvez ele possa prever a avanada.
       Kesselring interveio:
        Meu Deus, no est agora a depender de espies, pois no? As informaes obtidas atravs de espies so da pior espcie.
        De acordo  anuiu Rommel calmamente.  Mas tenho o pressentimento de que este pode ser diferente.
       
       
       
       Captulo 3
       
       Elene Fontana viu o seu rosto reflectido no espelho e pensou:
       "Tenho vinte e trs anos. Devo estar a perder a beleza."
       Aproximou-se mais do espelho e observou-se cuidadosamente,  procura de sinais de deteriorao. A sua tez era perfeita. os seus olhos, castanhos, redondos, continuavam lmpidos como lagos de montanha. No tinha rugas. o seu rosto era quase infantil, delicadamente modelado e com uma expresso de desamparada inocncia. Sorriu. Tinha um sorriso leve, ntimo, com um laivo de malcia-um sorriso que, sabia o, era capaz de causar suores frios a qualquer homem.
       Pegou no bilhete e releu-o.
       
       Minha querida Elene
       Lamento, mas acabou tudo. A minha mulher descobriu. Claro que podes continuar no andar, mas no posso continuar a pagar-te a renda.
       Lamento o que aconteceu, mas creio que ambos sabamos que no podia durar sempre. Felicidades. Teu
       Claud
       
       "Assim sem mais nem menos", pensou, enquanto rasgava o bilhete. Claud, um negociante gordo, semifrancs e semigrego, era instrudo e generoso, mas no queria saber de Elene. Era o terceiro em seis anos. Era tanto por culpa dela como dos homens que os affairs terminavam. A verdadeira causa era sempre a mesma: Elene sentia se infeliz.
       Pensou na perspectiva de outra conquista. Talvez um italiano de olhos rutilantes e cabelo lustroso. Poderia conhec-lo no bar do Metropolitan Hotel, que os reprteres costumavam frequentar. Ele abord-la-ia e depois oferecer-lhe-ia uma bebida. Ela sorrir-lhe-ia e ele ficaria rendido. Marcariam um encontro, a que se seguiria outro. Ele passaria cada vez mais tempo em casa dela e comearia a pagar a renda e as contas.
       Elene teria ento tudo quanto queria: um lar, dinheiro e afecto. Comearia a pensar porque se sentiria to infeliz. 
       Haveria discusses. Ela amuaria se ele chegasse meia hora atrasado. Por fim, a crise eclodiria: a mulher dele desconfiaria, ou um filho adoeceria, ou surgir lhe iam dificuldades econmicas. E Elene encontrar-se-ia de novo no ponto em que se encontrava:  deriva sozinha, mal afamada  e um ano mais velha.
       Contemplou de novo o rosto reflectido no espelho. A sua cara era a causadora de tudo. Se fosse feia, teria sempre desejado aquela vida e nunca teria descoberto o seu vazio. "Tu desencaminhaste-me", pensou. "Fingiste que eu era outra pessoa. No s a minha cara: s uma mscara. No sou uma beleza da sociedade cairota, sou uma rapariga dos bairros da lata de Alexandria. No sou egpcia, sou judia. o meu nome no  Elene Fontana,  Abigail Asnani. E quero ir para a minha terra."
       O jovem sentado  secretria da Agncia ludaica no Cairo usava solidu. A parte uma pequena barbicha, tinha as faces lisas.
       Parecia bastante confuso, condio a que Elene j estava habituada; em geral, os homens ficavam levemente atrapalhados quando lhes sorria.
        Mas porque quer ir para a Palestina?  perguntou o homem.
        Sou judia  respondeu bruscamente. No podia explicar. a sua vida quele rapaz.   Toda a minha famlia morreu. estou a desperdiar a minha vida.  A primeira parte no era verdade; a segunda era.
        Que trabalho faria na Palestina?  essncialmente agricola.
        ptimo.
       O funcionrio sorriu amavelmente. Comeava a recuperar a compostura.
        No quero ofender, mas no parece uma trabalhadora agrcola. Que faz agora?
        Canto, e quando no arranjo trabalho para cantar, dano, e quando no arranjo trabalho para danar, sirvo  mesa.  Executara todas essas tarefas numa ou noutra ocasio.  Porqu todas essas perguntas? Neste momento a Palestina s aceita universitrios?
         muito-difcil entrar l. os Ingleses impuseram uma quota, e todos os lugares esto ocupados por fugitivos dos nazis.
        Porque no me disse logo isso?  perguntou, irritada.
        Por duas razes. Primeira, porque conseguimos meter l gente ilegalmente; segunda ... Importa se de esperar um momento? Preciso de telefonar a uma pessoa.
       Dirigiu se ao telefone, situado numa sala das traseiras, e Elene esperou impacientemente. Sentia se um pouco idiota.
       Devia ter calculado que lhe fariam perguntas e podia ter preparado as respostas. Tambm podia ter vestido qualquer traje menos vistoso.
       O homem regressou.
        Est tanto calor!  observou.  Vamos beber um refresco do outro lado da rua?
       Era ento esse o jogo!
        No  respondeu.   Voc  demasiado novo para mim.
        Oh, por favor, no me interprete mal!  explicou extremamente embaraado.    Quero apenas apresent la a uma pessoa, mais nada.
       Elene considerou que no tinha nada a perder.
        Est bem  concordou.
       Ele segurou a porta, dando lhe passagem, atravessaram a rua e entraram num caf. o jovem pediu uma limonada. Elene, gin com gua tnica.
        Disse que conseguiam que entrasse gente ilegalmente ...
        As vezes  admitiu o rapaz, e bebeu metade da limonada de um trago.  Fazemo lo, por exemplo, a quem tenha feito muito pela causa.
        Quer dizer que tenho de merecer o direito de ir para a Palestina?
        Talvez um dia todos os Judeus tenham o direito de ir para l. Mas enquanto houver quotas ter de haver critrios.
        Que tenho de fazer?  perguntou Elene.
        Ns no gostamos muito dos Ingleses, mas qualquer inimigo dos nazis  um amigo nosso. Por isso, neste momento estamos a trabalhar com o Servio de Informaes Britanico. Pensei que voc pudesse ajud-los.
        Mas como, meu Deus?!
       Uma sombra projectou-se na mesa e o jovem ergueu os olhos.
        Ah  exclamou, e fitou de novo Elene.  Apresento lhe o meu amigo, William Vandam.
       Era um homem alto, de ombros largos. Elene calculou que deveria orar os quarenta anos e comeava a perder dinamismo. 
       Tinha um rosto redondo e franco e cabelo castanho encrespado.
       O recm chegado apertou lhe a mo, sentou-se, acendeu um cigarro e pediu gin. Tinha uma expresso severa, como se considerasse a vida um assunto muito srio.
       O homem da agncia perguntou-lhe:
        Que notcias tem?
        A linha de Gazala est a aguentar, mas combate-se l violentamente.
       A voz de Vandam foi uma surpresa. Falava em tom preciso mas suave, e carregava levemente no r.
        De onde  o senhor, major?  perguntou-lhe Elene.
        Do Dorset, no Sudeste da Inglaterra. Porque pergunta?
        Por causa do sotaque.
         observadora. Eu julgava que no tinha sotaque.
         muito ligeiro.
       O jovem da agncia ergueu-se para se ir embora e disse a Elene:
        O major Vandam explica lhe tudo. Espero que trabalhe com ele.  muito importante.
       Vandam apertou lhe a mo e agradeceu-lhe, e o jovem saiu.
        Fale-me de si  pediu o major a Elene.
        No. Fale me voc de si.
       Ele arqueou uma sobrancelha, levemente surpreendido e um pouco divertido.
        Est bem  acedeu.  o Cairo est cheio de homens que conhecem segredos: as nossas foras, as nossas fraquezas e os nossos planos. os Alemes tm gente no Cairo encarregada de tentar obter esses segredos. A minha misso  impedi-lo.
        Simples, hem?
         simples, mas no  fcil   admitiu o major aps uns momentos de reflexo.
       Tomava tudo quanto Elene dizia a srio, o que lhe agradava.
       Geralmente, os homens consideravam a sua conversa irrelevante.
        E a sua vez  disse Vandam decorridos alguns momentos.
       Resolveu dizer lhe a verdade:
        Sou uma m cantora e uma bailarina medocre, mas s vezes arranio um homem rico Para me Pagar as contas.
       Vandam no pronunciou uma palavra, mas pareceu perplexo.
       Apoderou-se de Elene o desejo de ser maliciosa:
        No  isso o que a maioria das mulheres faz quando casa? Arranjar um homem para pagar as contas? Eu limito-me a mudar de homem um pouco mais depressa do que a mdia das mulheres.
       Vandam rompeu a rir. De sbito, pareceu um homem diferente.
       Lanou a cabea para trs e a tenso abandonou-lhe o corpo.
       Quando a gargalhada terminou, sorriram-se. Depois, ele recuperou a expresso sria.
        O meu problema  a informao. Ningum diz nada a um ingls.  por isso que preciso de si. Como  egpcia, ouve o tipo de conversas que no chegam aos meus ouvidos. Por outro lado, como  judia, repetir-mas-. Espero.
        Que gnero de conversas?
        Estou interessado em qualquer pessoa que revele curiosidade pelo Exrcito Britanico e procuro em especial um homem chamado Alex Wolff. Viveu em tempos no Cairo, aonde regressou recentemente, via Asyut. Anda com certeza a colher informaes sobre as foras britanicas.
       Elene encolheu os ombros.
        Depois de todos os seus preliminares, esperava que me pedisse que fizesse qualquer coisa muito mais complexa... como valsar com Rommel e revistar-lhe as algibeiras, por exemplo.
       Vandam riu-se de novo e Elene pensou: "Podia ser conquistada por este riso."
        Bem, apesar de no ser complexo, est disposta a faz-lo? Preciso de pessoas como voc, Miss Fontana.  observadora, tem um disfarce perfeito e  obviamente inteligente. Desculpe ser to franco...
        No tem que pedir desculpa, gosto assim. Continue a falar.
        Na sua maior parte, as pessoas que trabalham para mim no so de muita confiana. Trabalham por dinheiro, enquanto voc tem um motivo mais forte para ...
        Um momento!  interrompeu-o.  Eu tambm quero dinheiro. Quanto  que pagam?
        Quanto quer?
        O suficiente para pagar a renda do meu apartamento. Setenta e cinco por ms.
        Teria de ser muitssimo til para justificar setenta e cinco por ms. Mas est bem, vamos experimentar um ms.
       Elene esforou-se por disfarar uma expresso de triunfo.
        Como contacto consigo?
        Mande-me uma mensagem.  Vandam pegou num lpis e numa folha de papel.  Vou deixar-lhe a direco e o nmero do telefone tanto do quartel-general como de minha casa. Assim que tiver notcias suas, vou a sua casa.
       Elene escreveu tambm a sua morada.
        Se me perguntarem quem voc , digo que  meu amante.
        Muito bem  concordou o major, mas desviou o olhar.
        Mas acho que seria melhor representar o papel para no levantar suspeitas  continuou Elene sem que a expresso se lhe alterasse.    Devia levar-me braadas de flores e caixas de chocolates.
        No sei ...
        Os Ingleses no oferecem flores e chocolates s amantes?
        Nunca tive nenhuma amante  respondeu, fitando-a sem pestanejar.
       "Toma que  para saberes", pensou Elene, mas disse em voz alta:
        Ento tem muito que aprender.
       Levantaram-se.
        Fico  espera de notcias suas  disse o major.
       Ela apertou-lhe a mo e afastou-se. Sem saber porqu, teve a impresso de que o olhar dele no a seguiu.
       
       
       Vandam vestiu-Se  civil para a recepo do Anglo-Egyptian Union. No iria ao Union se a mulher fosse viva. Ela considerava o clube "plebeu". E quando ele lhe observava que no fosse snobe, ela replicava-lhe que era snobe.
       Vandam amara-a ento e continuava a am-la agora.
       O pai dela era um diplomata bastante abastado a quem no agradara a perspectiva de a filha casar com o filho de um carteiro. No o apaziguara muito saber que Vandam era considerado um dos jovens oficiais do Exrcito mais prometedores, mas acabara por aceitar desportivamente o casamento.
       Nada disto importara a Vandam; tambm no lhe importara o facto de a mulher ser irascvel e ter modos imperiosos. Angela era graciosa e digna, o eptome da feminilidade. o contraste entre ela e Elene Fontana no poderia ser mais flagrante. 
       O dia arrefecia quando Vandam estacionou a sua motocicleta no ion e se dirigiu para o relvado. Aceitou um copo de sherry cipriota e juntou-se  multido, trocando amabilidades com pessoas conhecidas. ouviu chamar o seu nome e voltou-se.
        Dr.a Abuthnot.
        Aqui podemos ser infommais  disse a mdica.  Chamo-me Joan.
        E eu William. o seu marido est c?
        No sou casada.
        Desculpe.
       Comeou a v-la sob uma luz nova. Ela era solteira e ele vivo, e tinham sido vistos a falar um com o outro trs vezes numa semana. Tanto bastava para que a colnia britanica no Cairo j os considerasse praticamente noivos.
         cirurgi?  perguntou.
        Hoje em dia limito-me a coser e a remendar pessoas  respondeu a mdica sorrindo.  Mas antes da guerra era cirurgia.
        Como conseguiu isso? No  fcil para uma mulher.
        Lutei com unhas e dentes.   Continuava a sorrir, mas Vandam detectou um certo ressentimento subjacente e no esquecido.   Voc tambm  um pouco inconvencional, segundo me constou, pois cria pessoalmente o seu filho.
        No tenho alternativa. Se tivesse querido mand-lo para Inglaterra, no teria conseguido: s h passagens para invlidos e generais.
        Mas no quis.
         meu filho. No quero que mais ningum o crie, e ele to-pouco.
        Compreendo. Desculpe ter-me intrometido. Toma outra bebida?
       Vandam olhou para o copo de sherry e respondeu:
        Creio que tenho de ir l dentro procurar uma bebida a srio.
        Desejo-lhe sorte.  E a Dra. Abuthnot sorriu e afastou-se.
       Vandam atravessou o relvado na direco do clube. A mdica era uma mulher atraente, corajosa e inteligente, e dera claramente a entender que desejava conhec-lo melhor. "Porque diabo me sinto to indiferente para com ela?", pensou Vandam.
       
       DE galabia e fez, 
       
       Alex Wolff postara-se a trinta metros do porto do Quartel-General Britanico a vender leques de papel.
       A perseguio abrandara. H uma semana que no via os Ingleses a verificar documentos na via pblica. Apenas se sentira razoavelmente seguro, dirigira-se ao quartel-general. Embora a sua chegada ao Cairo tivesse constitudo um triunfo, tudo seria intil se no obtivesse, e rapidamente, as informaes que Rommel pretendia.
       Algures no interior do QG havia papis com a indicao do nmero de soldados, dos nomes das divises e dos nmeros de tanques em campo e na reserva, da quantidade de munices, vveres e gasolina, bem como das intenes estratgicas e tcticas do Alto Comando Britanico. Eram esses papis que Wolff queria.
       Os Ingleses tinham requisitado para o seu QG uma quantidade de casas grandes  na sua maioria pertencentes a paxs  da Garden City. As casas requisitadas estavam cercadas por uma vedao de arame farpado. As pessoas fardadas transpunham rapidamente o porto, mas os civis eram detidos e interrogados demoradamente, enquanto as sentinelas faziam telefonemas para se assegurarem da autenticidade das crednciais.
       Wolff passara muito tempo, na escola de espionagem da Abwehr, a aprender a identificar uniformes, sinais de identificao regimentais e os rostos de, literalmente, centenas de oficiais superiores britanicos. Ali, durante vrias manhas consecutivas, espreitara atravs das janelas dos automveis do Estado-Maior que chegavam e vira coronis, generais, almirantes, comandantes de esquadrilha e o prprio comandante-chefe do Mdio oriente, Sir Claude Auchinleck.
       O Estado-Maior-General viajava de automvel, mas os seus ajudantes andavam a p. Todas as manhas os capites e os majores chegavam a p, transportando pastas. Cerca do meio-dia saam alguns, novamente com as pastas, e todos os dias Wolff seguia um deles.
       Na sua maioria, os ajudantes trabalhavam no QG, onde os seus
       documentos secretos deviarn estar fechados  chave. Porm, um
       reduzido nmero de outros trabalhava noutros pontos da cidade
       e tinha de transportar consigo, do quartel-general para esses
       locais de trabalho, os papis com instrues. Um deles ia para
       o Semiramis Hotel, onde estava instalado um departamento
       qualquer chamado Tropas Britanicas no Egipto. Dois iam para as
       casernas de Kasr-el-Nil e um quarto para um edificio sem
       qualquer identificao, na Shari Suleiman Pasha. Wolff nsiava
       por examinar essas pastas. Naquele dia ia tentar uma
       experincia.
       Quando os ajudantes saram, Wolff seguiu os dois que se
       dirigiam para as casernas. Um minuto depois, Abdullah saiu de
       um caf e calocou-se a seu lado, acertando o passo com o seu.
       
         Aqueles dois?  perguntou.
         Sim, aqueles dois.
       Abdullah era um homem gordo com um dente de ao. Embora fosse
       um dos homens mais ricos do Cairo, ao contrrio da maioria dos
       rabes abastados, no imitava os Europeus. Usava sandlias,
       uma vestimenta suja e um fez. o cabelo gorduroso
       encaracolava-se-lhe em torno das orelhas e tinha as unhas
       pretas. A sua fortuna advinha-lhe do crime: Abdullah era
       ladro.
       Wolff gostava dele. Era manhoso, velhaco, cruel, generoso e
       estava sempre a rir. Personificava, para Wolff, os vcios e as
       virtudes seculares do Mdio oriente. Havia trinta anos que o
       seu exrcito de filhos, netos, sobrinhos e sobrinhas roubava
       casas e limpava algibeiras no Cairo. Tinha tentculos em toda
       a parte.
       Seguiram os dois oficiais at ao centro moderno da cidade.
         Queres uma pasta ou as duas?  perguntou Abdullah.
       Wolff meditou um instante. Uma, seria um roubo casual; duas,
       pareceria um roubo organizado.
         Uma  respondeu,    No importa qual.
       Wolff encarara a ideia de pedir auxlio a Abdullah depois de
       descobrir que a Villa les oliviers deixara de ser segura. Mas
       resolvera no o fazer. Abdullah poderia, com certeza,
       escond-lo em qualquer lado, mas apenas o ocultasse iniciaria
       negociaes para o vender aos Ingleses. Abdullah dividia o
       mundo em dois: a sua
       
       confiava inteiramente. A parte isso, intrujava toda a gente e
       esperava que toda a gente tentasse intruj-lo.
       Chegaram a uma esquina movimentada. os dois oficiais
       atravessaram a rua, esquivando-se ao transito. Wolff
       preparava-se para os seguir, mas Abdullah colocou-lhe a mo no
       brao.
         Vai ser aqui  disse o ladro.
       
       Wolff olhou em redor, observando os prdios, o cruzamento de
       estradas e os vendedores ambulantes.
         o lugar  perfeito  declarou sorrindo.
       
       F'lzERAM-No no dia seguinte. Abdullah escolhera de facto um
       lugar perfeito para o roubo, na juno de uma movimentada rua
       tMnSversal cam uma artria principal. A esquina havia um caf
       com mesas no passeio, cuja largura ficava assim reduzida a
       metade. Defronte do caf, na artria principal, havia uma
       paragem de autocarros  e os passageiros que esperavam
       transporte contribuam para congestlonar maus am a o passelo. A rua transversal era
       um pouco mais desimpedida, mas Abdullah remediara essa
       desvantagem mandando dois acrobatas exibir-se nela.
       Apreensivamente sentado  mesa do canto, Wolff receava pelo
       sucesso da operao. Aterrorizava-o a ideia de ser preso.
       Podia dispensar a boa mesa, o vinho e as mulheres desde que
       tivesse a vastido agreste e erma do deserto para o consolar.
       E tambm conseguia prescindir da liberdade do deserto para
       viver numa cidade populosa desde que dispusesse dos luxos
       urbanos servindo-lhe de compensao. Mas no podia perder
       ambas as coisas. A ideia de viver numa cela exgua e incolor,
       entre a escria da terra, comendo mal e privado de ver o cu
       azul ou as extensas plancies ... o panico apoderou-se dele e
       teve de o expulsar da mente.
       As onze e quarenta e cinco, viu o vulto avantajado e sujo de
       Abdullah passar pelo caf. o rosto do ladro era inexpressivo,
       mas os seus pequenos olhos pretos olhavam atentamente em redor
       verificando se as disposies que tomara tinham sido
       efectivadas. Abdullah atravessou a estrada principal e
       desapareceu.
       As doze e cinco, Wolff divisou  distncia dois bons
       militares entre a massa de cabeas. Sentou-se na beira da
       cadeira. os oficiais aproximavam-se ... Traziam as respectivas
       pastas.
       Do outro lado da rua foi ligado o motor de um automvel
       estacionado. Um autocarro chegou  paragem, e Wolff pensou:
       "Aquilo no pode ter sido arranjado por Abdullah;  uma sorte,
       um bonus. "
       os oficiais encontravam-se a cinco metros de Wolff.
       o automvel do outro lado da rua, um grande Packard preto,
       arrancou repentinamente, atravessou a estrada como um elefante
       lanado numa carga, com o motor a roncar em primeira, e
       dirigiu-se para a rua transversal, fazendo soar a buzina. A
       esquina a curta distncia de Wolff, embateu na frente de um
       velho txi Fiat.
       os dois oficiais detiveram-se ao lado da mesa de Wolff a
       observar o acidente. o motorista do txi, um jovem rabe de
       camisa  ocidental e fez, saltou do carro. Do Packard saiu um
       jovem grego de fato de mohair. o rabe esbofeteou o grego e o
       grego esmurrou o rabe. os passageiros  espera do autocarro e
       os que dele haviam saido aproximaram-se mais.
       Do outro lado da esquina, o acrobata que se encontrava de p
       sobre a cabea do colega virou-se para observar a contenda,
       pareceu a 
       
       desequilibrar-se e caiu em cima da assistncia. Um rapazinho
       passou a correr pela mesa de Wolff, que se ergueu, apontou
       
       para ele e gritou a plenos pulmes: "Agarra que  ladro!"
       o rapaz esgueirou-se por entre os dois oficiais sem deixar de
       correr. Wolff precipitou-se no seu encalo e quatro clientes
       sentados perto de Wolff ergueram-se e tentaram agarrar o
       rapaz. Chocaram todos com os oficiais e lanaram ambos ao
       cho. Diversas pessoas comearam a gritar: "Agarra que 
       ladro!" Alguns recm-chegados concluram que o ladro era um
       dos motoristas engalfinhados. A multido da paragem do
       autocarro, os espectadores dos acrobatas e a maioria dos
       frequentadores do caf avanaram e comearam a atacar um ou
       outro dos motoristas. Algum brandiu uma cadeira do caf e
       atirou-a contra o pra-brisas do Packard. os criados, o
       pessoal da cozinha e o proprietrio do caf surgiram
       precipitadamente e comearam a agredir quem quer que se
       encostasse  sua moblia ou tropeasse ou se sentasse nela.
       Todos gritavam entre si em cinco lnguas. Alguns condutores
       que passavam detinham os automveis para ver a balbrdia, o
       transito congestionava-se em trs direces e no havia buzina
       de veculo parado que no tocasse. Um co soltou-se da trela e
       comec,ou a morder as pernas dos circunstantes num frenesi de
       excitao. Todos os passageiros desceram do autocarro.
       Motoristas que se haviam detido para apreciarem o espectculo
       no tardaram a arrepender-se quando a refrega se alastrou aos
       seus
       prprios automveis. Homens, mulheres e crianas saltavam para
       os tejadilhos, lutavam sobre os capots e caam nos estribos.
       Uma cabra assustada entrou na loja de recordaes contgua ao
       caf e comeou a derrubar todas as mesas carregadas de
       porcelanas, ceramica e vidros. Um babuno surgiu no se sabe
       de onde  provavelmente viera a cavalo na cabra, o que
       constitua uma forma de divertimento corrente nas ruas  e
       correu por sobre as cabeas da multido. De uma janela
       sobranceira ao caf uma mulher despejou um balde de gua suja
       para cima da turba. Ningum se apercebeu do facto.
       Finalmente, a Polcia chegou.
       Quando se ouviram os apitos, a multido dispersou-se em todas
       as direces, antes que comec,assem as detenes. Wolff, que
       caira no incio da contenda, levantou-se e atravessou a
       estrada para assistir ao desenlace. Na altura em que se
       encontravam seis pessoas algemadas j ningum lutava, 
       excepo de uma velha vestida de preto e de um mendigo a quem
       faltava uma perna, que se empurravam frouxamente um ao outro
       na valeta. o proprietrio do caf e o dono da loja
       de recordaes insultavam veementemente a Polcia por no ter
       chegado mais cedo.
       Quando a Polcia tentou retirar os dois veculos que haviam
       chocado, verificou que, durante a refrega, garotos da rua
       tinham levantado a retaguarda de ambos os automveis e roubado
       os pneus. Tinham igualmente desaparecido todas as lampadas do
       autocarro.
       Bem como uma pasta do Exrcito Britanico.
       Pouco tempo depois, Wolff encontrava-se sentado na sala de
       Abdullah. Como o seu dono, era suja, confortvel e rica. Trs
       crianas e um cachorro perseguiam-se  volta dos sofs caros e
       das mesas com embutidos. Sentado numa almofada bordada, de
       pemas cruzadas e com um beb ao colo, Abdullah sorria a Wolff.
         Que xito, meu amigo!
         Foi maravilhoso  concordou Wolff, sentado defronte dele.
       
         Que zaragata! E o autocarro a chegar no momento exacto!
       Wolff observou mais atentamente o que Abdullah estava a fazer.
       No cho a seu lado encontrava-se um monte de carteiras, malas
       de mo e relgios. Enquanto falavam, Abdullah comeou a
       examinar uma carteira.
         Velho tratante!   exclamou Wolff.   Mandaste os teus rapazes
       para a maralha limpar algibeiras.
       o sorriso de Abdullah revelou-lhe o dente de ao.
         Todo aquele trabalho para roubar s uma pasta ...
         Mas apanhaste a pasta, no apanhaste?
         Evidentemente.  No entanto, Abdullah no fez meno de a
       apresentar.   Ficaste de me pagar cinquenta libras pela
       entrega.
       Wolff contou as notas e estendeu-lhas. Abdullah introduziu a
       mo sob a almofada em que se sentava e retirou a pasta.
       Wolff recebeu-a e forou a fechadura. No interior da pasta
       encontravam-se dez folhas de papel compactamente
       dactilografadas em ingls. Leu a primeira e, com crescente
       incredulidade, folheou as restantes.
         Meu Deus!   exclamou baixinho, e rompeu a rir.
       Roubara um conjunto completo de ementas da cantina do quartel
       para o ms de Junho.
       
       VANDAM disse ao coronel Bogge:
         Redigi uma nota a recordar aos oficiais que no devem andar
       com os documentos do Estado-Maior pelas ruas da cidade. Uma
       das minhas informadoras, a nova rapariga de que lhe falei,
       ouviu umboato segundo o qual aquela zaragata foi organizada por
       Abdullah. E ste e uma espcie de Faginl egpcio ... e por
       coincidncia tambm  informador.
         Com que fim foi a zaragata organizada?
         Roubo. Roubaram muitas coisas, mas temos de considerar a
       possibilidade de o principal objectivo ser a pasta. Abdullah
       pode ter sido encarregado da operao por Alex Wolff, o
       faquista de Asyut.
         Francamente, julguei que tnhamos esquecido toda essa
       histona.
         o assassino de Asyut continua  solta  insistiu Vandam.-Pode
       ser significativo o facto de, pouco depois da sua chegada ao
       Cairo, terem roubado a pasta a um oficial do Estado-Maior.
       Falei com Abdullah, que nega qualquer conhecimento de Alex
       Wolff, mas penso que mente. Podamos encarregar a segurana de
       campo de o deter e faz-lo suar um bocado.
       Bogge sorriu.
         Se eu fosse contar  segurana de campo esta histria de
       ementas de cantina roubadas, corriam comigo deste lugar 
       gargalhada. J discutimos o assunto o suficiente, major. No
       acredito que o tumulto tenha sido organizado, no acredito que
       Abdullah tencionasse roubar a pasta e no acredito que Wolff
       seja um espio nazi. Entendido?
         Sim, meu coronel.
         ptimo. Pode ir.
       
       Captulo 4
       
       ANWAR el-Sadat afagou o bigode, com o qual estava muito
       satisfeito. Tinha apenas vinte e trs anos, e no seu uniforme
       de capito egpcio assemelhava-se um pouco a um rapaz vestido
       
       de soldado. o bigode ajudava-o a parecer mais velho. Precisava
       de toda a autoridade possvel, poiS a proposta que estava
       prestes a sugerir no deixava   como habitualmente  de parecer
       ridcula. Naquelas pequenas reunies fazia um esforo violento
       para falar e agir como se o punhado de exaltados presentes
       fosse realmente um daqueles dias expulsar os Ingleses do
       Egipto.
       
       1 Personagem do livro oliver Twist, de Charles Dickens, que
       ensinava crianc,as a serem carteiristas.
       Engrossou deliberadamente a voz quando comeou a falar:
         Espermos todos que Rommel derrotasse os Ingleses no deserto
       e libertasse assim o nosso pas. Agora temos uma notcia
       grave: Hitler concordou em dar o Egipto aos Italianos.
       Sadat exagerava: no se tratava de uma notcia, mas de um
       boato. A assistncia, contudo, reagiu com murmrios colricos.
       Sadat continuou:
         Proponho que o Movimento de oficiais Livres negoceie com a
       Alemanha um tratado segundo o qual ns organizaramos um
       levantamento contra os Ingleses no Cairo e os Alemes
       garantiriam a independncia do Egipto subsequentemente 
       derrota dos Ingleses.
       Enquanto falava, teve de novo conscincia da ironia da
       situao: ali estava ele, um campons acabado de chegar do
       campo, a falar a meia dzia de subalternos egpcios
       descontentes sobre negociaes com o Reich alemo. E, no
       entanto, quem mais poderia representar o povo egpcio? os
       Ingleses eram conquistadores, o Parlamento era um ttere e o
       rei Faruk era um turco gordo e licencioso que descendia de
       estrangeiros.
       Mas obedecia ainda a outra razo para apresentar aquela
       proposta: Gamal Abdel Nasser fora colocado no Sudo, e a sua
       ausncia dava a Sadat uma oportunidade de se tomar o lder do
       movimento rebelde. Afastou esse pensamento, que considerava
       ignbil. Precisava de conseguir que os outros concordassem com
       a proposta e depois com os meios de a pr em prtica.
       Foi Kemel quem primeiro falou:
         Mas tomar-nos-ao os Alemes a srio?
       os restantes comearam a discutir as probabilidades de xito
       do eventual acordo com os Alemes. Sadat no participou na
       discusso. "Eles que falem", pensou; " o que realmente gostam
       de fazer." De facto, ele e Kemel haviam combinado de antemo
       que este formularia aquela pergunta, que colocava a questo em
       bases falsas. o cerne do problema era saber se poderiam
       confiar nos Alemes, se estes cumpririam qualquer acordo que
       fizessem com um grupo de rebeldes. Sadat no queria que esse
       assunto fosse discutido na reunio. Se os Egpcios se
       sublevassem contra os Ingleses e depois fossem trados pelos
       Alemes, constatariam que apenas lhes restava conseguirem a
       independncia  e talvez procurassem a liderana do homem que
       organizara a sublevao. Duras realidades polticas de
       semelhante natureza no eram para reunies como aquela. Kemel
       era a nica pessoa com quem Sadat podia discutir questes de
       tcticas.
       
       Kemel era polcia, detective superintendente da fora do
       Cairo, um homem astuto e cuidadoso.
         Mas no temos meios de contactar com os Alemes-observou
       
       Imam, um dos pilotos. Sadat constatou com satisfao que j
       discutiam o modo de executarem a operao, e no se a
       executariam.
       Kemel sabia a resposta:
         Podamos enviar a mensagem de avio.
         Sim!  Imam era jovem e apaixonado.  Um de ns podia levantar
       voo em patrulha, desviar-se do rumo e aterrar atrs das linhas
       alemas.
       Um dos outros pilotos contraps:
         No regresso teria de dar contas do desvio.
         Talvez nem regressasse  retorquiu Imam melancolicamente.
         Talvez regressasse com Rommel  observou Sadat calmamente.
       os olhos de Imam iluminaram-se, e Sadat compreendeu que o
       jovem piloto j se estava a ver a entrar no Cairo  frente de
       um exrcito de libertao. Sadat decidiu que Imam levaria a
       mensagem.
         Vamos discutir o texto da mensagem  props democraticamente.
          Acho que devemos frisar quatro pontos. Um: somos egpcios
       honestos e estamos organizados dentro do Exrcito. Dois: como
       os Alemes, estamos a lutar contra os Ingleses. Trs: temos
       possibilidades de recrutar um exrcito rebelde para combater
       do lado dos Almes. Quatro: organizaremos uma sublevao no
       Cairo se eles garantirem a independncia do Egipto
       subsequentemente  derrota dos Ingleses. S resta saber qual
       de ns pilotar o avio.
       Sadat percorreu a sala com os olhos e por fim fixou Imam. Aps
       um momento de hesitao, Imam ergueu-se e os olhos de Sadat
       refulgiram, triunfantes.
       Dois dias depois, Kemel percorria a p os cinco quilmetros
       que mediavam entre o centro do Cairo e o subrbio onde Sadat
       morava. Embora como detective superintendente pudesse
       deslocar-se num automvel oficial, raramente o utilizava
       quando se dirigia a reunies de rebeldes, por razes de
       segurana.
       Kemel era quinze anos mais velho do que Sadat, mas a sua
       atitude para com o jovem oficial era quase a de adorao
       perante um heri Kemel compartilhava o cinismo de Sadat, a sua
       compreenso realista das alavancas do poder poltico; mas
       Sadat tinha algo mais: um idealismo ardente que lhe dava uma
       ener ia ilimitada.
       Kemel no sabia como comunicar-lhe-a notcia.
       A mensagem para Rommel fora dactilografada e assinada por
       Sadat e por todos os principais oficiais livres,  excepco de
       Nasser, ausente. Imam partira no seu Gladia or precedendo um
       segundo avio pilotado por um compatriota, Baghdadi. Tinham
       aterrado no deserto, num lugar previamente combinado, a fim de
       recolherem Kemel, que entregou a mensagem a Imam e depois
       subiu para o avio de Baghdadi.
       Era a primeira vez que Kemel voava. o deserto, to
       incaracteristico ao nvel do solo, revelara-se um mosaico de
       formas e padres: as manchas do cascalho e as esculpidas
       colinas vulcanicas. Decorrido algum tempo, ambos os avies
       haviam virado para leste, e Baghdadi comunicara  base,
       atravs da rdio, que Imam mudara de rumo e no respondia a
       chamamentos pela rdio. Como se esperava, da base haviam
       ordenado a Baghdadi que seguisse Imam. Esta pequena farsa era
       necessria para que Baghdadi, que deveria regressar, no se
       tornasse suspeito.
       
       Haviam sobrevoado um acampamento do Exrcito Britanico. Ambos
       os aparelhos tinham aumentado a altitude. Exactamente  sua
       frente viam-se sinais de combate: grandes nuvens de poeira,
       exploses e fogo de artilharia. os dois avies haviam descrito
       uma volta a fim de passarem a sul do campo de batalha. "A
       seguir devemos encontrar uma base alema", pensara Kemel. o
       avio de Imam perdera altitude. Em vez de o seguir, Baghdadi
       subira um pouco mais e afastara-se mais para sul. Depois,
       Kemel vira o que os pilotos tinham visto: um campo e uma pista
       de aterragem.
       Ao aproximar-se agora da casa de Sadat, Kemel recordou como se
       sentira eufrico, no cu, quando compreendera que o tratado se
       encontrava quase nas mos de Rommel.
       Bateu  porta. Era uma vulgar casa de famlia, bastante mais
       pobre do que a do prprio Kemel. Decorridos instantes, Sadat,
       que envergava uma galabia e fumava cachimbo, abriu a porta.
       Apenas viu o rosto de Kemel, declarou imediatamente:
         Correu mal.
         Correu.
       Kemel entrou e dirigiram-se para a pequena sala que servia de
       escritrio a Sadat e na qual havia uma secretria, uma
       prateleira de livros e algumas almofadas no cho nu.
       Sentaram-se e Kemel informou:
         Encontrmos uma pista de aterra em alema. Imam desceu e
       os Alemes abriram fogo contra ele. o avio era ingls ... no
       tinhamos pensado nesse porrnenor. Ele abanou as asas e suponho
       que tentou comunicar pela rdio, mas eles continuaram a
       disparar. Acertaram na cauda do apare.lho.
         Meu Deus!
         Ele mergulhou, mas conseguiu aterrar com as rodas. No
       entanto, saiu da pista, entrou na areia e o avio explodiu.
         E Imam?
         Com certeza que no sobreviveu ao fogo.
         Temos de arranjar outra maneira de levar a mensagem-disse
       Sadat.
       Kemel fitou-o e compreendeu que o tom brusco era fingido.
       Sadat tentou acender o cachimbo, mas a mo tremia-lhe
       demasiado e tinha lgrimas nos olhos.
         Pobre rapaz!  murmurou.
       
       WoLFF regressara ao princpio: sabia onde se encontravam os
       segredos, mas no podia alcan-los. Talvez conseguisse roubar
       outra pasta, mas tal roubo comearia a parecer aos Ingleses
       uma conspirao. Alm disso, necessitava de um acesso regular
       e fcil a documentos secretos. Sonja teria de entrar no jogo.
       Ela estava deitada na cama, a comer chocolates. Wolff saiu da
       casa de banho embrulhado numa grande toalha.
         Pensei noutra maneira de ter acesso s pastas  declarou.-Vou
       travar amizade com um oficial ingls e depois trago-o ao barco
       e revisto-lhe a pasta enquanto ele estiver aqui contigo.
         oh, no!  protestou Sonja.
         Sim.
       Ela amuou.
         Prometeste arranjar-me outra Fawzi.
         Pois prometi, e continuo  procura.
         No prometeste procurar, prometeste arranjar.
       Wolff dirigiu-se  outra sala e retirou uma garrafa de
       champanhe do frigorfico. Pegou em duas taas e levou tudo
       
       para o quarto. Encheu uma taa e estendeu-a a Sonja.
         Ao oficial ingls desconhecido a quem espera a mais
       agradvel surpresa da sua vida.
         No quero ter nada a ver com um ingls  declarou Sonja.
         odeio-os.
          por isso mesmo que vais fazer o que quero: porque os odeias. Imagina s: enquanto ele estiver aqui contigo a
       sentir-se no stimo cu, eu estarei a ler os seus documentos
       secretos.
       Wolff comeou a vestir-se para a noite. Envergou uma camisa
       expressamente feita para ele numa minscula alfaiataria da
       Cidade Velha  uma camisa militar inglesa com as insgnias de
       capito nos ombros.
         Vais fingir que s ingls?  perguntou Sonja.
         Sul-africano, creio. Se encontrar um que sirva, levo-o ao
       Cha-Cha.  Retirou a faca do coldre axilar, que tinha sob a
       camisa aproximou-se dela e tocou-lhe com a ponta afiada no
       ombro nu.-Se me deixares ficar mal, uso isto.
       Sonja no pronunciou uma palavra, mas os seus olhos
       reflectiram medo.
       
       CoMo sempre, o Shepheard's Hotel estava cheio: mercadores
       levantinos em ruidosas reunies de negcios, raparigas
       egpcias de vestidos baratos e oficiais ingleses  o hotel
       estava vedado a patentes inferiores. Wolff abriu caminho,
       atravs da sala congestionada, at ao comprido balco do
       fundo, onde a confuso era menor. No era permitida a presena
       de mulheres no bar, e beber a srio era a ordem do dia. Seria
       para ali que se dirigiria um oficial solitario.
       Wolff sentou-se ao balco. Preparava-se para pedir champanhe
       mas recordando-se do seu disfarce pediu whisky com gua.
       Dedicara extrema ateno ao.vesturio: os sapatos castanhos
       lustrosamente polidos, os cales castanhos e largos com um
       vinco perfeito, a fralda da camisa de fora e o bon achatado
       ligeiramente inclinado. Para completar o disfarce deixara
       crescer o bigode. Como procurava um oficial do QG,
       identificar-se-ia a si mesmo como pertencente s TBE   Tropas
       Britanicas no Egipto  , que funcionavam  parte.
       Estavam uns quinze ou vinte oficiais no bar, mas no
       reconheceu nenhum. Procurava especificamente qualquer dos
       aju;'antes que diariamente, ao meio-dia, saam do QG com as
       suas pastas. Fixara-lhes os rostos e reconhec-los-ia
       imediatamente. Desejou no ser obrigado a aguardar muito.
       Esperou cinco minutos.
       o major que entrou era baixo, magro e provavelmen e oraria os
       quarenta e cinco anos. As suas faces apresentavam a rede de
       capilares arroxeados de um grande bebedor. Tinha olhos azuis
       bolbosos e cabelo ralo e amarelado. Todos os dias saa do QG
       ao meio-dia e dirigia-se a p com a pasta para um edificio sem
       qualquer identificao da Shari Suleiman Pasha.
       o ritmo cardaco de Wolff alterou-se.
       o major aproximou-se do balco, tirou o bon e pediu:
         Sco ch. Sem gelo e depressa.   Voltou-se para Wolff e
       observou:   Maldito tempo.
         No est sempre assim, meu major?  redarguiu Wolff.
         Tem toda a razo. Sou Smith, QG.
         Como est, meu major?
       Wolff sabia que, em virtude de sair todos os dias do QG e se
       
       dirigir para outro edifcio, Smith no podia pertencer
       realmente ao QG. E durante uma fraco de segundo perguntou a
       si mesmo o que o levaria a mentir.
         Slavenburg, TBE  declarou por sua vez, apresentando-se.
         Muito gosto. Posso oferecer-lhe outro?
          muito amvel, meu major.
         Deixe l o meu major, homem. No h patentes no bar. Que 
       que toma?
         Whisky com gua, por favor.
         No seu lugar no misturava gua. Dizem que vem direitinha do
       Nilo.
         Estou habituado. Nasci em Africa e estou no Cairo h dez
       anos.    Wolff comeava a falar no estilo abreviado de Smith.
       "Devia ter sido actor", pensou.
         Africa, hem? Pareceu-me notar-lhe um leve sotaque.
         Pai holands, mae inglesa  explicou Wolff, e ergueu o
       copo.    A sua.
       Beberam.
         Voc conhece esta terra  observou Smith.  Que pode um tipo
       fazer  noite, alm de beber no bar do Shepheard?
       Wolff simulou reflectir no assunto.
         J viu dana do ventre?
       Smith emitiu um som de desagrado.
         Uma vez. Uma mulher gorda a sacudir as ancas.
         Ah! Nesse caso devia ver um espectculo a srio. No h nada
       mais ertico do que a verdadeira dana do ventre.
       Um claro de volpia reflectiu-se nos olhos de Smith.
         Ah, sim?
       "Major Smith, s exactamente aquilo de que preciso", pensou
       Wolff, que respondeu:
         Sonja  a melhor bailarina. Por acaso estava a pensar na
       hiptese de ir v-la esta noite danar. Quer vir comigo?
         Vamos beber outro copo primeiro  props Smith.
       Enquanto o via beber, Wolff reflectia que o major parecia
       enfastiado, sem fora de vontade e alcolico. Sonja
       conseguiria seduzi-lo facilmente.
       Acabararn de beber e tomaram um txi para o Cha-Cha Club. A
       casa estava de novo cheia e quente, e Wolff teve de subomar um
       criado para arranjar mesa. o nmero de Sonja comeou momentos
       depois de se sentarem. Smith observava Sonja, enquanto Wolff
       observava Smith.
         Boa, no ?  perguntou Wolff.
         Fantstica!  respondeu Smith sem desviar o olhar.
         Por acaso conheo-a ligeiramente   continuou Wolff.
       -Convido-a para nos fazer companhia depois?
       Desta vez Smith desviou o olhar do palco.
         Meu Deus!  capaz de a convidar?
       Soou uma tempestade de aplausos e Sonja atravessou o palco s
       escuras em direco aos bastidores. Dirigiu-se apressadamente
       para o seu camarim, despiu as calas transparentes e o corpete
       coberto de lantejoulas, vestiu um robe de seda e sentou-se
       defronte do espelho para tirar a caracterizao. Bateram 
       porta e ela respondeu:
         Entre.
       Um dos criados entregou-lhe um bilhete, onde leu: "Mesa 41.
       Alex. "
       Sonja amarrotou o papel. J encontrara um. Fora rpido. o seu
       instinto de reconhecimento da fraqueza estava de novo
       
       desperto.
       Sonja compreendia-o porque era como ele. Tambm se servia das
       pessoas. At dele se servia. Wolff tinha estilo, gosto, amigos
       altamente colocados e dinheiro, e um dia lev-la-ia para
       Berlim. Ser estrela no Egipto era totalmente diferente de ser
       estrela na Europa. Queria ser rainha de cabar na cidade mais
       decadente do Mundo. Wolff seria o seu passaporte. Era com
       certeza invulgar, pensou, duas pessoas serem to ntimas e
       simultaneamente amarem-se to pouco. Sabia que ele usaria
       mesmo a faca caso ela no fizesse o que ele queria.
       Estremeceu e deixou de pensar no assunto. Envergou um vestido
       branco decotado, calou umas sandlias de salto alto, enfiou
       em cada pulso uma grossa pulseira de ouro e suspendeu ao
       pescoo um fio de ouro com um pendente em forma de lgrima.
       Quando entrou na sala do clube, fez-se silncio. No palco
       estava separada dos espectadores por uma parede invisvel, mas
       ali podiam tocar-lhe, e todos o desejavam. o perigo
       emocionava-a. Chegou junto da mesa 41 e os dois homens
       ergueram-se.
         Sonja, minha querida, ests magnfica, como sempre-elogiou
       Wolff.   Deixa que te apresente o major Smith.
       Sonja apertou a mo ao major. Este era um homem magro, sem
       queixo, bigode louro e mos ossudas e feias. olhou-a como se
       ela fosse uma sobremesa extravagante.
         Encantado, absolutamente  declarou.
       Sentaram-se e Wolff serviu champanhe.
         A sua dana foi esplndida, mademoiselle. Muito ...
       artstica   observou Smith.
          muito amvel, major.
       Sonja percebia que Wolff estava nervoso. No tinha a certeza
       de que ela faria o que ele pretendia. Na verdade, nem ela
       prpria ainda decidira.
         Conheci o pai de Sonja pouco tempo antes de ele morrer-disse
       Wolff a Smith.
       Era mentira. Sonja sabia por que motivo ele o afirmara: para
       lhe recordar. o pai fora ladro em part-time: quando tinha
       trabalho, trabalhava; quando no tinha, roubava. Um dia
       tentara roubar a carteira a uma europeia, a qual fora atirada
       ao cho durante a contenda que se seguira. Era uma mulher
       importante, e o pai de Sonja fora chicoteado pelo crime
       cometido. E morrera enquanto o chicoteavam.
       A partir de ento Sonja passara a nutrir um dio mor al pelos
       Ingleses. Queria que Hitler os humilhasse. Faria tudo para
       ajudar. At seduziria um ingls.
         Major Smith, o senhor  um homem muito atraente  disse, e
       Wolff descontraiu-se visivelmente.
       Smith ficou atrapalhado:
         Valha-me Deus! Acha que sou?
         Acho sim, major.
         Trate-me por Sandy.
       Wolff ergueu-se.
         Lamento, mas tenho de me ir embora. Sonja, posso
       acompanhar-te a casa?
         Deixe isso comigo  interveio Smith.  Isto , se Sonja ...
       Sonja pestanejou e respondeu:
         Com certeza, Sandy.
       Wolff despediu-se. Um criado serviu o jantar, que Sonja foi
       mastigando enquanto Smith descrevia os xitos que alcanara na
       
       equipa de crquete da escola. Era enfadonho. Sonja lembrou-se
       frequentemente do flagelamento do pai.
       o major bebeu incessantemente durante o jantar. Quando saram,
       cambaleava ligeiramente e ela deu-lhe o brao, mais para
       beneficio dele do que seu. Seguiram a p at ao
       barco-habitao, sob o fresco ar nocturno.
         Quer ver o interior?  perguntou Sonja.
         Gostava imenso.
       Ela conduziu-o pelo portal e f-lo descer a escada. o major
       percorreu o aposento com um olhar estupefacto.
         Devo dizer que  muito luxuoso.
       Sonja serviu-lhe uma bebida e sentou-se a seu lado. Ele
       tocou-lhe no ombro, beijou-lhe a face e agarrou-a
       grosseiramente. Sonja esremeceu, repugnada, mas puxou-o para
       si.
         oh, Sandy, voc  to forte!
       olhou por sobre o ombro dele e viu Wolff observando-a atravs
       da vi ia, rindo silenciosamente.
       
       Captulo 5
       
       WILLIAM Vandam comeava a desesperar de vir a encontrar Alex
       Wolff. o assassnio de Asyut verificara-se havia quase duas
       semanas, e Vandam no estava mais perto da sua presa. Sabia
       que comeava a ficar obcecado pelo homem. Fascinava-o o estilo
       de Wolff: a maneira inesperada como entrara no Egipto, o
       rpido assassnio do cabo Cox e a facilidade com a qual se
       fundira com a cidade.
       Vandam no conseguira nenhum progresso concreto, mas recolhera
       algumas informaes, as quais lhe haviam alimentado a
       obsesso. A Villa les oliviers pertncia a um indivduo
       chamado Achmed Rahmha, que herdara a casa do padrasto, Gamal
       Rahmha, um rico advogado do Cairo. Gamal casara com uma tal
       Eva Wolff, viva de Hans Wolff, ambos de nacionalidade alema.
       Adoptara o filho de Hans e Eva, Alex, o que explicava o facto
       de Achmed Rahmha possuir documentos egpcios genunos em nome
       de Alexander Wolff.
       Entrevistas com todos os Rahmhas sobreviventes no tinham
       produzido qualquer resultado. Achmed, ou Alex, desaparecera
       havia dois anos e desde ento ningum recebera notcias dele.
       Vandam estava convencido de que Wolff estivera na Alemanha.
       Havia outro ramo da familia Rahmha, mas era nmada e ningum
       sabia onde os seus membros se encontravam. Certamente, pensou
       Vandam, esse ramo da famlia ajudara de qualquer maneira Wolff
       a reentrar no Egipto.
       Sentado no seu gabinete, fumando cigarro aps cigarro, Vandam
       sentia-se preocupado com Wolff. o indivduo no era um espio
       insignificante, interessado em ouvir conversas e boatos. o
       roubo da pasta provava que pretendia material de alto nvel.
       Mas tambm ele tinha os seus problemas. Precisava de
       justificar a sua presena a vizinhos curiosos, de ocultar o
       rdio em qualquer lado e de arranjar informadores. De uma
       maneira ou de outra, acabaria por deixar rastos.
       Convencido de que Abdullah, o ladro, estava ligado a Wolff,
       Vandam oferecera-lhe uma importante soma a troco de
       informaes. Abdullah afirmara no saber nada a respeito de
       algum chamado Wolff, mas a luz da ganncia brilhara-lhe nos
       olhos.
       
       Vandam percorria o gabinete a passos largos, meditando no
       estilo do assassino. Wolff quase podia ser um homem que Vandam
       conhecera havia muito tempo, mas de que j no conseguia
       lembrar-se. Estilo ...
       o telefone tocou e ele atendeu:
         Major Vandam.
         Major Calder, do gabinete do tesoureiro. o senhor mandou-nos
       uma nota a recomendar que estivssemos atentos ao aparecimento
       de libras esterlinas falsas. Encontrmos algumas.
       Ali estava! Ali estava uma pista!
         Excelente!  exclamou.  Preciso de v-las o mais depressa
       possvel.
         J vo a caminho, juntamente com uma lista das pessoas que
       pagaram com elas.
         ptimo!   Vandam desligou.
       Libras falsas. Condizia. Embora a libra esterlina j no fosse
       a moeda corrente no Egipto, oficialmente um pas soberano,
       quem mantinha negcios com estrangeiros aceitava geralmente
       libras esterlinas, que depois trocava por dinheiro egpcio no
       gabinete do tesoureiro- eral. Vandam abriu a Porta e  ritou
       Dara o corredor:
         Jakes! Traga-me o dossier das notas de banco falsas.
         Sim,.meu major!  ouviu o grito em resposta.
       o capito Jakes, um jovem solcito e merecedor de confiana,
       era o membro de mais alta patente da equipa de Vandam. No
       tardou a aparecer com o dossier pedido. Vandam acendeu a luz
       da secretria e disse:
         Muito bem, mostre-me l uma fotografia de notas falsas tipo
       nazi.
       Jakes folheou o dossier das falsificaes, do qual reirou
       diversas fotografias lustrosas. Cada fotografia mostrava o
       verso e o anverso de uma nota falsa  dinheiro apreendido a
       espies alemes capturados em Inglaterra. Setas pretas
       indicavam os erros que permitiam identificar as falsificaes.
         Seria de esperar que eles tivessem a sensatez de no dar
       dinheiro falso aos seus espies  observou Jakes.
         A espionagem  um negcio dispendioso   redarguiu
       Vandam.  Porque haviam de comprar dinheiro ingls na Sua se
       podem faz-lo eles prprios? Se um espio tem documentos
       falsos, tambm pode ter dinheiro falso.
       o secretrio de Vandam entrou no gabinete:
         Um sobrescrito do tesoureiro, meu major.
       Vandam assinou o recibo e rasgou o sobrescrito, que continha
       diversas notas de cem libras. Colocou uma delas ao lado de uma
       das fotografias.
         Veja, Jakes.
       A nota apresentava o mesmo erro da fotografia.
         No h dvida, meu major  confirmou Jakes.
         Dinneiro nazi, feito na Alemanha  comentou Vandam.
       Agora temos a pista dele.
       Pouco tempo depois, Vandam entrava no Cha-Cha Club. o gerente
       declarou que, em virtude de mais de metade dos seus clientes
       pagar as.contas em libras esterlinas, no podia identificar
       quem lhe dera esta ou aquela nota. o chefe dos caixas do
       Shepheard's Hotel disse-lhe mais ou menos o mesmo.
       Vandam esperava receber praticamente a mesma resposta na casa
       seguinte da sua lista, uma pequena mercearia propriedade de um
       tal Mikis Aristopoulos. A loja cheirava a especiarias e caf,
       
       mas as prateleiras no estavam muito bem fornecidas.
       Aristopoulos era um grego de baixa estatura, de cerca de.
       vinte e cinco anos, com um sorriso aberto que patenteava duas
       fiadas de dentes brancos.
         Bons dias  cumprimentou.   Em que posso servi-lo?
         No parece ter muito que vender  observou Vandam.
       o grego sorriu.
         Se procura alguma coisa especial, talvez a tenha em armazm.
       J se abasteceu aqui alguma vez?
       Era ento esse o sistema: iguarias raras na sala das
       traseiras, s para clientes habituais.
         No vim para comprar  explicou Vandam.  H dois dias o
       senhor trocou cento e quarenta e sete libras inglesas no
       gabinete do tesoureiro-geral ingls. A maior parte desse
       dinheiro era falso.
       Aristopoulos abriu os braos e encolheu os ombros.
         Recebo o dinheiro de ingleses e devolvo-o a ingleses. Que
       posso eu fazer?
         Pode ir parar  cadeia por passar notas falsas.
       o sorriso de Aristopoulos extinguiu-se.
         Por favor, como podia eu saber?
         Esse dinheiro foi-lhe todo pago pela mesma pessoa?
         No sei ...
         Pense! Algum lhe pagou uma encomenda grande com libras
       inglesas?
         Ah, sim! Cento e vinte e seis libras e dez xelins!
         Nome?  perguntou Vandam, sustendo a respirao.
         Wolff. Estou admirado, h anos que  um bom cliente.
         Escute: foi voc quem entregou os gneros?
         ofereci-me para Lhos entregar, como de costume na sua casa
       Villa les oliviers, mas desta vez foi Mr. Wolff quem os levou.
         No entregou nada nessa morada recentemente?
         Desde que Mr. Wolff regressou, no. Lamento muito este pro-.
       blema do dinheiro falso. Talvez possamos combinar alguma coisa
       . ..?
         Talvez  respondeu Vandam, pensativo.
       Aristopoulos conduziu-o para a sala das traseiras, cujas
       prateleiras se apresentavam bem fornecidas. Vandam reparou que
       havia caviar russo, presunto americano enlatado e compota
       inglesa. Aristopoulos servlu caf forte e espesso em chvenas
       minsculas. Depois de beberem, o grego sugeriu:
         Talvez lhe possa oferecer, como prova de boa vontade
       qualquer artigo do meu stock. Whisky escocs?
         No estou interessado nesse tipo de acordo. Preciso de
       encontrar Wolff e voc disse que ele era um cliente habitual.
       Que costuma comprar?
         Muito champanhe. Caviar. Caf. Bebidas estrangeiras.
       "Estilo", pensou Vandam. Era uma questo de estilo.
         Quando ele voltar, tenho de descobrir onde mora. Vou
       arranjar-lhe um auxiliar.
         Eu quero ajud-lo, sem dvida, mas o meu negcio  privado .
       . .
         No tem alternativa. ou me ajuda ou vai para a
       cadeia.-Vandam sorriu e acrescentou:    Creio que conheo a
       pessoa ideal.
       Nessa noite, depois do jantar, sobraando um grande ramo de
       flores que o fazia sentir-se idiota, Vandam foi visitar Elene.
       A jovem morava num espaoso prdio antigo, perto do Largo da
       
       opera. o porteiro indicou-lhe o terceiro andar. Vandam subiu a
       escada de mrmore e bateu  porta do apartamento 34.
       A porta abriu-se. Elene envergava um vestido simples de
       algodo amarelo e saia de roda, cuja cor contrastava
       harmoniosamente com o bronzeado da sua pele. olhou-o um
       momento inexpressivamente e depois dirigiu-lhe um sorriso
       irnico.
         ol!   Aproximou-se e beijou-o na face.   Entre!
       Vandam entrou e Elene fechou a porta.
         No vinha  espera do beijo  confessou o major.
         Faz tudo parte da representao. Deixe-me libert-lo do seu
       disfarce.
       Ele entregou-lhe as flores com a sensao de que estava a ser
       gozado.
         Entre para ali, enquanto as ponho em gua.
       Vandam seguiu a direco do dedo apontado e entrou na sala. o
       aposento era confortvel, decorado a cor-de-rosa e dourado,
       com maples fundos e macios e uma mesa de carvalho clara. Era
       uma sala de gaveto, com janelas de dois lados, nesse momento
       banhada pela luz dos ltimos raios de sol. Num diva estava um
       livro que, presumivelmente, ela estivera a ler quando ele
       batera  porta. Vandam agarrou-o e sentou-se. Chamava-se
       Comboio de Istambul e parecia do gnero de espionagem.
       Elene trouxe as flores numa jarra, encheu a sala.
         Quer beber alguma coisa?
         Sabe fazer martinis?
         Sei. Pode fumar, se quiser.
         obrigado.  Vandam pensou que ela sabia ser hospitaleira e
       sups que naturalmente tinha de o saber, dada a maneira como
       ganhava a vida.   Gosta deste tipo de leitura?  perguntou-lhe,
       apontando o livro.
         Estive a tentar descobrir como uma espia se deve comportar.
       Vandam viu-a sorrir e constatou que estava de novo a ser
       gozado.
         Nunca sei quando fala a srio.
         Muito raramente.  Estendeu-lhe um copo  sentou-se no diva e
       olhou-o por sobre a borda do seu copo.  A espionagem.
       Vandam beberricou o martini. A dosagem era perfeita. E ela
       -tambm. o sol plido iluminava-lhe o rosto. os seus braos e
       as suas pernas pareciam lisos e macios. "Bolas!", pensou,
       irritado. J exercera aquele efeito sobre ele da ltima vez.
         Em que est a pensar?  perguntou ela.
         Em espionagem.
       Elene riu-se.
         Deve ador-la  comentou, sabendo que ele mentira.
       "Como consegue ela fazer-me isto?", perguntou Vandam a si
       mesmo. Mantinha-o num desequilbrio constante com os seus
       gracejos, o seu discernimento, o seu rosto inocente e os seus
       membros longos e bronzeados.
         Apanhar espies pode ser um trabalho compensador, mas no o
       adoro  afirmou.
         Porqu? Porque so enforcados quando os apanha?
         No, porque nem sempre os apanho.
         orgulha-se de ser to cruel?
         No me considero cruel. Tentamos matar mais dos deles do que
       eles dos nossos.  "Porque me estou a defender?", pensou, e
       mudou rapidamente de assunto.   os seus pais esto vivos?
       Elene desviou os olhos e depois, como se obedecesse a um
       
       impulso, comeou a falar-lhe dos seus antecedentes. Fora a
       mais velha de cinco filhos de um casal judeu desesperadamente
       pobre de Alexandria. os seus pais eram pessoas cultas e
       simpticas. "o meu pai ensinou-me ingls, e a minha mae
       ensinou-me a usar roupas limpas", disse. Quando perfizera
       quinze anos, o pai, que era alfaiate, comeara a cegar.
       Deixara de poder trabalhar. Elene empregara-se como criada
       numa casa inglesa e enviava o ordenado para a famlia.
       Apaixonara-se pelo filho dos patres, que a seduzira. Tinham
       sido descobertos, o rapaz fora mandado para a universidade e
       Elene despedida. Aterrorizada ante a perspectiva de regressar
       a casa e contar ao pai, ultra-ortodoxo, por que motivo fora
       despedida,
       vivera da indemnizao do despedimento at um comerciante a
       instalar por sua conta num apartamento. Pouco depois, tinham
       descrito ao pai o modo como.ela vivia e ele obrigara a famlia
       a pr shibah por ela.
         Que  shibah?  perguntou Vandam.
         Luto.
       Desde ento no voltara a ter notcias da famlia,  excepo
       de um recado de uma amiga comunicando-lhe que a mae morrera.
         odeia o seu pai?  perguntou Vandam.
       Elene encolheu os ombros e respondeu:
         Creio que no me sa muito mal-indicando o apartamento.
         Mas  feliz?
       Ela olhou-o e por duas vezes pareceu prestes a falar. Depois,
       desviou de novo o olhar e foi a sua vez de mudar de assunto:
         Que o trouxe c esta noite, major?
       Vandam recuperou o seu profissionalismo.
         Continuo  procura de Alex Wolff. Ainda no o encontrei, mas
       encontrei o merceeiro dele. Quero colocar algum na loja, caso
       ele volte.
         Eu.
         Foi o que pensei.
         Quando ele aparecer, bato-lhe na cabea com uma saca de
       acar e fico de guarda ao corpo inconsciente at voc chegar.
       Vandam riu-se.
         Creio que seria muito capaz disso.    Apercebendo-se da
       descontraco que comeava a revelar, decidiu controlar-se
       antes que fizesse figura de idiota.   Falando a srio, ter
       que tentar descobrir onde ele mora. Pensei que talvez voc
       pudesse travar amizade com ele.
         Que entende por "travar amizade"?
         Isso  consigo, desde que obtenha a morada dele.
         Compreendo.
       A sua disposio mudou subitamente e a voz tornou-se-lhe
       amarga. A mudana surpreendeu Vandam. Certamente uma mulher
       como Elene no se ofenderia com a sua sugesto?!
         Porque no encarrega um dos seus soldados de o seguir at
       casa?  perguntou Elene.
         Ele podia perceber que estava a ser seguido e engan-lo ...
       e depois nunca mais voltava  mercearia. Mas se voc conseguir
       persuadi-lo, digamos, a convid-la para jantar em casa dele,
       ento poderiamos obter a informao que pretendemos sem nos
       arriscarmos.
         Suponho que no  pior do que o que tenho feito.
         Fol o que eu pensei  disse Vandam, aliviado.
       Elene lanou-lhe um olhar carregado.
       
         Comea amanha.  o major deu-lhe a morada.  Comunico consigo
       com intervalos de poucos dias para ter a certeza de que corre
       tudo bem. A propsito, o merceeiro julga que andamos atrs de
       Wolff por falsificao. No lhe fale de espionagem.
       
       A mudana de disposio tornara-se perrnanente. J no sentiam
       prazer na companhla um do outro.
         Deixo-a com o seu livro  disse Vandam.
       Ela ergueu-se.
         Eu acompanho-o  porta.
       Dinglram-se para a porta. Quando Vandam saiu, o inquilino do
       apartamento contguo surgiu no corredor, e o major teve de
       fazer o que decidira no fazer: tomou Elene nos braos,
       inclinou a cabea e beiJou-a na boca. os lbios dela
       corresponderam-lhe um breve instante. o vizinho passou, entrou
       no apartamento e fechou a porta
       Vandam largou-a e ela disse:
         E um bom actor.
         Pois sou. Adeus.
       Virou-se e afastou-se, apressado, pelo corredor fora. Deveria
       sentir-se satisfeito com o resultado do trabalho dessa noite,
       mas em vez disso tinha a impresso de que cometera um acto
       vergonhoso
       ouviu a porta do apartamento dela bater atrs de si.
       
       ELENE encostou-se  porta fechada e amaldioou William Vandam.
       Entrara na sua vida cheio de cortesia britanica, convidara-a
       para realizar um trabalho diferente e ajudar a ganhar a
       guerra. Ela acreditara de facto que ele ia modificar a sua
       vida, oferecer-lhe um emprego digno, algo de importante.
       Afinal constatava agora que se tratava ainda do mesmo velho
       jogo  que ela tanto desejava aban
       
       Sentira-se curiosamente feliz com ele em casa, sentado no seu
       diva a fumar e a beber. Vandam tratava-a como uma pessoa.
       Elene sabia que ele nunca lhe daria uma leve palmada na
       cabea, dizendo: < No preocupe a sua bela cah inh .
       66no fim estragara tudo. Demonstrara-lhe que a considerava
       apenas uma mulher que se vendia.
       "Mas porque me importo tanto?", pensou.
       
       DE madrugada, Alex Wolff sentiu nos ps descalos o frio do
       pavimento de mosaicos da mesquita. Reinavam o silnclo e uma
       sensao de paz na vastido da grande sala de colunas. Um raio
       de sol penetrou por uma das fendas altas e estreitas da parede
       e, no mesmo momento, o muezim comeou a gritar: ,.Allahu
       akbar!"
       Wolff virou-se para o lado de Meca.
       Vestia uma galabia comprida, tinha um turbante na cabeca e
       segurava na mo umas sirnples sandlias rabes. No sabia
       nunca ao certo por que razo o fazia. Era um verdadeiro crente
       somente em teoria. Fora circuncidado, de acordo com a doutrina
       islamica, e fizera a peregrinao a Meca, mas bebia lcool,
       comia carne de porco e no orava todos os dias, quanto mais
       cinco vezes por dia. No entanto, de tempos a tempos, sentia a
       necessidade de mergulhar, por alguns minutos apenas, nos
       rituais familiares.
       Tocou nas orelhas com as mos, que depois uniu  sua frente,
       
       segurando a esquerda com a direita. Inclinou-se e em seguida
       ajoelhou-se. Tocando com a fronte no cho nos momentos
       apropnados recitou o el-fatha: "Em nome de Deus o
       misericordioso e
       con;passivo. Louvado seja Deus, o senhor dos mundos, o
       misericordioso e compassivo, o Prncipe do Dia de Juzo..."
       olhou por sobre o seu ombro direito e depois por sobre o es
       uerdo para saudar os dois anjos-da-guarda, que registavam as
       suas hoas e ms aces.
       Quando olhava por sobre o ombro esquerdo, viu Abdullah. o
       ladro dirigiu-lhe um sorriso aberto, que lhe revelou o dente
       de ao. Wolff levantou-se e saiu. Deteve-se no exterior, a
       cal,car as sandlias, e Abdullah seguiu-o negligentemente.
         s um homem devoto como eu  comentou Abdullah.-Sabia que
       virias, mais cedo ou mais tarde,  mesquita do teu pai.
       Afastaram-se juntos da mesquita e Alex Wolff perguntou:
         Tens andado  minha procura?
         H muita gente  tua procura. Sabendo que s um verdadeiro
       crente, no podia trair-te. Por isso, disse ao major Vandam
       que no conhecia ningum chamado Alex Wolff, nem Achmed
       Rahmha.
       Wolff parou abruptamente. Depois, conduziu Abdullah para um
       caf rabe. Sentaram-se.
         Ele sabe o meu nome rabe!  exclamou Wolff
         Ele sabe tudo a teu respeito ... excepto onde encontrar-te
       paciente e determinado. No teu lugar teria medo dele.
       De sbito, Wolff teve medo.
         Falou com os teus irmos. Eles disseram-lhe que no sabiam
       
       o proprietrio do caf serviu a cada um um prato de pur de
       fava um po escuro. Abdullah continuou a falar, com a boca
       cheia.
         Vandam oferece cem libras pela tua morada. Como se trasse
       nlos um dos nossos por dinheiro!
       Wolff engoliu em seco e observou:
         Mesmo que soubessem a minha morada
         Era fcil descobri-la  redarguiu Abduilah.
         Bem sei. Por isso vou dizer-ta, como prova da minha
       confiana na tua amizade: trabalho nas cozinhas do Shepheard's
       Hotel, a lavar loua. Durmo l, no cho.
         Isso  que  esperteza! Escondes-te mesmo nas barbas deles!
         Sei que guardas segredo  declarou Wolff.   Mas como sinal da
       minha gratido pela tua amizade, espero que aceites uma oferta
       minha de cem libras.
         Mas no  necessrio ...
         Insisto. Mando o dinheiro a tua casa.
         Muito bem.  Abdullah limpou o prato vazio com o ltimo
       bocado de po.  Agora tenho de te deixar. Allah yisallimack
       (que Deus te proteja).   E saiu
       Wolff pediu caf e pensou em Abdullah. o ladro atraio-lo-ia
       por muito menos de cem libras, claro. A histria de que vivia
       nas cozinhas do hotel no passava de uma tctica de dilao. E
       o suborno tambem. No entanto, quando Abdullah descobrisse,
       finalmente, que ele morava no barco-habitao de Sonja em
       Zamalek, provavelmente procur-lo-ia a pedir mais dinheiro, em
       vez de ir ter com Vandam. A situao estava controlada. De
       momento.
       Wolff saiu do caf e dirigiu-se para o posto central dos
       
       Correios a fim de telefonar. Ligou para o QG e disse ao
       telefonista que queria falar com o major Sandy Smith.
         Neste momento no est. Quer deixar algum recado 
       Wolff sabia de antemo que no encontraria o major, pois era
       ainda muito cedo.
         Diga-lhe: "Hoje ao meio-dia em Zamalek. Assina: S."  Em
       seguida, desligou e seguiu para o barco.
       
        X
       
       Desde que Sonja seduzira Smith, o mapr enviara-lhe uma dzia
       
       pedindo outro encontro. Wolff proibira de r sp nder. Aps t ns
       
        i
       e- abriu a torneira da gua.
       Wolff abriu a porta do armario e saiu.
       
       Sonja gritou, o que o fez soltar,uma garga E um bom
       esconderijo, no e?
       
         Para que precisas de um escondenE)lo. h je ao meio-dia
       
         oh no! Porqu to cedo? i     Lha a pena naquela
       
       no cofre o . ,,
       
       Quero que pareaS iirrrreessiissttvei  respondeU ela  e
       regressoU ao
       
       V   w        dt Cama           e vtt
       
       va rapidamente, como se receasse chegar atrasado, e trazla a
       pasta.
       Wolff sorriu, satisfeito.
         L vem ele!  anunciou, e meteu-se no armrio, fechando a
       pona.
       ouviu os passos de Smith no ponal e a seguir na cobena. Pela
       abenura, viu-o descer a escada e entrar no barco.
         Est algum?  A voz de Smith denunciava o receio de uma
       decepo.    Sonja?
       os reposteiros do quarto afastaram-se e Sonja apareceu
       mantendo-os abenos com os braos erguidos. Penteara o cabelo
       para cima, numa piramide complicada, como s vezes fazia para
       as suas exibies. Usava as calas largas e transparentes e um
       colar de pedras preciosas ao pescoo.
       Smith largou a pasta e correu para ela. Rapidamente, ela
       desabotoou-lhe a camisa do uniforme, desceu-lha dos ombros e
       deixou-lha cair no cho. Quando ele a abracou, puxou-o para o
       quano e os reposteiros fecharam-se atrs deles.
       Wolff abriu a pona do armrio e saiu. Ajoelhnu-se e
       experimentou os fechos da pasta, cada no cho perto do
       reposteiro. Estavam fechados  chave. os seus olhos
       detiveram-se na camisa do major que se encontrava onde Sonja a
       largara.
       Com um pouco de sone, talvez a chave da pasta se encontrasse
       num dos bolsos ... Introduziu a mo no primeiro e tacteou 
       procura de uma chave. A algibeira estava vazia. Virou a camisa
       
       at encontrar outra algibeira, apalpou ... e encontrou um
       molho de chaves. Soltou um suspiro de alvio silencioso.
       Experimentou a chave mais pequena. AJustava-se.
       Abriu o fecho e levantou a tampa. No interior da pasta
       encontrava-se um dossier de capa dura. "Mais ementas no, por
       favor!"
       pensou. Abriu o dossier. No cimo da primeira folha leu:
       
       oPERAo ABERDEEN
       
       1. Foras aliadas desencadearo um importante contra-ataque ao
       alvorecer de 5 de Junho.
       2. o ataque ser bifurcado ...
       
       "Meu Deus! , murmurou Wolff. "C est!"
       Prestou ateno aos rudos procedentes do quano, naquele
       momento claramente audveis. J no devia dispor de muito
       tempo. o relatrio era pormenorizado. Wolff no sabia
       exactamente como a cadeia de comando britanica funcionava, mas
       presumivelmente as
       batalhas eram planeadas no QG do deseno e o planeamento era
       depois enviado para o QG do Cairo para aprova,co. os planos
       de batalhas imponantes deviam ser discutidos nas conferncias
       matinais, a que Smith obviamente assistia. Wolff perguntou de
       novo a si mesmo que servios estariam instalados no edifcio
       inidentificado da Shari Suleiman Pasha, aonde Smith se dirigia
       todas as tardes.
       Encontrou um bloco-notas e um lpis encarnado numa gaveta e
       comec,ou a tirar apontamentos. As principais foras aliadas
       estavam cercadas numa rea a que chamavam Cauldron, e o
       contra-ataque de 5 de Junho pretendia abrir uma brecha no
       cerco. Teria incio s duas e cinquenta com o bombardeamento,
       realizado por quatro regimentos de artilharia, da cordilheira
       Aslagh, no flanco oriental de Rommel. Seguir-se-ia o ataque em
       ponta de lana da infantaria da lO.a Brigada Indiana. Quando
       os Indianos tivessem rompido a linha, os tanques da 22.a
       Brigada Blindada precipitar-se-iam atravs da brecha.
       Entretanto, a 32.a Brigada Blindada, com o apoio da
       infantaria, atacaria o flanco setentrional de Rommel na
       cordilheira Sidra.
       Quando chegou ao fim do relatrio, Wolff constatou que
       estivera to absorvido na leitura que nem notara que os rudos
       no quano haviam cessado. A cama gemeu e um par de ps pousou
       no cho. Wolff ficou tenso. Depois ouviu Sonja dizer:
         Amor, bebe uma taa de champanhe comigo antes de te ires
       embora.
         os teus desejos so ordens para mim.
       Wolff descontraiu-se. "Ela pode queixar-se " pensou, "mas faz
       o que eu quero!  Relanceou rapidamente o resto dos papis e
       tomou mais algumas notas. Estava decidido a no se deixar
       apanhar. Smith
       era um achado maravilhoso, e seria uma tragdia matar a
       galinha quando esta acabava de pr o primeiro ovo de ouro, a
       que muito provavelmente se seguiriam outros.
       Uma rolha saltou ruidosamente enquanto ele escrevia. Perguntou
       a si mesmo quanto tempo levaria Smith a beber uma ta,ca de
       champanhe e.resolveu no se arriscar. Guardou os papis no
       dossier e colocou este na pasta, que fechou  chave. Reps as
       
       chaves no bolso da camisa, introduziu-se no armrio e fechou a
       pona. Estava exultante. Encontrara uma mina de ouro.
       S decorrida meia hora viu, atravs do orifcio, Smith entrar
       na sala e estender a mo para a camisa. Wolff sentia-se
       apenado e entorpecido.
         Tens de ir j?  perguntou Sonja.
         Infelizmente, tenho  respondeu o major.  Para falar com toda
       a franqueza, no devo andar a pelas ruas com esta pasta. Foi
       uma complicao dos diabos para chegar aqui ao meio-dia. Tenho
       de ir directamente do QG para o meu gabinete, o que hoje no
       fiz. Informei o meu escntrio de que almoava no QG e disse
       aos rapazes do QG que almoava no meu servio. Mas da prxima
       vez tenho de ir ao meu servio largar a pasta e s de; ois
       venho para c
       "Pelo amor de Deus, Sonja, diz qualquer coisa!", pensou Wolff
       E ela disse:
         Mas, Sandy, a minha empregada vem todas as tardes fazer
       limpeza ... no estaramos ss.
       Smith franziu a testa.
         Nesse caso, temos de nos encontrar  noite.
         Tenho o meu trabalho ... e depois do meu nmero tenho de
       ficar no clube e conversar com os clientes.  Tomou as mos de
       Smith e colocou-as nas suas ancas.  oh, Sandy, diz que vens ao
       meio-dia !
       Foi superior s foras de Smith, que respondeu:
         Claro que venho.
       Beijaram-se e Smith pegou na pasta e saiu. Wolff ouviu os
       passos atravessarem a cobena e o ponal e s depois saiu do
       armrio. Sonja observou-o com maliciosa satisfao, enquanto
       ele distendia os membros doridos.
         Conseguiste o que querias?
         Melhor do que poderia ter sonhado.
       Wolff conou po e chourio para o almoo, enquanto Sonja
       tomava banho. Depois do almoo, foi buscar o romance ingls e
       a chave do cdigo e preparou a sua comunicao para Rommel.
       Nessa noite, depois de SonJa ter sado para o Cha-Cha Club,
       montou o radl o.
       As vinte e quatro horas em ponto emitiu o seu indicativo de
       chamada. Esfinge. Segundos depois, o posto de escuta de
       Rommel, no deserto ou a Companhia Horch respondeu-lhe. Wolff
       emitiu uma srie de w para permitir ao posto receptor fazer
       uma sintonizao perfeita Depois, comeou a transmitir em
       cdigo: "operaco Aberdeen ,;
       
       No princpio da manha de 4 de Junho, a emisso do espio
       representava apenas um de vinte ou-trinta relatrios que se
       encontravam na secretria de Von Mellenthin, oficial de
       informaes de Rommel. Von Mellenthin desprezava os relatrios
       de espies. Basea
       dos em conversas escutadas e puras conjecturas, erravam
       tantasvezes quantas acenavam. Mas aquele parecia diferente.
       o espio cujo indicativo de chamada era Esfinge comeava assim
       a sua mensagem: "operao Aberdeen." Depois, indicava a data
       do ataque, as brigadas implicadas e as suas misses
       especficas, os objectivos que atacariam e o conceito de
       manobra dos planeadores.
       Embora no se sentisse convencido, Von Mellenthin mostrou-se
       interessado. Quando o termmetro da sua tenda assinalou uma
       
       temperatura superior aos cinquenta e cinco graus, iniciou a
       ronda rotineira de discusses matinais. Em pessoa e pelo
       telefone de campanha falou com os oficiais de informaes das
       diferentes divises e com o oficial de ligao da Luftwaffe
       para reconhecimento areo. Recomendou-lhes que estivessem
       atentos s brigadas mencionadas no relatrio do espio e que
       observassem se havia sinais de preparativos para combate nas
       reas de onde o contra-ataque seria supostamente desferido. Em
       seguida, dirigiu-se para o veculo do comando.
       A conversa a foi breve, pois Rommel j tomara as decises
       principais e transmitira as suas ordens para aquele dia na
       noite anterior. Alm disso, Rommel no tinha disposio para
       pensar de manha; queria aco. No seu automvel do
       Estado-Maior ou no seu avio Storch, percorria o deserto, de
       uma posio da linha da frente para outra, transmitindo novas
       ordens, gracejando com os homens ou comandando escaramuas.
       Nessa manha, Von Mellenthin acompanhou-o, a fim de avaliar
       pessoalmente os relatrios dos
       servios de informaes.
       Ao anoitecer, a diviso italiana postada na cordilheira Aslagh
       comunicou que se haviam intensificado os indcios de
       reconhecimento areo por parte do inimigo. A Luft vaffe
       detectou actividades na terra-de-ningum que poderiam ser de
       um grupo avanado a assinalar um ponto de encontro. Foi
       interceptada uma radiocomunicao confusa em que uma brigada
       indiana pedia um esclarecimento urgente das ordens da manha
       com referncia s horas do bombardeamento de artilharia. As
       provas acumulavam-se.
       Consultando o seu ficheiro relativo  32.a Brigada Blindada,
       Von Mellenthin verificou que a mesma fora recentemente
       refernciada na cordilheira Rigel  posio lgica para um
       ataque  cordilheira Sidra. Decidiu apostar no espio Esfinge.
       As dezoito e trinta, levou o seu relatrio ao veculo do
       comando, onde se enc on rzlv: m Rommel o seu chefe de
       estado-maior. coronel
       Rommel aproveitara implacavelmente a sua vantagem. A 14 de
       Junho, a linha de Gazala fora rompida e naquele dia, 20 de
       Junho preparavam-se para cercar a guarnio costeira vital dos
       Ingleses em Tobruk, com os seus depsitos de combustvel,
       explosivos e veiculos.
       o ataque teve incio s cinco e vinte.
       Um som semelhante ao de um trovo longnquo aumentou at se
       tornar ensurdecedor,  medida que os S ukas se aproximavam. A
       primeira formao passou, picou na direco das posies
       britanicas e largou as suas bombas. A grande nuvem de poeira e
       fumo que se ergueu foi o sinal para todas as foras de
       artilharia de Rommel abrirem fogo com um estrpito
       enlouquecedor.
       
       As dez e trinta dessa manha, o tenente-coronel Bogge assomou a
       cabea  porta do gabinete de Vandam e anunciou:
         Tobruk est cercada.
       E o trabalho pareceu intil. Vandam continuou maquinalmente
       tentando descobrir uma nova abordagem para o caso Alex Wolff
       mas tudo lhe parecia irremediavelmente banal. As notcias
       tornavam-se mais deprimentes  medida que o dia avanava. os
       Alemes haviam aberto uma brecha no permetro de cinquenta e
       seis quilmetros de arame farpado em torno de Tobruk; haviam
       
       transposto o fosso antitanques; tinham atravessado o campo de
       minas interior. tinham chegado ao cruzamento de estradas
       estratgico conhecido por King's Cross. Ao anoitecer, o 21.o
       de Panzers entrara em Tobruk e disparara do cais contra
       diversos navios britanicos que tentavam tardiamente escapar
       para o mar alto. Vrios navios tinham sido rapidamente
       afundados.
       Vandam passou a noite na messe dos oficiais,  espera de
       notcias. o Sol nasceu. Um cozinheiro serviu caf. Quando
       Vandam bebia o seu, um capito chegou com um comunicado: "o
       general Klopper entregou a guarnio de Tobruk a Rommel, ao
       alvorecer de hoje."
       Vencido pelo desespero, Vandam saiu da messe e dirigiu-se a p
       para casa. Sentia-se impotente e intil, permanecendo no Cairo
       a perseguir espies enquanto o seu pas perdia a guerra no
       deserto. ocorreu-lhe ao esprito a possibilidade de Alex Wolff
       estar relacionado com as recentes vitrias de Rommel. Mas
       considerou a ideia absurda e afastou-a do pensamento.
       Sentia-se to deprimido que perguntou a si mesmo se seria
       possvel a situao agravar-se  e compreendeu que era,
       evidentemente, possvel.
       
       Captulo 6
       
       Ao fim de duas semanas na mercearia, Elene sentia-se capaz de
       esganar Mikis Aristopoulos. No tinha nada contra a loja em
       si. Gostava do cheiro a especiarias e das fileiras de latas e
       caixas alegremer.te coloridas das prateleiras na sala das
       traseiras. o trabalho era fcil e o tempo passava rapidamente.
       Mas o patro era um tormento, sempre com atrevimentos. No
       deixava escapar a mnima oportunidade de lhe tocar num brao
       ou num ombro, e todas as vezes que passava por ela roava-se
       pelo seu corpo.
       Elene experimentava j emoes to confusas que no
       necessitava daquela insistncia desagradvel para andar
       irritada. Simpatizava e antipatizava simultaneamente com
       William Vandam, que lhe falara de igual para igual e depois a
       tratara como uma mulher por conta; estava incumbida de cativar
       Alex Wolff, que nunca vira, e estava a ser perseguida por
       Mikis Aristopoulos. "Todos me usam", pensava. " a histria da
       minha vida."
       Sentia curiosidade em saber como seria Wolff. Era fcil a
       Vandam dizer-lhe que travasse amizade com ele, mas dependia
       muito do espio. Alguns homens gostavam dela imediatamente.
       Com outros deparava-se-lhe uma impossibilidade. Metade do seu
       ser desejava que se lhe deparasse essa impossibilidade com
       Wolff. A outra metade lembrava-se de que ele era um espio
       alemo, que de dia para dia Rommel se aproximava mais e que se
       os nazis chegassem ao Cairo ...
       Aristopoulos trouxe uma caixa de massa do armazm e, 
       passagem, afagou-lhe a anca. Elene desviou-se e ouviu algum
       entrar na loja. "Vou dar uma lio ao grego", pensou. E quando
       ele entrou no armazm, gritou-lhe em rabe:
         Se volta a tocar-me, corto-lhe a mo!
       o cliente que entrara soltou uma gargalhada. Elene virou-se e
       olhou-o. Era europeu, mas compreendia o rabe, pois gritou em
       direco  sala das traseiras:
         Que tem andado a fazer, Aristopoulos, seu malandro?
       
       Aristopoulos espreitou pela abertura da porta e cumprimentou:
         Bons dias. Esta  a minha sobrinha Elene.  o seu rosto
       denunciou embarao e algo mais que Elene no conseguiu
       identificar, pois a cabea voltou a desaparecer no armazm.
         Sobrinha!  exclamou o cliente olhando para Elene.  Mas que
       histria!
       Era um homem forte na casa dos trinta anos, de cabelo, pele e
       olhos escuros e com um grande nariz adunco. Quando sorria,
       revelava dentes pequenos e regulares, como os de um gato.
       Elene conhecia os sinais de riqueza e identificou-os: camisa
       de seda, relgio de pulso de ouro, calas de algodo
       confeccionadas por um alfaiate, cinto de crocodilo e sapatos
       manufacturados.
         Em que posso servi-lo?  perguntou-lhe.
       Ele olhou-a, como se estudasse diversas respostas possveis, e
       por flm respondeu:
         Comecemos por marmalade inglesa.
       Ela foi ao armazm buscar um boio
          ele!  segredou Aristopoulos.  o homem do dinheiro falso,
       Wolff.
         oh, meu Deus!  o crebro de Elene ficou vazio.  Que lhe
       hei-de dizer?
         No sei ... d-lhe a marmalade ... no sei ...
         Ah, sim, marmalade!  Pegou num boio, regressou  loja e fez
       um esforo para sorrir a Wolff.   Que mais?
         Um quilo de caf bem modo.
       observou-a enquanto ela pesava o caf e o introduzia no
       moinho. De sbito, Elene teve medo dele. Parecia calmo e
       confiante, seria difcil engan-lo.
         Mais alguma coisa?  perguntou.
         Uma lata de presunto.
       Ela movia-se pela loja, procurando os gneros que ele pedia e
       colocando-os no balco. "Tenho de falar, de conversar com
       ele", pensou. "No posso limitar-me a repetir: 'Que mais?'
       Estou aqui para travar amizade com ele."
         Que mais?  perguntou.
         Meia caixa de champanhe. Creio que  tudo.
       A caixa de champanhe com seis garrafas era pesada, e ela
       trouxe-a a arrastar do armazm.
         Calculo que quer que entreguemos esta encomenda  observou,
       esforando-se por falar em tom casual.
       os olhos escuros dele pareciam trespass-la.
         No  preciso  respondeu em tom firme.
         Como queira  declarou, acenando numa anuncia. No esperara
       de facto que resultasse, mas, no obstante, sentiu-se
       decepcionada.
       Comeou a passar a conta. Wolff observou:
       - o Aristopoulos deve estar a ganhar bem para empregar uma
       ajudante.
         No diria isso se soubesse quanto ele me paga.
         No gosta do emprego?
       Ela olhou-o, respondendo:
         Faria tudo para sair daqui.
         Que tem em mente?  perguntou rapidamente.
       Elene encolheu os ombros e recomecou a somar. Por fim disse:
         Treze libras, dez xelins e catorze dinheiros.
         Como sabia que eu ia pagar em libras?
       Tinha, realmente, um raciocnio muito gil. Elene receou
       
       ter-se denunciado. Mas teve uma inspirao:
         No  um oficial ingls?
       A pergunta f-lo soltar uma gargalhada ruidosa. Depois,
       retirou do bolso um rolo de notas de libra e deu-lhe catorze.
       Elene entregou-lhe o troco em moedas egpcias, enquanto
       pensava: "Que mais posso eu fazer? Que mais posso eu dizer?"
       Comeou a acondicionar as compras num cartucho de papel pardo.
         Vai dar uma festa?  perguntou.   Adoro festas.
         Porque pergunta?
         Por causa do champanhe.
         Ah! Bem, a vida  uma longa festa.
       "Falhei", pensou Elene. "Agora vai-se embora e talvez no
       volte
       durante semanas. ou at nunca mais ..."
       Wolff colocou a caixa de champanhe sobre o ombro esquerdo e
       pegou no embrulho com a mo direita.
         Adeus  despediu-se, mas  porta voltou-se para
       trs:-Encontre-se comigo no oasis Restaurant na quarta-feira,
       s sete e meia da noite. Chamo-me Alex Wolff.
         Est bem!  concordou, exultante, e ele desapareceu.
       
       Fol uma longa viagem de automvel para o interior do deserto.
       Jakes seguia ao lado do motorista e Vandam e Bogge sentavam-se
       atrs. o major estava exultante. Uma companhia australiana
       apreendera um posto receptor de TSF alemo. Era a primeira boa
       notcia que Vandam recebia em meses.
       Chegaram ao meio-dia. Homens do Servio de Informaes j
       trabalhavam no local. Numa pequena tenda eram interrogados
       prisioneiros, enquanto especialistas de material inimigo
       examinavam armas e veculos. Competia  brigada de Bogge
       examinar o material
       dos carros de rdio apreendidos, a fim de determinar o que os
       Alemes tinham sabido antecipadamente a respeito dos
       movimentos dos Aliados.
       Encarregou-se cada um do seu carro. o de Vandam estava numa
       lstima. os Alemes tinham comeado a destruir os seus papis
       ao aperceberem-se de que a batalha estava perdida. Tinham
       despejado caixas e ateado uma pequena fogueira, que no
       obstante fora rapidamente extinta. Um dossier apresentava
       manchas de sangue: algum morrera a defender os seus segredos.
       Vandam ps mos  obra. Como eles tentariam destruir em
       primeiro lugar os papis importantes, comeou pela rima
       semiconsumida pelo fogo. Havia muitas comunicaes-rdio
       aliadas interceptadas e em alguns casos decifradas. A medida
       que trabalhava, o major constatava que a radiointercepo dos
       Servios de Informaes Alemes estava a recolher uma enorme
       quantidade de material til.
       No fundo da pilha semiqueimada viu um romance em ingls.
       Vandam leu a primeira linha: "A noite passada sonhei que
       regressava a Manderley." o ttulo era-lhe familiar: Rebecca,
       por Daphne du Maurier. Vandam pensou que a mulher o devia ter
       lido. Parecia ser a respeito de uma jovem que vivia numa casa
       de campo inglesa.
       Leitura peculiar para o Afrika Korps. E porqu em ingles?
       Podia ter sido tirado a um soldado britanico aprisionado, mas
       Vandam duvidava. Sabia por experincia que os soldados liam
       romances policiais violentos e a Bblia. S lhe ocorria uma
       possibilidade: o livro era a base de um cdigo.
       
       Um livro-cdigo era uma variante do antigo bloco com letras e
       nmeros impressos ao acaso em grupos de cinco caracteres.
       Faziam-se apenas dois exemplares de cada bloco: um para o
       emissor e outro para o receptor. Cada folha era utilizada para
       uma nica mensagem e destruda. Dado que cada folha era
       utilizada apenas uma vez, o cdigo no podia ser decifrado. Um
       livro-cdigo funcionava do mesmo modo, com a diferena de que
       as suas pginas no eram forosamente destrudas depois de
       usadas.
       Um livro tinha uma grande vantagem sobre um bloco. Este
       revelava-se inequivocamente destinado a decifrar mensagens,
       enquanto um livro parecia in&uo, pormenor importante para um
       agente a trabalhar atrs das linhas inimigas. Esta talvez a
       razo que explicava o facto de o livro ser em ingls. Um
       espio em territrio britanico precisaria de ter um livro em
       ingls.
       Vandam examinou o livro atentamente. o preco fora escrito a
       
       lpis na folha em branco do final do volume e depois apagado.
       o major tentou ler a impresso deixada pelo lpis e distinguiu
       o nmero SO, seguido por trs letras: esc.  cinquenta escudos.
       Provavelmente, o livro fora comprado no Portugal neutro, uma
       colmeia de espionagem de baixo nvel.
       Apenas chegasse ao Cairo, enviaria uma mensagem  seco do
       Servio de Informaes de Lisboa pedindo que investigassem nas
       livrarias portuguesas que vendiam livros em ingls. No eram
       provavelmente muitas. Deviam ter sido vendidos pelo menos dois
       exemplares, e talvez o livreiro se lembrasse da venda. Vandam
       estava convencido de que o outro exemplar se encontrava no
       Cairo e jlgava saber quem o utilizava.
       Pegou no livro e saiu do carro. Bogge, lvido e dominado por
       uma clera que tocava as raias da histeria, avanava
       pesadamente pela areia. Entregou a Vandam uma folha de papel.
       Era uma comunicao-rdio decifrada, datada da meia-noite de 3
       de Junho e com o indicativo de chamada Esfinge. A mensagem
       tinha como ttulo operao Aberdeen.
       Vandam ficou paralisado. A operao Aberdeen efectuara-se no
       dia 5 de lunho, e os Alemes tinham recebido uma radiomensagem
       a esse respeito vinte e quatro horas antes.
         Meu Deus, isto  uma tragdia!
         Claro que  uma tragdia!  gritou Bogge.  Significa que
       Rommel est a receber pormenores completos dos nossos ataques
       antes de os desencadearmos!
       Jakes aproximou-se:
         Com licena ...
         Agora no, Jakes  disse Vandam bruscamente.
         Deixe-se ficar, Jakes  ordenou Bogge.  Isto tambm lhe diz
       respeito.  Depois, furioso, voltou-se de novo para
       Vandam:-Eles devem estar a receber este material de um oficial
       ingles. o seu
       trabalho refere-se s fugas de segurana ... isto  do raio da
       sua responsabilidade!   E afastou-se, dominado por uma clera
       violenta.
       Vandam sentou-se no estribo do carro e acendeu um cigarro com
       mo trmula "Quem ser o tal Wolff?", pensou. No s
       conseguira penetrar no Cairo e escapar  rede de Vandam, como
       tambm obtivera acesso a segredos de alto nvel. Claro que era
       possvel que Wolff nada tivesse a ver com a comunicaco-rdio
       
       mas custava a crer que pudessem existir dois como ele no
       Cairo.
       De p ao lado de Vandam, Jakes olhava incrdulo a mensagem
       decifrada.
         Esta informao est no s a ser passada como tambm
       utilizada por Rommel  observou Vandam.   Se se lembra do
       combate de 5 de Junho ...
         Foi uma chacina  disse Jakes.
       "E a culpa foi minha , pensou Vandarn. Bogge tivera razo a
       esse respeito. Um homem s no podia ganhar a guerra, mas
       podia perd-la. Vandam no queria ser esse homem.
       Jakes fez estalar os dedos:
         At me esqueci do que vinha dizer-lhe! Chamam-no ao telefone
       de campanha do QG. Est uma mulher egpcia no seu escritrio
       que diz que quer falar consigo e se recusa a sair. Afirma ter
       um recado urgente.
       "Elene!", pensou Vandam. "Deve ter estabelecido contacto com
       Wolff." Correu para o telefone.
         Est?
         William?
         Elene!  Desejou dizer-lhe como era bom ouvir-lhe a voz, mas
       limitou-se a perguntar-lhe:   Que aconteceu?
         Ele foi  loja. Temos um encontro.
         Bom trabalho! onde e quando?
         Amanha  tarde, s sete e meia, no oasis Restaurant.
         Estarei l, Elene. No sei dizer-lhe como lhe estou
       grato-disse Vandam, e desligou.
       Bogge, de p atrs dele, perguntou:
         Mas que diabo de histria  essa de utilizar o telefone de
       campanha para marcar encontros com as suas namoradas?
       o major dirigiu-lhe um sorriso radioso:
         No era uma namorada, era uma informadora. Estabeleceu
       contacto com o espio e eu espero prend-lo amanha  noite.
       
       WoLFF observava Sonja a comer. o fgado estava mal passado,
       rosado e macio, como ela gostava, e Sonja comia com deleite,
       como habitualmente. Sabiam ambos que Wolff corria um risco,
       pequeno mas desnecessrio, levando-a a um restaurante, mas
       eram ambos de opinio que valia a pena corr-lo. o mais
       importante na vida para os dois era a satisfao dos seus
       apetites e a vida quase no valeria a pena ser vivida sem boa
       cozinha.
       Sonja acabou o fgado e o criado serviu um sorvete. Quando,
       finalmente, deixasse de danar, engordaria. Wolff imaginou-a
       dali a vinte anos: teria trs queixos e um seio imenso.
         De que ests a sorrir?  perguntou-lhe ela.
         De ti, quando fores velha, com um vestido preto informe e um
       vu.
         No vou ficar assim. Hei-de viver num palcio, rodeada por
       jovens de ambos os sexos, atraentes e ansiosos por satisfazer
       o meu mais pequeno capricho. E tu?
       Wolff riu. Chamou o criado e pediu caf, brandy e a conta.
         Tenho notcias para ti  disse a Sonja.  Foste to eficaz com
       o major Smith que mereces uma recompensa. Creio que te
       descobri outra Fawzi.
       Sonja ficou subitamente imvel.
         Quem  ela?
         A sobrinha do merceeiro. Uma beleza. E est morta por se
       
       livrar do Aristopoulos. Convidei-a para jantar amanha  noite.
         E leva-la ao barco?
         Talvez. No quero estragar tudo apressando-a.
       Wolff beberricou o brandy. Sentia-se bem: comera opiparamente,
       bebera um vinho capitoso, conseguira resultados frutuosos na
       sua misso e tinha a perspectiva de uma nova aventura. Quando
       lhe apresentaram a conta, pagou com notas de libra inglesas.
       Quando estavam prestes a sair do restaurante, Ibrahim, o
       proprietrio, aproximou-se com a garrafa do brandy.
         Monsieur, madame, espero que aceitem um clice de brandy com
       os cumprimentos da casa.
         E muito amvel  respondeu Wolff.
       Ibrahim serviu-lhes o brandy, inclinou-se numa vnia e
       afastou-se. Aquela oferta demor-los-i um pouco mais, pensou.
       Dois dias antes, um amigo que era caixa do Metropolitan Hotel
       infor nara-o de que o tesoureiro-geral ingls se recusara a
       trocar algumas notas de -libra inglesas qu tinham sido
       passadas no seu bar. As notas eram falsas. E a maior injustia
       residia no facto de os Ingleses terem confiscado o dinheiro.
       Tal no aconteceria a Ibrahim. o seu amigo do Metropolitan
       ensinara-lhe a identificar as falsificaes, e desde ento
       verificava todas as notas de libra recebidas antes de as
       guardar. Quando recebeu as notas falsas pagas pelo europeu
       alto que pedira os pratos mais caros para a famosa danarina
       do ventre, resolvera chamar a Polcia Militar Britanica. A
       Polcia evitaria que o cliente fugisse e talvez
       ajudasse a persuadi-lo a pagar por cheque ou mediante uma nota
       de dvida. Ibrahim saiu pela porta das traseiras, a fim de
       utilizar o tlefone de um vizinho.
       Regressou decorridos minutos, e Wolff viu-o falar em segredo
       com um criado. Calculou que o tema da conversa fosse a famosa
       Sonja.
       Ela bocejou. Eram horas de a meter na cama. Wolff dirigiu um
       aceno ao criado e pediu-lhe:
         Traga-me, por favor, o abafo da senhora.
       o homem afastou-se, de passagem segredou umas palavras ao
       proprietrio e continuou a dirigir-se para o vestirio. Soou
       um alarme no crebro de Wolff.
       Brincou com uma colher enquanto esperava pelo agasalho de
       Sonja. o proprietrio saiu pela porta principal e entrou de
       novo. Dirigiu-se  mesa deles e perguntou:
         Desejam que chame um txi?
         Apetece-me tomar um pouco de ar  respondeu Wolff.-Vamos
       andar um bocado.
       o criado trouxe o agasalho de Sonja. o proprietrio no
       desviava os olhos da porta. Wolff ouviu outro alarme, desta
       vez mais forte, e perguntou ao proprietrio:
         Aconteceu alguma coisa?
       o homem pareceu preocupado.
         Tenho de abordar consigo um problema delicado ... -ouviu-se
       um veculo parar ruidosamente  porta.  o dinheiro com que me
       pagou ...  falso.
       A porta do restaurante foi violentamente aberta e entraram
       trs polcias militares. Wolff fitou-os, boquiaberto. os
       acontecimentos sucediam-se com uma rapidez espantosa! Polcia
       Militar. Dinheiro falso. De sbito, teve medo. Podia ser
       preso. Aqueles imbecis de Berlim deviam ter-lhe dado notas
       falsas.
       
       os PMs, dois ingleses e um australiano, dirigiram-se para a
       mesa. Cada um deles trazia uma arma pequena no coldre do
       cinto. o ingls de patente mais elevada perguntou:
          este o homem?
         Um momento  pediu Wolff, e ficou estupefacto com a calma que
       transparecia na sua voz.  o proprietrio acaba de me dizer que
       o meu dinheiro  falso. No acredito, mas estou disposto a
       satisfaz-lo. Tenho a certeza de que podemos chegar a um
       acordo. Francamente, no era necessrio chamar a Polcia.
       o PM de patente mais elevada redarguiu:
          crime passar dinheiro falso.
         Desde que se saiba que o dinheiro  falso.  Ao ouvir a sua
       prpria voz, serena e persuasiva, Wolff sentiu a sua confiana
       aumentar.  Bom, passo um cheque para pagamento da minha conta
       e pago a gorjeta em dinheiro egpcio. Amanha levo as supostas
       notas falsas ao tesoureiro-geral ingls para as examinar, e se
       forem realmente falsas, entrego-lhas. Creio que esta soluo
       satisfaz todos.
         Mesmo assim, tem de vir comigo  redarguiu o PM. -Precisamos
       de lhe fazer algumas perguntas. So as ordens que tenho.
         Muito bem  concordou Wolff. Sentia o medo a incutir-lhe nos
       braos uma fora desesperada.
       Quando se ergueu, levantou a mesa e lanou-a ao PM. A aresta
       atingiu a cana do nariz do oficial, que caiu para trs. A mesa
       tombou sobre ele.
       Wolff agarrou no proprietrio e atirou-o ao segundo PM ingls.
       Depois lanou-se ao terceiro PM, o australiano, e desferiu-lhe
       um soco na cara. o australiano, porm, no caiu. o PM ingls
       afastou o proprietrio do caminho e atirou Wolff ao cho com
       um pontap.
       Wolff caiu pesadamente e bateu com as costas no pavimento de
       mosaico. o ingls saltou-lhe para o peito, agredindo-o na
       cabea. o
       australiano sentou-se sobre os ps de Wolff. Ento o espio
       viu sobre ele o rosto de Sonja, distorcido pela clera. Num
       relampago percebeu que ela recordava outro espancamento
       administrado por soldados ingleses. A danarina ergueu no ar
       uma pesada cadeira e abateu-a com toda a sua forca sobre os
       polcias. Um canto atingiu a boca do PM ingls, que soltou um
       grito de dor.
       o australiano levantou-se e agarrou Sonja por detrs. Wolff
       empurrou o ingls ferido e ergueu-se de um salto.
       Levou a mo ao interior da camisa e retirou a faca.
       o australiano empurrou Sonja para o lado, deu um passo em
       frente, viu a faca e deteve-se. Wolff viu os olhos do homem
       passarem de um lado para o outro, onde os seus companheiros
       jaziam no cho. Depois, levou a mo ao coldre.
       Quando Sonja se atirou ao PM, Wolff virou-se e correu para a
       porta, que abriu ruidosamente. Ao mesmo tempo soou um tiro.
       
       VANDAM conduzia a motocicleta atravs das ruas a uma
       velocidade perigosa. Arrancara do farol a cobertura do
       blackout e guiava com o dedo pole ar na buzina. serpenteando
       por entre o transito, indiferente s buzinadelas indignadas dos automobilistas e aos seus
       punhosfechados e ameaadores.
       o subchefe da Polcia Militar telefonara-lhe para casa:
         Vandam, acabmos de receber um telefonema de um restaurante
       
       onde um europeu est a tentar passar dinheiro falso.
       - onde? - o subchefe informou-o e Vandam saiu de casa no mesmo
       momento, desesperadamente ansioso por apanhar Alex Wolff.
       Guinou para evitar um buraco, depois acelerou e desceu
       velozmente uma rua tranquila. A direcco era prximo da Cidade
       Velha. Contornou mais duas esquinas e chegou. Encontrava-se a
       meio da rua, estreita e escura, quando ouviu um tiro de arma
       ligeira e o som de um vidro estilhaado. Um homem alto saiu a
       correr de uma porta. Tinha de ser Wolff.
       Vandam sentiu um mpeto de selvajaria e lancou-se em
       perseguio do homem, que mantinha iluminado pelo feixe
       luminoso do farol. o fugitivo corria velozmente, movimentando
       agilmente as pernas possantes. Quando a luz o atingiu, olhou
       para trs, por sobre o ombro. Vandam vislumbrou um nariz de
       falco, um bigode e uma boca aberta e ofegante. Se os oficiais
       do QG andassem armados, t-lo-ia alvejado a tiro.
       A motocicleta ganhava rapidamente terreno. Quando se
       encontrava quase a par do espio, Wolff dobrou subitamente uma
       esquina. Vandam travou, a roda de trs derrapou e
       imobilizou-se e a motocicleta arrancou de novo, veloz.
       Viu Wolff desaparecer num beco estreito. Sem afrouxar, Vandam
       descreveu a curva e entrou tambm no beco. A motocicleta
       mergulhou no vcuo e o estmago de Vandam revolveu-se. o cone
       de luz branca do farol no iluminou nada. o major sups que
       caa num buraco. A roda traseira bateu em qualquer coisa, a
       dianteira desceu e bateu tambm. o farol iluminou um lanco de
       degraus. A motocicleta saltou pousou de novo e foi descendo os
       degraus numa srie de solavancos. A cada solavanco, Vandam
       convncia-se de que ia perder o controle do veculo e
       despenhar-se pela escada abaixo. Mas chegou ao fundo. Viu
       Wolff contornar outra esquina e seguiu-o. Estavam num
       labirinto de becos. Wolff subiu a correr um curto lano de
       degraus.
       Vandam acelerou. IJm momento antes de chegar ao fundo da
       escada, torceu o guiador e a roda da frente levantou-se. A
       motocicleta subiu os degraus, de novo aos solavancos, e Vandam
       chegou ao cimo.
       Encontrou-se num corredor comprido, entre paredes altas e
       nuas. Wolff precedia-o ainda, sem deixar de correr. Vandam
       acelerou,
       
       alcanou-o, abrandou para o ultrapassar e depois travou
       bruscamente. A roda de trs derrapou e a da frente chocou com
       uma parede. o major saltou quando a motocicleta caiu e aterrou
       de p, voltado para Wolff. o farol partido projectava um feixe
       de luz na escurido do corredor. Sem afrouxar a corrida, Wolff
       saltou sobre a motocicleta e chocou com Vandam. Este, ainda
       desequilibrado, cambaleou para trs e caiu. Tacteou s cegas,
       no escuro, encontrou o tornozelo de Wolff, agarrou-o e
       puxou-o. Wolff estatelou-se tambm no cho.
       o motor da motocicleta desligara-se e, no silencio, Vandam
       ouvia a respirao do seu adversrio, entrecortada e rouca. E
       sentia tambm o seu cheiro: uma mistura de lcool, suor e
       medo. Mas no lhe via o rosto. Durante uma fracco de segundo
       os dois homens permaneceram no cho, um exausto e o outro
       momentaneamente atordoado. Depois, levantaram-se ambos e
       Vandam atirou-se a Wolff. Tentou imobilizar-lhe os braos, mas
       no conseguiu agarr-lo. De sbito, mudou de tctica e
       
       desferiu-lhe um soco. Acertou em qualquer coisa mole e Wolff
       deixou escapar um som cavo. Vandam vibrou novo golpe, visando
       a cara, mas Wolff esquivou-se. A luz mortia do beco, Vandam
       viu algo brilhar-lhe na mo. "Uma faca!", pensou.
       A lamina faiscou, direita  sua garganta, e ele lanou a
       cabeca para trs, num reflexo instantaneo. Sentiu uma dor no
       rosto semelhante a uma queimadura e levou a mo  face, onde o
       sangue quente jorrava abundantemente. Em seguida, percebeu que
       caa, ouviu Wolff afastar-se a correr e mer ulhou na
       escurido.
       
       No hospital, uma enfermeira anestesiou metade da cara de
       Vandam, aps o que a Dr.a Abuthnot lhe suturou o golpe.
       Aplicou um penso e segurou-o com uma ligadura, que lhe amarrou
       em torno da cabeca.
         Devo parecer a caricatura de algum com dores de dentes-
       comentou o major.
       Ela mantinha uma expresso grave. No tinha o menor sentido de
       humor.
         No vai sentir-se to espirituoso quando o efeito do
       anestsico passar  preveniu.  A cara vai doer-lhe. Vou dar-lhe
       um analgsico.
         No quero, obrigado   respondeu Vandam.
         No arme em duro, major, que se arrepende.
       Ao observar a mdica na sua bata branca hospitalar e calcando
       sapatos de salto baixo, Vandam perguntou a si prprio como
       pudera ter-se sentido atrado por ela. Era atraente, mas
       simultaneamente fria, superior e anti-sptica. Nada como
       Elene.
         Um analgsico poe-me a dormir e eu tenho um trabalho
       importante e urgente para fazer  esclareceu.
         Voc no pode trabalhar. A perda de sangue enfraqueceu-o, e
       dentro de poucas horas vai sentir-se tonto e exausto.
         Vou sentir-me pior se os Alemes ocuparem o Cairo.
       Levantou-se, apertou-lhe a mo e saiu.
       Jakes esperava-o  porta com um carro.
         J sabia que no conseguiam conserv-lo l dentro muito
       tempo, meu major. Levo-o a casa?
         No  respondeu Vandam, cujo relgio parara.  Que horas so?
         Duas e cinco.
         Presumo que Wolff no estava a jantar sozinho?
         No, meu major. A sua companheira est no QG, sob priso.
       Uma autntica brasa chamada Sonja.
         A danarina?
         Nem mais.
         Leve-me l.   o automvel arrancou.
       Wolff era ousado, pensou Vandam, para sair assim com a mais
       famosa danarina de ventre do Egipto nos intervalos entre os
       roubos de segredos militares britanicos. Bem, naquele momento
       j no devia sentir a mesma ousadia, o que, de certo modo, era
       lamentvel: advertido pelo incidente de que os Ingleses lhe
       andavam no encalo, passaria a ter mais cuidado.
       Chegaram ao QG e apearam-se.
         Que lhe fizeram desde que ela chegou?  perguntou Vandam a
       Jakes.
         Nada. Est numa sala vazia sem comida, nem gua, nem
       perguntas.
         ptimo.  Era, no entanto, de lamentar que a jovem tivesse
       
       disposto de tempo para ordenar os pensamentos.
       Jakes conduziu-o  sala onde Sonja se encontrava. Vandam
       espreitou pelo ralo. Era uma sala quadrada e sem janelas, mas
       bem iluminada electricamente, onde havia uma mesa e duas
       cadeiras. Jakes tinha razo: Sonja era uma brasa. Contudo, no
       era de modo algum bonita. Tinha um no-sei-qu de amazona, com
       o seu corpo maduro e voluptuoso e as suas feies de traos
       vincados. Envergava um
       
       vestido comprido amarelo-vivo e percorria o aposento a passos
       largos.
       Vandam abriu a porta e entrou. Sentou-se  mesa sem pronunciar
       uma palavra, deixando a danarina em p, o que constitua uma
       desvantagem psicolgica para uma mulher. "o primeiro ponto 
       meu", pensou. ouviu lakes entrar atrs dele, olhou para Sonja
       e disse-lhe:
         Sente-se.
       Ela continuou em p, fitando-o, e um sorriso alastrou-lhe pelo
       rosto. Apontou para a ligadura e perguntou:
         Foi ele que lhe fez isso?
       "o segundo ponto  dela."
         Sente-se    repetiu Vandam, e ela sentou-se. "ele " ?
         Alex Wolff, o homem que vocs tentaram espancar es a noite.
         E quem  Alex Wolff?
         Um frequentador rico do Cha-Cha Club.
         H quanto tempo o conhece?
       Ela consultou o relgio antes de responder:
         H cinco horas.
         Quais so as suas relaes com ele?
         Samos juntos  respondeu com um encolher de ombros.
         Como se conheceram?
         Do modo habitual. Mr. Wolff convidou-me para uma mesa,
       ofereceu-me uma taa de champanhe e perguntou-me se queria
       jantar com ele. Aceitei.
         Porqu?
         Mr. Wolff pareceu-me um homem invulgar.   olhou de novo para
       o rosto de Vandam e sorriu.   de facto um homem invulgar.
         Qual  a sua morada?
         Jlhan, Zamalek.  um barco-habitao.
         Idade?
         Que indelicadeza! Recuso-me a responder.
         Est a pisar terreno perigoso ...
         No, quem est a pisar terreno perigoso  voc!  A sua fria
       sbita assustou Vandam.  Pelo menos dez pessoas viram os seus
       fanfarres fardados prender-me. Por volta do meio-dia, metade
       do Cairo saber que os Ingleses prenderam Sonja. Se eu no
       aparecer no Cha-Cha, haver uma amotinao. No, senhor, no sou eu que
       estou a pisar terreno perigoso.
       o rosto de Vandam permaneceu inexpressivo. o oficial teve de
       ignorar o que ela dizia, porque era verdade.
         Recapitulemos  disse brandamente.  Disse que conheceu Wolff
       no Cha-Cha ...
         No, eu no recapitulo nada  interrompeu-o.  Respondo a
       perguntas, mas no serei interrogada.  Ergueu-se, virou a
       cadeira e sentou-se de costas para Vandam.
       o major fitou-lhe a nuca com um misto de clera consigo mesmo
       por lhe permitir manobr-lo daquela maneira e uns laivos de
       admirao pela forma como ela agia. Ergueu-se bnuscamente e
       
       saiu. seguido por lakes. No corredor disse ao seu subordinado:
         Temos de a deixar ir embora.
       Jakes afastou-se, a fim de transmitir as instruc,oes
       necessrias. Enquanto esperava, Vandam pensou em Sonja e
       perguntou a si mesmo a que reservas teria ela ido buscar a
       fora para o desafiar. Era verdade que a fama de que gozava
       lhe conferia uma certa protecc,ao mas utiliz-la para o
       ameaar reflectia uma atitude de jactncia e de um certo
       desespero.
       Evocou mentalmente a conversa. Ela mostrara-se calma e
       inexpressiva, excepto quando se rira do seu ferimento. No fim,
       quando se insurgira contra ele, que lhe lera no rosto? No
       fora apenas ira. Nem medo. Finalmente, compreendeu: dio. Ela
       odiava-o. Mas ele no lhe era nada, era um mero oficial
       ingls. o que significava que ela odiava os Ingleses. E fora o
       dio que lhe incutira fora.
       Vandam sentiu-se subitamente cansado. Sentou-se pesadamente
       num banco do corredor. onde iria ele buscar fora? Imaginou os
       nazis a entrarem no Cairo. Para pessoas como Sonja, o domnio
       britanico no Egipto no se difernciava do nazi. E, encarando
       os Ingleses pelos olhos dela, essa concepo justificava-se
       at certo ponto: os nazis consideravam os judeus sub-humanos,
       e os Ingleses consideravam os negros crianas; no havia
       liberdade de imprensa na Alemanha, tal como no havia no
       Egipto, e os Ingleses, como os Alemes, tinham os seus presos
       polticos.
       o efeito da anestesia no rosto comeava a desaparecer. Sentia
       na face uma linha de dor aguda. Pensou em Billy. No queria
       que o rapaz desse pela sua falta ao pequeno-almoo. "Talvez
       fique acordado, o leve  escola e depois volte para casa e
       durma."
       Como seria a vida de Billy sob o domnio nazi? Ensin-lo-iam a
       desprezar os Arabes. os seus professores actuais no eram
       grandes admiradores da cultura africana, mas ele, pelo menos,
       podia esforar-se por que o filho compreendesse que rac,as
       diferentes no eram forosamente infenores.
       Pensou em Elene num campo de concentrao e estremeceu.
        <No somos muito admirveis, especialmente nas nossas
       colnias , pensou, < mas os nazis so piores. Basta pensares
       nas pessoas que amas para a situao se tornar mais clara.
       Procura fora nisso."
       Jakes regressou e Vandam disse lhe:
         Ela  uma anglfoba, odeia os Ingleses. No acredito que
       Woit`f tenha sido uma conquista casual. Agora leve me para a
       csquldra central da Polcia.
       Quando Jakes estacionou  porta da esquadra, Vandam disse:
         Quero falar com o chefe dos detectives.
         No me parece que ele esteja c a estas horas ...
         Pois no. V saber a morada dele e vamos acord lo.
       Jakes entrou no edifcio e Vandam contemplou o exterior
       atravs do p;ira brisas. A madrugada rompia. As estrelas
       tinham se apagado e o negro do cu transformava se em
       cinzento.
       Jakes regressou e informou: "Gezira." Atravessaram a ponte que
       ligava  ilha e Jakes parou defronte de uma casa pequena,
       agradvel, de um s andar e com jardim. Vandam conc;uiu que o
       chefe dos detectives estava a auferir lucros razoveis, embora
       no exorbitantes, com os subornos. Devia ser um homem
       
       cauteloso, o que era bom sinal.
       Subiram o caminho e bateram  porta. Jakes usou a sua voz de
       sargento instrutor:
         Servio de Informaes Militar. Abra!
       Decorrido um minuto, um rabe de baixa estatura, mas de
       configurao elegante, abriu a porta, ainda a afivelar o cinto
       das calas, e perguntou em ingls:
         Que se passa?
       Vandam respondeu lhe:
       -   Uma emergncia. Deixa nos entrar?
         Claro.  o detective, que parecia assustado, conduziu os a
       uma pequena sala.   Que aconteceu?
         No h motivo para panico  tranquilizou o Vandam. -Queremos
       um servio de vigilncia e precisamos de o montar
       imediatamente.
         Com certeza. Sentem se.  o detective procurou um livro de
       pontamentoS e um lpis.   Quem  pessoa?
         Sonja el-Aram, a danarina. Quero a sua residncia vigiada
       vinte e quatro horas por dia. Mora num barco-habitao chamado
       Jlhan, em Zamalek.
       Enquanto o detective escrevia, Vandam pensava que gostaria de
       no ser obrigado a utilizar a Polcia Egpcia para aquele
       trabalho. Mas num pas africano era impossvel recorrer a
       brancos, que se tornavam notados, para misses de vigilncia.
         E qual  a natureza do crime?  perguntou o detective.
       "No te vou dizer a ti", pensou Vandam, enquanto respondia:
         Supomos que  associada de algum que anda a passar libras
       esterlinas falsas.
         Quer portanto saber quem entra e sai ...
         Exactamente. H um homem em particular no qual estamos
       interessados: Alex Wolff, o suspeito do assassnio de Asyut.
       J tem a sua descrio. Se Wolff for visto, quero ser
       imediatamente informa do. Pode comunicar com o capito Jakes
       ou comigo para o QG durante o dia. D-lhe os nossos nmeros de
       telefone, Jakes.
       Vandam ergueu-se. De sbito, fugiu-lhe a vista e perdeu o
       equilbrio. Iakes acorreu imediatamente e agarrou-lhe num
       brao.
         Sente-se bem, meu major?
       Vandam recuperou lentamente a viso.
         J estou bem.
         Recebeu um ferimento grave  observou o detective com
       simpatia. E quando chegaram  porta acrescentou:  Podem ter a
       certeza, meus senhores, de que me encarregarei pessoalmente da
       vigilncia que me pedem. Conheo a rea. o caminho do cais 
       um bom lugar para um mendigo se sentar. Um mendigo passa
       sempre despercebido. No entrar um rato a bordo desse barco
       sem que os senhores saibam.
       Vandam apertou-lhe a mo e apresentou-se:
         A propsito, sou o major Vandam.
       o detective inclinou-se numa ligeira vnia:
         Superintendente Kemel, s suas ordens, meu major.
       
       Captulo 7
       
       SoNJA alimentava uma leve esperana de encontrar Wolff no
       barco-habitao quando regressou quase ao alvorecer, mas
       deparou-se-lhe o barco deserto. Inicialmente, quando fora
       
       presa, sentira apenas clera
       contra Wolff, que a abandonara  merc dos esbirros ingleses.
       Como cmplice de um espio, aterrara-a pensar no que lhe
       poderiam fazer. Mas depois compreendera que Wolff fora
       inteligente. Ao abandon-la, desviara dela as suspeitas.
       Correra tudo pelo melhor. Sentada sozinha na pequena sala
       vazia do QG, Sonja dirigira a sua ira contra os Ingleses.
       Desafiara-os e eles tinham recuado.
       Na ocasio no tivera a certeza de que o homem que a
       interrogava era o major Vandam, mas quando fora solta o
       amanuense deixara escapar o nome. A confirmao encantara-a.
       Sorriu de novo ao evocar a grotesca ligadura na cara do
       ingls. Wolff devia t-lo cortado. Que noite espantosa! Mas
       onde estaria Wolff? Gostaria que estivesse ali para
       compartilhar o seu triunfo.
       Vestiu a camisa de dormir e preparou um whisky. Quando o
       provou, ouviu passos no portal e chamou: "Achmed?" Depois,
       compreendeu que os passos no eram os dele.
       A escotilha foi erguida e um rosto rabe assomou atravs da
       abertura.
         Sonja?
         Sim . . .
         Creio que esperava outra pessoa.
       o homem desceu a escada e Sonja interrogou-se sobre o
       significado daquela visita. o desconhecido era um indivduo de
       baixa estatura, configurao elegante e movimentos rpidos e
       precisos. Vestia  europeia: calas escuras, sapatos pretos e
       camisa branca de mangas curtas.
         Sou o superintendente detective Kemel e tenho muito prazer
       em conhec-la  apresentou-se, de mo estendida.
       Sonja virou-se e sentou-se no diva.
         Que  que quer?
         Estou interessado no seu amigo Alex Wolff.
         No  meu amigo.
       Kemel ignorou o desmentido e prosseguiu:
         os Ingleses disseram-me duas coisas a respeito de Mr. Wolff:
       a primeira, que esfaqueou um soldado em Asyut; a segunda, que
       tentou passar notas inglesas falsas. Porque esteve ele em
       Asyut? onde arranjou o dinheiro falso?
         No sei nada acerca desse homem  insistiu Sonja.
         Mas sei eu  af mou Kemel.  Sei quem  Alex Wolff. o seu
       padrasto foi advogado aqui no Cairo, e a sua mae era alema.
       Tambm sei que Wolff  um nacionalista. Sei que foi seu amante
       e sei que voc  uma nacionalista.
       Sonja estava gelada. Permaneceu imvel, sem tocar na bebida.
       Kemel continuou:
         onde arranjou ele o dinheiro falso? No creio que haja no
       Egipto um impressor capaz de fazer um trabalho desses. Por
       conseguinte, o dinheiro veio da Europa. Wolff, tambm
       conhecido por Achmed Rahmha, desapareceu discretamente h dois
       anos. onde esteve? Na Europa? Voltou  via Asyut. Porqu?
       Queria entrar no pas sem ser notado? Talvez se tenha aliado a
       uma quadrilha de falsrios ... Mas no o creio, pois no se
       trata de um homem pobre. Portanto, h um mistrio.
       "Ele sabe", pensou Sonja. "Meu Deus, ele sabe."
         os Ingleses pediram-me que mandasse vigiar este
       barco-habitao. Esperam que Wolff c venha. E nessa altura
       prendem-no. E tero as respostas.
       
       o barco vigiado! "Porque est Kemel a dizer-mo?"
         Penso que a chave do mistrio reside na natureza de Wolff
       que  simultaneamente alemo e egpcio.  Kemel atravessou a
       sala e sentou-se ao lado de Sonja.   Creio que ele est a
       lutar pela Alemanha e pelo Egipto. . Acho que o dinheiro falso
       veio dos Alemes e que Wolff  espio. Se , posso salv-lo.
       Sonja olhou-o e perguntou:
         Que quer dizer?
         Eu e o capito Anwar el-Sadat, um dos lderes do Movimento
       dos oficiais Livres, queremos conhec-lo em segredo. Voc no
        a unica pessoa a querer que o Egipto seja livre. Somos
       muitos a quer-lo. Queremos ver os Ingleses derrotados e no
       somos escrupulosos em relao a quem os derrote. Queremos
       falar com Rommel. Se Achmed  espio, deve ter uma maneira de
       fazer chegar mensagens aos Alemes.
       No crebro de Sonja as ideias entrechocavam-se confusamente.
       De acusador Kemel passara a co-conspirador  a no ser que tudo
       aquilo se tratasse de uma armadilha.
       Kemel insistiu calmamente:
         Pode conseguir-nos um encontro?
       No lhe era possvel decidir to rapidamente. Respondeu:
         No.
         Lembre-se da vigilncia ao barco. os relatrios da
       vigilncia passaro pelas minhas mos antes de serem enviados
       ao major Vandam. Se voc conseguir arranjar um encontro, eu, por meu
       lado, posso garantir que os relatrios sero censurados de
       modo que no contenham nada ... embaraoso.
       Sonja compreendeu que no tinha alternativa.
         Eu arranJo um encontro.
         ptimo.  o superintendente levantou-se.  Telefone para o
       Comando Central da Polcia e deixe um recado a dizer que
       Sirhan deseja ver-me. Quando receber esse recado, comunico
       consigo para combinarmos a data e as horas.
         Telefono assim que puder  garantiu Sonja.
         obrigado.    Estendeu a mo, que desta vez ela apertou.
       Kemel subiu a escada, saiu e fechou a escotilha.
       Sonja sentia-se cansada. Acabou de beber o whisky que tinha no
       copo e dirigiu-se para o quarto. ouviu uma pancada e virou-se
       bruscamente para a vigia do costado voltado para o rio. Por
       detrs do vidro assomava uma cabea. Sonja gritou e a cabea
       desapareceu.
       Compreendeu que fora Wolff e subiu a correr para a coberta.
       Debruou-se sobre a amurada e viu-o na gua. Parecia estar nu.
       Wolff suliiu:,peh .costado do barco, utilizando as vigias como
       apoios, e Sonja estendeu- a mo, agarrou-lhe o brao e puxou-o
       para bordo. Ele desceu a escada e ela seguiu-o.
       Wolff parou sobre a- carpete, a pingar e a tremer.
         Que aconteceu?  . perguntou ela.
         Poe-me um banho a correr  pediu ele:
       Sonja entrou.na casa de banho e abriu as torneiras. Wolff
       introduziu-se na banheira e deixou a gua cobrir-lhe o corpo.
         No me quis arriscar a vir pelo-caminho do cais, por isso
       despi-me na outra margem e vim a nado  Espreitei e vi aquele
       homem contigo. outro polcia?
         Sim.
         Tive de esperar dentro de gua que ele se fosse embora. Meu
       Deus, estou gelado! o raio da Abwehr deu-me dinheiro falso.
       Fecha a gua, sim?  pediu, enquanto comeava a tirar o lodo do
       
       rio das pernas.
         Isso significa que vais ter de usar o teu prprio
       dinheiro-observou Sonja.
         No posso ur busc-lo. Podes ter a certeza de que o banco
       tem instrues para chamar a Polcia assim que eu aparecer.
       "Nesse caso, vais ter de usar o meu dinheiro", pensou Sonja.
       "Mas no vais pedir; vais limitar-te a utiliz-lo."
         o detective que c esteve vai mandar vigiar o barco, segundo
       instrues de Vandam.
       Wolff sorriu.
         Era ento o Vandam!
         Esfaqueaste-o?
         Esfaqueei, mas estava escuro e no pude ver onde.
         Na cara. Traz uma grande ligadura.
       Wolff riu-se.
         Gostava de o ver! Foi ele quem te interrogou?
         Foi. Disse-lhe que mal te conhecia.
         Linda menina!  olhou-a apreciativamente e ela compreendeu
       que estava satisfeito.   Ele acreditou-te?
         Presumivelmente no, uma vez que ordenou a vigilncia ao
       barco. Mas no te preocupes. o detective  dos nossos.
         Nacionalista?
         Sim. Quer utilizar o teu rdio.
         Como sabe que eu tenho rdio?  perguntou Wolff.
         No sabe. Deduziu que eras espio e presume que um espio
       deve ter meio de comunicao com os Alemes. os nacionalistas
       querem enviar uma mensagem a Rommel.
       Wolff abanou a cabea e respondeu:
         Prefiro no me envolver.
         No tens outra soluo  replicou ela secamente.
         Tambm acho  admitiu, fatigado.  Eles esto a apertar o
       cerco. Gostava de abandonar este barco, mas no sei para onde
       ir. Raios!
       Sonja sentou-se na borda da banheira, fitando-o. Wolff parecia
       ... no ... no, no era derrotado, mas pelo menos
       encurralado. Pela primeira vez dependia dela. Precisava do seu
       dinheiro e da sua casa. Poucas horas antes apenas dependera do
       seu silncio durante o interrogatrio, e agora acabava de ser
       salvo graas ao acordo feito por ela com o detective
       nacionalista. Sonja experimentou uma estranha e inebriante
       sensao de poder. Era como se fosse ela quem detivesse o
       controle da situao.
         Pergunto a mim mesmo se deva comparecer ao encontro com a
       tal rapariga, Elene, logo  noite. Talvez seja mais seguro no
       me arriscar.
         No  contraps Sonja em tom firme.   Quero-a.
       Ele olhou-a atravs dos olhos semicerrados, e Sonja perguntou
       a si mesma se ele teria reconhecido a fora que ela acabara de
       adquirir.
       
       Est bem    acedeu Wolff.    S vou ter de tomar precaues.
       Ele cedera. Sonja pusera  prova a sua fora contra a dele e
       vencera. Sentiu um frmito de excitao.
       
       SENTADo no oasis Restaurant, ao lado de Jakes, a saborear um
       martini fresco, Vandam sentia-se na melhor das disposies.
       Dormira todo o dia e acordara com a sensao de um vencido
       pronto a ripostar. Fora ao hospital, onde a Dr.a Abuthnot lhe
       
       substituira o penso por outro menor que no precisava de ser
       seguro por uma ligadura. E agora, decorridos alguns minutos,
       apanharia Alex Wolff.
       Vandam e Jakes estavam no fundo do restaurante, de onde podiam
       abarcar toda a sala. A mesa mais prxima da entrada estava
       ocupada por dois corpulentos sargentos que comiam frango
       frito. No exterior, num automvel sem qualquer distintivo,
       encontravam-se dois PMs  paisana e com armas ligeiras no
       bolso do casaco. A armadilha estava montada: faltava apenas a
       isca. Elene deveria chegar de um momento para o outro.
       De manha, ao pequeno-almoo, Billy ficara abalado ao ver a
       ligadura. Depois de pedir ao filho que jurasse guardar
       segredo, Vandam contara-lhe a verdade: "Lutei com um espio
       alemo que tinha uma faca. Ele safou-se, mas penso que vou
       apanh-lo esta noite." Atentara contra a segurana ao
       contar-lhe a verdade, mas o rapaz precisava de saber por que
       motivo o pai estava ferido. Billy sentira-se emocionado.
       Vandam consultou o relgio. Sete e meia. De um momento para
       o outro Alex entraria no restaurante. Vandam tinha a certeza
       de que o reconheceria: um europeu alto, forte e desempenado,
       de nariz adunco, cabelo e olhos castanhos. Mas no esboaria
       qualquer movimento enquanto Elene no chegasse e se sentasse
       ao lado de Wolff. Nesse momento, Vandam e Jakes
       aproximar-se-iam. Se Wolff fugisse, os dois sargentos
       bloqueariam a porta e os PMs do exterior dariam apoio.
       Sete e trinta e cinco. A porta do restaurante abriu-se e Elene
       entrou. Estava fascinante, de vestido de seda de cor creme,
       cujas linhas simples realavam a sua figura esbelta e cuja cor
       e textura estabeleciam um contraste harmonioso com a sua pele
       bronzeda.
       Percorreu com os olhos o restaurante,  procura de Wolff, sem
       o encontrar o seu olhar cruzou-se com o de Vandam, mas
       desviou-se sem hesitar. o chefe de mesa indicou-lhe uma mesa
       perto da porta.
       onde estaria Wolff? Vandam acendeu um cigarro e comeou a
       ficar preocupado. E se, aps o susto da noite anterior, Wolff
       tivesse decidido manter-se inactivo por uns tempos? No
       entanto, e sem qualquer justificao concreta, o major sentia
       que permanecer inactivo no era o estilo de Wolff. Pelo menos
       esperava que no fosse.
       Um criado serviu uma bebida a Elene. Eram sete e quarenta e
       cinco. A porta do restaurante abriu-se. Vandam ficou tenso,
       mas logo se descontraiu, decepcionado. Era apenas um rapaz que
       entregou um papel a um criado e voltou a sair.
       Vandam viu o criado dirigir-se  mesa de Elene e entregar-lhe
       o papel. Franziu a testa. Que significava aquilo? Uma desculpa
       de Wolff, alegando uma impossibilidade de comparecer ao
       encontro? Elene olhou para Vandam e encolheu ligeiramente os
       ombros. Pegou na mala que colocara na cadeira ao ladb e
       ergueu-se. Yandam pensou que ela ia ao lavabo das senhoras,
       mas em vez disso viu-a dirigir-se para a porta e abri-la.
       Vandam e Jakes levantaram-se simultaneamente. Enquanto
       atravessavam rapidamente o restaurante em direco  sada,
       Vandam ordenou aos sargentos: "Sigam-me. "
       Quando chegaram  rua, viram Elene meter-se num txi, a poucos
       metros de distncia. Vandam desatou a correr, mas a porta do
       txi bateu e o carro arrancou.
       Do lado oposto da rua o automvel dos PMs arrancou tambm e
       
       colidiu com um autocarro. Vandam alcanou o txi e saltou para
       o estribo. o automvel guinou bruscamente, ele
       desequilibrou-se e caiu. Ergueu-se, sentindo uma dor
       lancinante no rosto: o ferimento sangrava de novo. Jakes e os
       dois sargentos rodearam-no. Do outro lado da rua os PMs
       discutiam com o motorista do autocarro.
       o txi desaparecera.
       
       ELENE estava aterrorizada. Correra tudo mal. Wolff deveria ter
       sido preso, mas estava ali no txi com ela, ostentando um
       sorriso ferino. A jovem permanecia imvel, com o crebro
       vazio.
         Quem era ele?  perguntou Wolff.  Aquele homem que correu
       atrs de ns. No consegui v-lo bem, mas pareceu-me europeu.
       Elene dominou o medo e respondeu:
         No sei.  De sbito, teve uma inspirao:  Tinha estado a
       incomodar-me. Por sua culpa, que veio atrasado.
         Pec o desculpa   murmurou apressadamente.   Mas tive
       uma ideia maravilhosa: vamos fazer um piquenique. Trago um
       cesto com comida no porta-bagagem.
       Elene ficou sem saber se deveria ou no acredit-lo. Porque
       lhe teria ele enviado um rapaz com a mensagem "Saia. A. W.",
       seno porque desconfiava de uma armadilha? E que faria agora?
       Lev-la-ia para o deserto e esfaque-la-ia? Sentiu o desejo
       sbito e imperioso de saltar do automvel, mas obrigou-se a
       pensar calmamente. Se ele suspeitara de uma armadilha, porque
       comparecera? No, a situao era com certeza mais complexa do
       que parecia.
         Aonde vamos?  perguntou.
         A um lugar junto ao rio, a poucos quilmetros da cidade,
       onde podemos ver o pr do Sol.
         No quero ir. Mal o conheo.
         Por favor  pediu, e tocou-lhe ligeiramente no brao. -Tenho
       no cesto salmo fumado, um frango frio e uma garrafa de
       champanhe. Aborreo-me tanto nos restaurantes!
       Elene reflectiu. Podia deix-lo naquele momento e ficaria em
       segurana. "Mas sou a nica esperana de Vandam", pensou.
       Tinha de ficar com Wolff e tentar descobrir onde ele morava.
       Dirigiu-lhe um sorriso forado e aquiesceu:
         Est bem.
       Wolff desviou a sua ateno para o motorista. Encontravam-se
       j fora da cidade, e o espio comeou a dar-lhe instrues.
       Atravessaram uma srie de aldeias, seguiram um atalho sinuoso
       que subia uma colina e emergiram num pequeno planalto, no cimo
       de uma escarpa. o rio corria imediatamente abaixo e, do lado
       oposto, Elene viu a manta de retalhos nitidamente delineada
       dos campos cultivados que
       se estendiam at  orla do deserto.
         No  um lugar maravilhoso?  perguntou Wolff.
       Elene teve de concordar com ele. Um bando de andorinhes que
       levantou voo da margem oposta atraiu-lhe o olhar. Notou ento
       que as nuvens vespertinas j se orlavam de cor-de-rosa. Um
       falucho solitrio navegava rio acima, impelido por uma ligeira
       brisa.
       o motorista saiu do automvel e afastou-se uns cinquenta
       metros. Sentou-se de costas para eles e abriu um jornal. Wolff
       foi buscar o cesto do piquenique ao porta-bagagem e colocou-o
       entre ambos.
       
         Como descobriu este lugar?  perguntou-lhe Elene.
         A minha mae vinha para aqui comigo quando eu era pequeno.
         Estendeu lhe uma taa de champanhe.  Depois de o meu pai
       morrer  a minha mae casou com um e pcio. De vez em quando,
       quando achava o ambiente muulmano opressivo, vnhamos para
       aqui.
         Voc gostava?
         Naquela idade preferia a minha famlia rabe. os meus
       meios-irmos eram maus e ningum tentava corrigi-los.
       Costumvamos roubar laranjas e furar camaras-de-ar de
       bicicletas. S a minha mae se preocupava e estava sempre a
       dizer: "Ainda um dia te apanham, Alex ! "
       Mentalmente, Elene deu razo  mae.
         onde mora agora?  perguntou.
         A minha casa foi ... requisitada pelos Ingleses. Moro com
       amigos.
       Estendeu-lhe uma fatia de salmo fumado num prato de porcelana
       e depois cortou um limo ao meio. Elene perguntou a si mesma
       que quereria ele dela para se esforar tanto por lhe agradar.
       
       DoAM a cara e o orgulho a Vandam. A grande priso fora um
       fracasso. Falhara profissionalmente  Alex Wolff sobrepujara-o
       em esperteza, e por sua culpa Elene corria perigo.
       Estava em casa, com a cara pensada de novo, a beber gin para
       aliviar a dor. Tinham o nmero de matrcula do txi, e todos
       os polcias e PMs da cidade haviam recebido ordens para o
       deterem e prenderem os ocupantes. Haviam de encontr-lo, mais
       cedo ou mais tarde, mas Vandam tinha a certeza de que seria
       demasiado tarde. No entanto, permanecia sentado junto do
       telefone.
       Que faria Elene naquele momento? Talvez se encontrasse num
       restaurante iluminado a velas, bebendo vinho e rindo dos
       gracejos de Wolff. Que fariam depois? Se fossem para casa
       dele, Elene comunicaria com ele na manha seguinte e Vandam
       poderia prender Wolff com o seu rdio e o seu livro-cdigo.
       Profissionalmente, esta situao seria prefervel, mas por
       outro lado significaria que Elene teria passado uma noite com
       Wolff, ideia que o enfurecia mais do que deveria. Se, como
       alternativa, se dirigissem para casa dela, onde Jakes
       aguardava com dez homens, Wolff seria apanhado antes de ter
       oportunidade de ...
       Vandam levantou-se e comeou a percorrer o aposento a passs
       largos. J uma vez colocara outra jovem em perigo. Aps o seu
       outro grande fracasso, quando Rashid Ali, o nacionalista
       iraquiano, fugira da Turquia nas suas prprias barbas, Vandam
       encarregara uma mulher de localizar o agente alemo que
       ajudara Ali a fu ir, na esperana de atenuar o fracasso
       apurando a verdade sobre o indivduo. No dia seguinte, porm,
       a mulher fora encontrada morta numa cama de hotel. Era um
       paralelo arrepiante.
       Seria intil tentar dormir. Reunir-se-ia a Jakes em casa de
       Elene, no obstante as ordens da Dr.a Abuthnot. Vestiu um
       casaco e retirou a motocicleta da garagem.
       
       ELENE e Wolff permaneciam de p junto ao rebordo do alcantil,
       contemplando as luzes distantes do Cairo. Elene considerava
       chegado o momento de Wolff tentar a sorte. Tinham terminado a
       refeio, esva7iado a garrafa de champanhe e comido as uvas
       
       todas. Agora ele devia esperar a recompensa. Sem uma palavra,
       Elene virou costas  paisa em e regressou ao automvel. Ele
       permaneceu mais um m( rnento junto da escarpa e depois
       reuniu-se a Elene, chamou o mo!orista e entrou no carro.
         Gostou do piquenique?  perguntou, quando se sentou ao lado
       dela.
         Gostei, foi delicioso  respondeu, fazendo um esforo para se
       mostrar animada.
       o automvel arrancou. Quer a convidasse para ir a casa dele,
       qucr a levasse a casa dela e pedisse para subir, a fim de
       tomarem uma bebida, teria de encontrar maneira de recusar.
       Chegaram aos subrbios da cidade. Passava da meia-noite e as
       ruas estavam silenciosas.
         onde mora?  perguntou Wolff.
       Ela disse-lhe. Seria ento em sua casa.
       A alguns quilmetros de sua casa, porm, Wolff mandou o
       motorista parar e virou-se para ela:
         obrigado por esta noite encantadora. Volto a v-la em breve.
       E saiu do txi.
       Ela ficou estupefacta, enquanto ele se inclinava junto da
       janela do motorista, lhe dava algum dinheiro e lhe indicava a
       morada de Elene. o motorista acenou afirmativamente e
       arrancou. Elene olhou para trs e viu Wolff caminhar na
       direco do rio.
       "Que te parece isto? Nenhum atrevimento, nenhum convite para
       ir a casa dele, nem sequer um beijo de despedida ...", pensou.
       Que jogo seria o dele? Fosse qual fosse, sentia-se grata por
       ele a ter deixado.
       o txi deteve-se defronte de casa dela. De sbito, ouviram.-se
       os motores de trs automveis e surgiram homens das sombras.
       As quatro portas do txi foram violentamente abertas e quatro
       armas apontadas para o interior. Elene gritou.
       Depois, assomou uma cabea, e ela reconheceu Vandam.
         Foi-se embora?  perguntou o major.  H quanto tempo o
       deixou?
         H cinco ou dez minutos. Posso sair do carro?
       Vandam estendeu-lhe a mo e ela apeou-se do txi.
         Desculpe termo-la assustado  disse ele. Tinha a expresso de
       um homem derrotado.
       Elene sentiu um mpeto de afecto por ele e tocou-lhe no brao.
         Porque no manda os seus homens embora e no sobe e
       conversamos em minha casa?
       Aps uma ligeira hesitao, Vandam voltou-se para um dos
       homens e disse-lhe:
         Jakes, veja o que pode arrancar ao motorista. Vemo-nos
       depois no QG.
       Elene entrou em casa, precedendo-o. Experimentou uma sensao
       agradvel por entrar na sua prpria casa e deixar-se cair no
       sof. A provao terminara. Wolff partira e Vandam estava ali
       com ela.
         Que  que correu mal?  perguntou ela.
       Vandam sentou-se  sua frente e explicou:
         Espervamos que no tomasse precaues e casse na armadilha
       ... mas ele desconfiou, ou, pelo menos, foi cauteloso, e
       perdemo-lo. Que  que aconteceu?
       Elene relatou-lhe o piquenique. Falava em frases curtas e
       secas: queria esquecer e no recordar. Quando acabou, disse:
         Prepare-me uma bebida e outra para si.
       
       Vandam dirigiu-se ao bar e Elene sentiu a sua fria. Reparou
       pela primeira vez no penso que ele tinha na face.
         Que aconteceu  sua cara?
         Quase apanhmos Wolff a noite passada.
         oh, no!
       o que significava que falhara duas vezes em vinte e quatro
       horas. No admirava que parecesse derrotado. Desejou
       consol-lo, envolv-lo nos braos, deitar a cabea dele no seu
       colo e afagar-lhe o cabelo.
       Vandam estendeu-lhe a bebida que preparara. Quando ele se
       inclinou, Elene estendeu a mo e, apoiando as pontas dos dedos
       no queixo dele, virou-lhe o rosto de frente de modo a ver-lhe
       a face ferida. Ele consentiu que ela lhe examinasse o
       ferimento durante apenas um segundo, mas depois desviou a
       cabea.
       
       Elene nunca at ento o vira to tenso. Ele atravessou a sala
       e sentou-se de novo em frente dela, na borda da cadeira, numa
       postura erecta. Via-se que continha uma emoo, algo
       semelhante a raiva, mas quando Elene o fitou nos olhos viu
       dor, e no clera.
         Que lhe pareceu Wolff?  perguntou Vandam.
         Encantador. Inteligente. Perigoso. Que pretende voc saber?
         Nada   respondeu, sacudindo a cabea com irritao. Tudo.
       Mas que tinha ele? Havia um no-sei-qu de familiar na sua
       clera. No era apenas o sentir que falhara, era tambm a sua
       atitude para com ela.
         Wolff disse que voltava a v-la?
         Disse "Temos de fazer isto outra vez", ou qualquer colsa
       desse genero.
         Em sua opinio que tinha ele ao certo em mente?
         outro encontro  respondeu Elene, encolhendo os ombros.
       Mas que tem voc, William?
         Sinto-me curioso, mais nada  respondeu com um sorriso
       lorado.  Gostava de saber o que fizeram os dois alm de comer
       e beber. Todo esse tempo juntos, s escuras, um homem e uma
       mulher . . .
         Cale-se  pediu Elene, e fechou os olhos. Agora compreendia.
         Vou-me deitar  disse, sem abrir os olhos.  Voc no precisa
       que o acompanhe para sair.
       Poucos segundos depois, a porta bateu.
       Elene aproximou-se da janela e olhou para a rua. Viu-o sair do
       prdio, montar na motocicleta, ligar o motor e descer
       velozmente a .estrada No obstante o cansao, Elene no se
       sentia infeliz, pois conhecia a causa da irritao de Vandam,
       e esse conhecimento
       infundia-lhe esperana. Esboou um breve sorriso e murmurou:
       "William Vandam, creio que ests com cimes."
       
       Captulo 8
       
       QUANDo o major Smith fez a sua terceira visita da hora do
       almoo ao barco-habitao  Wolff e Sonja j tinham
       estabelecido uma rotina. Wolff ocultava-se no armrio quando
       via o major aproximar-se e  Sonja aguardava-o na sala com uma
       bebida. Fazia-o sentar-se para se assegurar de que ele pousava
       a pasta, e decorridos um ou dois minutos comeava a beij-lo e
       obrigava-o a despir a camisa. Pouco
       
       depois, levava-o para o quarto. Assim que ouvia a cama ranger,
       Wolff saa do armrio, retirava a chave da algibeira da camisa
       do major e com o lpis e o livro de apontamentos preparados,
       abria a pasta.
       A segunda visita de Smith fora decepcionante; mas desta vez
       Wolff acertou de novo em cheio. Descobriu que o general Sir
       Claude Auchinleck, comandante-chefe do Mdio oriente, assumira
       o controle directo do 8.o Exrcito Britanico. S esse facto,
       significativo do panico dos Aliados, constituiria uma boa
       notcia para Rommel. E tambm poderia vir a facilitar a misso
       de Wolff, pois implicava que os planos de combate passariam a
       ser gizados no Cairo, e no no deserto, pelo que era mais
       provvel que Smith obtivesse cpias deles.
       o papel mais importante da pasta de Smith era um resumo da
       nova linha defensiva dos Aliados em Mersa Matruh. A nova linha
       comeava na aldeia costeira de Matruh e estendia-se para sul,
       penetrando no deserto at uma escarpa conhecida pelo nome de
       Sidi Hamza. o lO.o Destacamento encontrava-se em Matruh.
       seguia-se um campo de minas com vinte e quatro quilmetros de
       extenso, outro campo de minas mais esparsas prolongando-se
       por dezasseis quilmetros, a escarpa e, a sul desta, o 13.o
       Destacamento.
       o quadro era relativamente claro: a linha aliada oferecia uma
       defesa forte nas duas extremidades e pouca resistncia no
       meio. Munido dessa informao, Rommel poderia atacar o centro
       e lanar as suas foras pela brecha, como uma torrente a
       romper um dique. Wolff sorriu para consigo. Sentia que estava
       a representar um papel importante na luta pelo domnio alemo
       do Norte de Africa, e considerava tal situao extremamente
       gratificante.
       Saltou uma rolha no quarto, sinal de que tudo terminara. Wolff
       reps os papis na pasta, fechou-a e introduziu de novo a
       chave no bolso da camisa. Seguidamente, j no se escondia no
       armrio-bastara uma vez. Subia silenciosamente a escada em
       bicos de ps, atravessava a coberta, descia a escada do
       portal e ia almoar.
       
       Ao fim da tarde do dia seguinte ao piquenique Elene foi fazer
       compras. o apartamento comeara a parecer-lhe claustrofbico.
       Passara a maior parte do dia percorrendo-o a passos largos,
       incapaz de se concentrar no que quer que fosse, alternadamente
       triste e feliz. Consequentemente, envergou um alegre vestido
       s riscas e saiu.
       Gostava do mercado das frutas e das hortalias. Era um lugar
       cheio de vida, principalmente ao fim do dia, quando os
       vendedores tentavam livrar-se dos seus ltimos produtos. Comprou tomates
       e ovos, pois decidira fazer uma omeleta para o jantar.
       Infundia-lhe segurana transportar um cesto de alimentos  mais
       do que conseguiria consumir numa refeio. Lembrava-se das
       vezes em que no houvera jantar, de quando, aos dez anos,
       perguntava a si mesma, em segredo, quanto tempo seria
       necessrio para se morrer de fome.
       Saiu do mercado e foi ver montras e vestidos. Um dia, desejava
       ter a sua prpria modista. Poderia William Vandam proporcionar
       esse luxo a uma mulher?
       Quando pensava em Vandam, sentia-se feliz  at pensar em
       Wolff. Sabia que s poderia escapar se recusasse outro
       encontro com este. No tinha qualquer obrigao de servir de
       
       isca de armadilha para apanhar um assassino esfaqueador. Essa
       ideia obcecava-a, irritante como um dente a abanar: "No sou
       obrigada a fazer isso."
       Subitamente, perdeu o interesse pelos vestidos e dirigiu-se
       para casa. Quando entrou no trio do prdio, ouviu uma voz
       cham-la: "Abigail. " Ficou petrificada de surpresa. Era a voz
       de um fantasma. Virou-se com esforo e viu um vulto emergir da
       sombras: um velho judeu andrajosamente vestido, de barbas
       emaranhadas e ps sulcados de veias calando sandlias de
       tiras de pneus.
         Pai!
       Ele parou defronte dela, olhando-a apenas, como se receoso de
       lhe tocar.
         Continuas bonita, e no s pobre  disse.
       Impulsivamente, Elene aproximou-se dele e beijou-o na face.
       Depois, deu-lhe o brao e conduziu-o pela escada acima. Toda a
       situao lhe parecia irreal, como um sonho.
       J no apartamento, disse:
         Precisa de comer.
       Levou-o para a cozinha, ps uma frigideira ao lume e comeou a
       bater os ovos.
         Como me encontrou?  perguntou ao pai.
         Soube sempre onde estavas. A tua amiga Esme escreve pai, a
       quem vejo de vez em quando.
         No queria que me pedisse para voltar.
         Que te poderia eu dizer? Volta para casa,  teu dever passar
       fome com a tua famlia? No. Mas sabia onde estavas.
       Elene partiu tomates s rodelas para a omeleta.
         o pai diria que era melhor passar fome do que viver
       imoralmente  observou.
         Sim, diria isso. E estaria enganado7
       Elene virou-se e olhou-o. o glaucoma que lhe roubara a vista
       do olho esquerdo havia anos estava a alastrar para o olho
       direito. Calculou que o pai deveria orar os cinquenta e cinco
       anos. Mas aparentava setenta.
         Sim, estaria enganado.  sempre melhor viver.
         Talvez. J no tenho as certezas que tinha sobre esse
       assunto.
       Elene serviu a omeleta e colocou po na mesa. o pai abenoou o
       po: "Bendito sejais, Senhor nosso Deus ..." Surpreendida,
       Elene constatou que a prece no a irritava. Nos momentos mais
       negros da sua solido amaldioara o pai e a sua religio por
       aquilo a que a haviam condenado.
       o pai, esfomeado, devorou a refeio. Elene perguntava a si
       mesma por que razo teria ele vindo. Perguntou pelas irmas.
       Depois da morte da mae, as quatro, cada uma  sua maneira,
       tinham rompido com o pai. Duas tinham ido para a Amrica, uma
       casara com o filho do maior inimigo do pai e a mais nova
       morrera. Elene comec ou a perceber que o pai estava destrudo.
       Ele perguntou-lhe o que fazia e ela resolveu dizer-lhe a
       verdade:
         os Ingleses esto a tentar apanhar um espio alemo e
       incumbiran..-me de travar amizade com ele. Mas acho que no os
       posso ajudar mais.
         Tens medo?  perguntou o pai, parando de comer.
         Ele  muito perigoso  respondeu, acenando afirmativamente
       com a cabea.
       Terminaram a refeio e Elene levantou-se para lhe fazer uma
       
       chvena de ch.
         os Alemes vm a  disse o pai.  Vai ser terrvel para os
       Judeus. Vou para Jerusalm.
         Como? os comboios esto cheios, h uma quota para a en r".la
       de Judeus ...
       Vou a p.  Sorriu e acrescentou:  J o fizeram antes de
       
       Se bem me lembro, Moiss no conseguiu l chegar retrucou
       Elene, irritada.   o.pai  doido!
         No fui sempre um pouco doido?
         Foi!  respondeu, e de sbito a irritao dissipou-se.  Foi e
       eu devia saber que no ganho nada em tentar faz-lo mudar de
       delas.
         Hei-de pedir a Deus que te poupe. Hs-de ter uma chance
       aqui. s nova e bonita, e talvez eles no saibam que s judia.
       Mas eu, um velho intil ... a mim enviavam-me para um campo
       para morrer.  sempre melhor viver. Tu prpria o disseste.
       Elene tentou em vo persuadi-lo a ficar com ela, ao menos uma
       noite. Por fim, deu-lhe uma camisola e um cachecol e todo o
       dinheiro que tinha em casa. Chorou, limpou os olhos e chorou
       de novo. Quando ele saiu, viu-o atravs da janela caminhar ao
       longo da rua: um velho que ia sair do Egipto e embrenhar-se no
       deserto, seguindo os passos dos filhos de Israel. Ao pensar na
       sua coragem, compreendeu que no podia abandonar Vandam.
       
          uma rapariga intrigante  disse Wolff.   No consigo
       perceb-la bem.   Estava sentado na cama, enquanto Sonja se
       vestia.  Acho-a um pouco nervosa. Quando lhe disse que amos
       fazer um piquenique, pareceu bastante assustada. No entanto, 
       capaz de ser muito franca e frontal.
         Tr-la c e vais ver como a entendo logo.
         Preocupa-me  confessou Wolff de testa franzida, expressando
       em voz alta os seus pensamentos.  Algum tentou saltar para o
       txi connosco.
         Esta cidade est cheia de doidos, como sabes  observou
       Sonja, que escovava o cabelo.  Quando posso dizer ao Kemel que
       te encontras com ele? J deve saber que ests a viver aqui.
       Wolff suspirou. outra exigncia, outro perigo.
         Telefona-lhe esta noite do clube. No tenho pressa nenhuma
       de me encontrar com ele, mas precisamos de o manter dcil.
         Est bem.  Sonja estava pronta e o txi esperava-a.  E marca
       um encontro com Elene  recomendou antes de sair.
       Wolff compreendeu que Sonja j no estava em seu poder como
       noutros tempos. As paredes que uma pessoa constri para se
       proteger tambm a emparedam. E Sonja era capaz de ser
       suficientemente louca para o atraioar, se se irritasse de
       facto. Ergueu-se da cama, foi buscar papel e caneta e
       sentou-se para escrever a Elene.
       
       o recado chegou poucos dias depois de o pai de Elene ter
       partido para Jerusalm. Um rapazinho bateu  porta com um
       sobrescrito. Ela gratificou-o e abriu o envelope. < Minha
       querida Elene, gostava que se encontrasse comigo no oasis
       Restaurant s oito horas de quinta-feira. Estou ansioso por
       v-la. Afectuosamente, Alex Wolff." ouinta-feira ... dali a
       dois dias. Ficou sem saber se deveria sentir-se
       eufrica ou assustada. o seu primeiro pensamento foi telefonar
       a Vandam, mas depois hesitou.
       
       Sentia uma curiosidade crescente a respeito de Vandam, sobre o
       qual sabia muito pouco. Que fazia ele quando no perseguia
       espies? Como era a sua casa? Com quem vivia? Queria fazer as
       pazes com o major e agora tinha um pretexto para contactar com
       ele ... mas em vez de telefonar iria pessoalmente a sua casa.
       Resolveu levar o vestido cor-de-rosa-plido, com mangas
       tufa.das, que apertava com botes  frente. Ps um pouco de
       perfume e sentou-se ao espelho para pentear o cabelo curto. As
       belas madeixas escuras brilhavam. "Estou lindamente", pensou.
       Saiu do apartamento e dirigiu-se para casa do major, em Garden
       City. Sentia-se alegre e ousada. Que feliz ideia a de ir a
       casa dele! Muito preferivel a ficar sozinha no apartamento.
       Encontrou a casa sem dificuldade. Era uma pequena moradia
       estilo colonial francs, cheia de colunas e janelas altas,
       cujas pedras brancas reflectiam, com uma intensidade dolorosa,
       o sol da tarde. Subiu o pequeno carreiro e tocou  campainha.
       Atendeu-a um egpcio idoso e calvo.
         Boas tardes, minha senhora  saudou-a como um mordomo ingls.
         Queria falar com o major Vandam. Chamo-me Elene Fontana.
         o Sr. Major ainda no regressou, minha senhora.
         Talvez eu possa esperar?...
         Com certeza, minha senhora  aquiesceu, e conduziu-a  sala.
         Chamo-me Gaafar. Queira chamar se precisar de alguma coisa.
       Elene sentiu-se encantada por ficar sozinha e poder olhar 
       sua volta. A diviso, com um enorme fogo de sala com uma
       prateleira de mrmore e mobilirio muito ingls, estava limpa
       e arrumada e parecia pouco vivida.
       A porta abriu-se e entrou um rapaz. Era bonito, com cabelo
       castanho encaracolado e pele aveludada. Devia ter uns dez anos
       e o seu rosto pareceu-lhe familiar.
         ol  cumprimentou-a.   Sou Billy Vandam.
       Elene fitou-o horrorizada. Um filho, Vandam tinha um filho!
       Compreendia agora por que motivo o rosto da crianc,a lhe
       parecera familiar: era uma miniatura do do pai. Por que razo
       nunca lhe teria ocorrido que Vandam podia ser casado? Era
       pouco provvel um homem como ele  encantador, atraente,
       inteligente  chegar quase aos quarenta anos sem ser casado.
       Apertou a mo de Billy:
         ol! Sou Elene Fontana.
         Nunca sabemos a que horas o pai chega a casa  informou
       Billy.  Espero que no tenha de esperar muito tempo. Quer uma
       bebida?
       Tal como o pai, era de uma extrema cortesia e de um formalismo
       at certo ponto cativante.
         No, obrigada  respondeu Elene.
         Bem, tenho de ir jantar. Desculpe deix-la sozinha.
       o rapaz saiu e Elene sentou-se pesadamente. Sentia-se
       desorientada, como se tivesse encontrado na sua prpria casa a
       porta de um quarto cuja existncia ignorara. Reparou numa
       fotografia pousada sobre a prateleira de mrmore do fogo de
       sala e levantou-se para a observar. Representava uma mulher
       bonita, de vinte e poucos anos, serena, de ar aristocrtico e
       sorriso levemente arrogante. os olhos, claros, lmpidos e
       inteligentes, eram iguais aos de Billy. Tratava-se, portanto,
       da mae de Billy, da mulher de Vandam: uma beldade clssica
       inglesa com ar superior.
       Elene deu uma volta pela sala perguntando a si mesma se lhe
       estariam reservadas mais surpresas. Junto de uma parede estava
       
       um pequeno piano vertical. Talvez Mrs. Vandam tocasse ao
       sero, enchendo o ar de Chopin, enquanto o marido se sentava
       na poltrona a observ-la ternamente. Elene pegou num romance
       que estava sobre o piano e leu a primeira frase: "A noite
       passada sonhei que regressava a Manderley." A frase
       intrigou-a. Continuou a ler, enquanto pergunta a a si mesma se
       o livro pertenceria  mulher de Vandam.
       Pouco depois, Billy regressou. Elene colocou de novo o livro
       sobre o piano, com a sensao de ter sido intrometida.
         Esse no presta  disse Billy.    a respeito de uma rapariga
       idiota que tem medo da governanta do marido.  muito parado.
       No tem aco.
       Elene sentou-se e Billy tambm, ficando evidente que ia
       servir-lhe de anfitrio.
         Ento j o leste?
         Rebeca? I, mas no gostei. Gosto mais de romances
       policiais. Li os da Agatha Christie todos. Mas dos que gosto
       mais  dos americanos: S. S. Van Dine e Raymond Chandler.
         A srio? Eu passo a vida a ler romances policiais.
         oh! Quem  o seu autor preferido?
       Elene pensou antes de responder:
       
         Georges Simenon. Escreve em francs, mas alguns dos seus
       livros foram traduzidos para ingls.
         Empresta-me um?  to difcil arranjar livros novos -todos
       os que h nesta casa e na biblioteca da escola.
         Est bem, eu empresto-te a ti e tu emprestas-me a mlm. ( ue
       tens para me emprestar?
         Empresto-lhe um de Chandler. os americanos so muito mais
       realistas. J me fartei daquelas histrias de casas de campo
       inglesas e pessoas que provavelmente no seriam capazes de
       matar uma mosca.
       Era estranho, pensou Elene, que um rapaz para quem a casa de
       campo inglesa devia fazer parte da vida quotidiana
       considerasse os romances policiais americanos mais realistas.
       Hesitou, antes de perguntar:
         A tua mae l romances policiais?
         A minha mae morreu o ano passado, em Creta  respondeu Billy
       em tom brusco.
         oh!  Elene levou a mo  boca. Afinal Vandam no era
       casado!  Que terrivel deve ter sido para ti, Billy! Tenho
       muita pena.
         obrigado.  a guerra, sabe?
       Parecia outra vez o pai. A mscara estava afivelada: a mscara
       da cortesia, do formalismo. " a guerra, sabe?" ouvira a frase
       na boca de outra pessoa e adoptara-a em sua defesa prpria.
       Elene resolveu abordar outros assuntos.
         Suponho que, em virtude de o teu pai trabalhar no QG, ests
       mais bem informado acerca da guerra que o resto das
       pessoas-observou, embaraada.
         Creio que estou, mas geralmente no a compreendo bem. Quando
       ele chega a casa de mau humor, sei que perdemos outra
       .batalha.   Comeou a roer uma unha e em seguida introduziu as
       mos nas algibeiras dos cales.  Quem me dera ser mais velho!
       ;   Queres combater?
       olhou-a furiosamente, como se pensasse que ela estava a troar
       dele.
         Tenho  medo que os Alemes ganhem. Nesse caso teria sido 
       
       udo para nada.
       Roeu de novo a unha, desta vez sem se interromper. Elene
        guntou a si mesma o que teria sido para nada. A morte da mae?
       A luta para ser corajoso?
       Billy consultou o relgio da prateleira do fogo de sala.
         Deito-me s nove horas.  E ergueu-se. De sbito, era outra
       vez uma criana.
         Posso ir dar-te as boas-noites daqui a bocadinho?  perguntou
       Elene.
         Se quiser  respondeu, e saiu.
       Que espcie de vida levavam naquela casa?, perguntou Elene a
       si mesma. o homem, o rapaz e o criado velho a viverem ali
       juntos, cada um com as suas preocupaes.
       A sensatez de Billy  um misto de sensatez juvenil e
       amadurecida  era encantadora, mas a criana no parecia
       divertir-se muito Sentiu um impulso de compaixo por aquele
       garoto rfo de mae a viver num pas estranho cercado por
       exrcitos inimigos.
       Saiu da sala e subiu a escada. A porta de um dos quartos
       estava aberta e ela entrou,  espera de encontrar modelos de
       avies, equipamento desportivo e roupa no cho. Mas o aposento
       quase parecia o quarto de um adulto. As roupas estavam
       cuidadosamente dobradas numa cadeira, os livros escolares
       ordenadamente empilhados na secretria e o nico brinquedo 
       vista era um modelo de tanque de carto. Billy estava na cama,
       com o casaco do pijama s riscas abotoado at ao pescoo e um
       livro a seu lado, pousado no cobertor.
         Que ests a ler?  perguntou-lhe Elene.
         o Mistrio do Atade Grego.
       Ela sentou-se na beira da cama e recomendou:
         No fiques acordado at muito tarde.
         Tenho de apagar a luz s nove e meia.
       Elene inclinou-se impulsivamente e beijou-lhe a face.
       Nesse momento a porta abriu-se e Vandam entrou.
       A familiaridade da cena emocionou-o: o rapaz na cama com o
       livro e a mulher inclinada para ele, dando-lhe um beijo de
       boas-noites. Vandam permaneceu imvel, contemplando a cena,
       como uma pessoa que sabe perfeitamente que est a sonhar, mas
       no
       capaz de acordar.
         Boa noite, Billy.
       Elene ergueu-se.
         ol, William.
         ol, Elene.
       A rapariga passou por Vandam e saiu do quarto. Vandam entrou e
       sentou-se por sua vez na cama.
         Estiveste a fazer companhia  nossa visitante?
       
         Estive. Gosto dela. L romances policiais. Vamos emprestar
       livros um ao outro.  muito bonita, no ?
         . Trabalha para mim.  segredo, por isso
       Billy baixou a voz e perguntou:
         E agente secreta?
       Vandam levou um dedo aos lbios e respondeu:
         As paredes tm ouvidos.
       o rapaz pareceu desconfiado e redarguiu:
         Est a gozar comigo.
       Vandam abanou a cabea silenciosamente.
       
         Ena!   exclamou Billy.
       Vandam deu-lhe as boas-noites e saiu do quarto. Ao fechar a
       porta, pensou como o beijo de boas-noites de Elene
       provavelmente fora compensador para o filho.
       Encontrou Elene na sala a preparar martinis. Pensou que
       deveria ressentir-se mais do que aparentava com o modo como
       ela parecia  vontade em sua casa, mas estava demasiado
       fatigado para assumir falsas atitudes. Sentou-se, grato, numa
       cadeira e aceitou um martini.
         Que a trouxe c?  perguntou.
         Tenho um encontro marcado com Wolff.
         ptimo. Quando?
         Quinta-feira  respondeu, e estendeu-lhe a carta.
       Ele leu-a com ateno.
         Como lhe foi parar s mos?
       .   Um rapaz levou-ma a casa. Que fazemos?
         A mesma coisa da ltima vez, mas melhor.
       Vandam tentava parecer mais confiante do que se sentia. Wolff
       era imprevisvel e muito capaz de gizar outro estratagema.
       Como se lhe lesse o pensamento, Elene declarou:
         No quero passar outra noite com ele. Assusta-me. Se tentar
       seduzir-me, receio que no aceite um < no" em resposta.
       Vandam sentiu-se culpado  "Lembra-te de Istambul"  , mas 
       reprimiu esse sentimento.
         Aprendemos a lio  declarou com falsa segurana. Desta vez
       no haver erros.
       Intimamente, estava surpreendido com a determinao simples ae
       Elene de no ir para a cama com Wolff. Presumira que atitudes
       dessas no eram significativas para ela. Afinal, julgara-a
       mal. Sem saber porqu, encar-la sob aquela nova perspectiva
       dava-lhe alegria.
       Gaafar entrou na sala e anunciou:
         o jantar est servido, Sr. Major.
       Vandam sorriu. o criado estava a representar mordomo ingls.
         Que  o jantar, Gaafar?
         Para o Sr. Major, caldo, ovos mexidos e iogurte. Mas tomei a
       liberdade de grelhar uma costeleta para Miss Fontana.
         Come sempre assim?  perguntou Elene a Vandam.
         No,  por causa da ferida: no posso mastigar.
       Entraram na sala de jantar e sentaram-se. Gaafar serviu o
       jantar.
         o seu filho parece mais velho do que   observou a jovem.
         Passou por algumas coisas que deviam ser reservadas a
       adultos.
         Sim, compreendo.  Hesitou, antes de perguntar:  Quando
       morreu a sua mulher?
         Em 28 de Maio de 1941,  noite.
         Billy disse-me que foi em Creta.
         Foi. Ela trabalhava em criptoanlise para as foras areas.
       ocupava um posto temporrio em Creta quando os Alemes
       invadiram a ilha. os Ingleses perderam e decidiram partir.
       Segundo parece, ela foi atingida por uma granada perdida e
       teve morte instantanea. Claro que, na altura, o que
       pretendamos era evacuar os vivos, e no os cadveres, por
       isso ... No h sepultura, compreende? No resta nada.
         Ainda a ama?  perguntou Elene serenamente.
         Creio que a amarei sempre. Acontece assim com as pessoas que
       realmente amamos. Se elas partem ou morrem, no faz diferena.
       
         Eram muito felizes?
         Ns ...  Hesitou, a recordar a filha do diplomata, a jovem
       graciosa e autoritria que casara com o ignorado oficial do
       Exrcito.   No foi um casamento idlico. Era eu que estava
       apaixonado. Angela estimava-me.
         Acha que volta a casar?
       Vandam encolheu os ombros. No sabia a resposta. Elene pareceu
       compreender, pois calou-se e comeou a comer a sobremesa.
       Depois, Gaafar serviu-lhes caf na sala. Vandam mandou o
       criado deitar-se e fumou um cigarro enquanto bebiam o caf.
       Apeteceu-lhe ouvir msica. Houvera um tempo em que adorara
       msica, embora posteriormente a tivesse banido da sua vida.
       Naquele momento, aspirando o suave ar nocturno que penetrava
       pelas
       
       janelas abertas, apeteceu-lhe ouvir as notas claras e
       vibrantes de uma harmonia. Sentou-se ao piano e comeou a
       tocar Fr E;lise, de Beethoven. Recuperou imediatamente a
       percia, quase como se nunca tivesse deixado de praticar. As
       suas mos sabiam como mover-se de um modo que sempre
       considerara miraculoso.
       Quando terminou, aproximou-se de Elene, sentou-se a seu lado e
       beijou-a na face, que estava hmida de lgrimas.
         William, amo-o de todo o meu corao  disse ela.
       
       Captulo 9
       
       RoMMEL aspirava o cheiro a maresia. Em Tobruk, o calor, a
       poeira e as moscas eram to incomodativos como no deserto, mas
       bastava aquele ocasional sopro de humidade transportado pela
       brisa para a situao se tornar suportvel.
       Von Mellenthin entrou no veculo do comando com o seu
       relatrio do Servio de Informaes.
          Boas tardes, meu Marechal de Campo.
       Rommel sorriu. Fora promovido depois da Batalha de Tobruk e
       ainda no se habituara ao novo ttulo.
         Alguma novidade?  perguntou.
         Uma emisso do agente do Cairo. Diz que a linha de Mersa
       Matruh   fraca no meio.
       Rommel pegou no relatrio e relanceou-o.
         Se esta informao  correcta, podemos romper a linha assim
       que l chegarmos.
         Claro que vou fazer o possvel por confirmar o relatrio do
       espio  afirmou Von Mellenthin.  Mas da ltima vez ele tinha
       razo.
       A porta do veculo abriu-se de rompante e Kesselring entrou.
         Marechal de campo!  exclamou Rommel.  Julgava que estava na
       Siclia.
         Estive    respondeu Kesselring, batendo com os ps para
       sacudir a poeira das botas.  Vim de avio para lhe falar. Com
       os diabos, Rommel, isto tem de acabar! As suas ordens eram
       para  avanar at Tobruk e no mais.
       Rommel recostou-se na sua cadeira de lona. Esperara manter
       Kesselring fora daquela questo.
         As circunstncias alteraram-se  alegou.
         Mas as suas ordens primitivas foram confirmadas pelo Supremo Comando Italiano. o seu apoio areo e martimo 
       necessriopara o ataque a Malta. Depois de tomarmos Malta,
       
       ter comunicaes asseguradas para avanar sobre o Egipto.
         Vocs no aprenderam nada!  exclamou Rommel.  Enquanto ns
       nos reforamos, o inimigo tambm se refora. No cheguei at
       aqui merc do velho jogo de avanar, consolidar, avanar de
       novo. Eles agora esto em fuga,  agora o momento de tomar o
       Egipto.
       Kesselring virou-se para Von Mellenthin e perguntou-lhe:
         Quantos tanques e quantos homens temos?
       Rommel conteve o desejo de ordenar a Von Mellenthin que no
       respondesse; sabia que se tratava de um ponto fraco.
          Sessenta tanques. meu Marechal de Campo, e dois mil e
       quinhentos homens. os Italianos tm seis mil homens e catorze
       tanques.
       Kesselring voltou-se para Rommel e inquiriu:
         E vai tomar o Egipto com um total de setenta e quatro
       tanques? Von Mellenthin, segundo os nossos clculos, qual  a
       fora do inimigo?
         As foras aliadas so trs vezes superiores s nossas, mas
       ns estamos bem aprovisionados e o moral dos nossos homens 
       excelente.
         Von Mellenthin, v ao carro das comunicaes e veja o que
       chegou  ordenou Rommel.
       Von Mellenthin saiu e Rommel disse a Kesselring:
         As foras aliadas esto a reagrupar-se em Mersa Matruh.
       Esperam que avancemos e contornemos a extremidade sul da sua
       linha, mas em vez disso vamos atacar-lhes o meio, onde so
       mais fracas
         omo sabe tudo isso'!  indagou Kesselring, interrompendo-o.
         Avaliao do nosso Servio de Informaes, baseada no
       relatrio de um espio ...
         Meu Deus! No tem tanques, mas tem o seu espio!
         Ele acertou da ltima vez.
       Von Mellenthin regressou.
         Alm do mais, nada do que me diz importa  afirmou
       Kesselring.  Estou aqui para confirmar as ordens do Fhrer:
       no deve avanar mais.
         Mandei um enviado especial ao Fhrer  informou Rommel,
       sorrindo.   Creio que Von Mellenthin deve ter a resposta.
       
       Von Mellenthin leu a mensagem que recebera:
         "A deusa da vitria s sorri uma vez na vida. Avante para o
       
       QuANDo chegou ao seu gabinete na quarta-feira de manha, Vandam
       foi informado de que na noite anterior Rommel avanara at
       noventa e cinco quilmetros de Alexandria. Parecia invivel
       deter o marechal alemo. A linha Mersa Matruh partira-se ao
       meio como um fsforo. os Aliados tinham recuado mais uma vez.
       A nova linha de defesa estendia-se atravs de uma brecha de
       cinquenta quilmetros entre o mar e a intransponvel depresso
       de Qattara, e se essa linha casse no haveria mais defesas. o
       Egipto seria de Rommel.
       A notcia no bastou, porm, para extinguir a euforia de
       Vandam. Desde o alvorecer, quando acordara no sof da sua sala
       com Elene nos braos, sentia-se invadido por uma espcie de
       alegria adolescente.
       No incio da manha recebeu a visita de um tal capito Brown,
       da unidade de ligao especial do Servio de Informaes
       Militar. Brown apoiou-se na borda da secretria e falou, de
       
       cachimbo na boca:
         Vai ser evacuado, meu major!
         o qu? Evacuado? Porqu?  perguntou Vandam.
         o nosso grupo parte para Jerusalm, assim como todos aqueles
       que sabem demais. Convm no deixar essas pessoas nas mos dos
       Alemes. Tenho uma novidadezinha para si: Rommel tem um espio
       no Cairo.
         Como sabe?
         Notcias vindas de Londres, meu major.    A unidade de
       ligao especial tinha uma fonte de informao
       ultra-secreta.  o tipo foi identificado como o "heri do caso
       Rashid Ali". Diz-lhe alguma coisa?
       Vandam ficou petrificado.
         Diz!  respondeu.
         Bem, meu major,  tudo  disse Brown.   Felicidades. Talvez
       no o veja durante uns tempos.
         obrigado   murmurou Vandam distraidamente, enquanto Brown
       saa.
       o heri do caso Rashid Ali. Era incrvel que Wolff fosse o
       homem que lhe levara a melhor em Istambul. No entanto, tinha
       l ica Vandam recordou-se da estranha sensao que
       experimentara estilo de Wolff, que lhe parecia familiar. A
       rapariga que Vandam encarregara de conquistar o homem
       misterioso morrera com a garganta cortada.
       E agora ia mandar Elene contra o mesmo homem.
       Um cabo entregou-lhe uma ordem. Vandam leu-a com crescente
       horror. Todos os departamentos deveriam retirar dos seus
       arquivos os papis susceptveis de serem perigosos nas mos do
       inimigo e queim-los. Era evidente que as altas patentes
       encaravam a possibilidade de os Alemes tomarem em breve o
       Egipto. "Est tudo a desmoronar-se", pensou Vandam. "Est a
       ruir."
       Chamou Jakes e observou-o enquanto ele lia a ordem. Jakes
       acenou com a cabea, como se Ja a esperasse.
         Fazemos a fogueira no ptio das traseiras, meu major disse.
       Depois de Jakes sair, Vandam abriu a gaveta do seu arquivo e
       comeou a escolher os seus papis: nomes e moradas, relatrios
       da segurana sobre indivduos, pormenores de cdigos e um
       pequeno dossier sobre Alex Wolff. Jakes trouxe-lhe uma grande
       caixa de carto que Vandam comeou a encher de papis,
       enquanto pensava: "E assim se perde uma guerra."
       A caixa estava semicheia quando o cabo de Vandam introduziu no
       gabinete um tal major Smith, um homem de baixa estatura, olhos
       azuis bolbosos e expresso de autoconfiana. Apertou a mo a
       Vandam e apresentou-se:
         Sandy Smith, SSI.
         Em que posso ser til ao Servio Secreto de Inforrnaes?
         Sou o oficial de ligao entre o SSI e o
       Estado-Maior-General    explicou Smith.    A sua inquirio
       acerca de um romance chamado Rebeca foi encaminhada por
       ns.  E, com um floreado, Smith apresentou um papel.
       Vandam leu o comunicado. o chefe do SSI em Portugal
       encarregara um dos seus homens de visitar todas as livrarias
       do pas que vendiam livros em ingls. Na zona turstica do
       Estoril encontrara um livreiro que se lembrava de ter vendido
       seis exemplares de Rebeca  mulher do adido militar alemo em
       Lisboa.
         Isto confirma uma desconfiana que eu tinha  observou
       
       Vandam.  obrigado pelo incmodo de me vir trazer o documento.
         No foi incmodo nenhum  redarguiu Smith.    Alis venho
       aqui todas as manhas. Tive o maior prazer em ajudar  e salu.
       
       Vandam reflectiu na notcia enquanto continuava com o seu
       trabalho. Havia apenas uma explicao plausvel para o facto
       de o livro ter percorrido o caminho do Estoril at ao Sara.
       Era, indubitavelmente, a base de um cdigo. Lamentavelmente, a
       chave do cdigo no fora encontrada juntamente com o livro!
       Quando a caixa se encheu, Vandam colocou-a ao ombro e saiu.
       Jakes mandara acender a fogueira num tanque de ao ferrugento,
       colocado sobre tijolos. Um cabo lanava papis s chamas.
       Fragmentos chamuscados flutuavam numa coluna de ar quente.
       Vandam largou a caixa e foi-se embora.
       Precisava de reflectir, de caminhar. Saiu do QG e dirigiu-se
       para o centro da cidade. A cara doa-lhe. Pensou que devia
       sentir-se satisfeito com a dor, considerada indcio de que
       estava em curso o processo de cicatrizao. Deixara crescer a
       barba para encobrir a cicatriz, o que lhe minoraria o mau
       aspecto quando retirasse o penso.
       Lembrou-se de Elene. Era, evidentemente, uma catstrofe
       terem-se apaixonado. os seus pais, os amigos e o Exrcito
       condenariam o seu casamento com uma egpcia e, para mais,
       judia. Mas Vandam resolveu no se preocupar com essa ideia.
       Ele e Elene poderiam estar mortos dentro de poucos dias. <
       Aquecer-nos-emos ao sol enquanto ele durar", pensou.
       Lembrava-se constantemente da rapariga que fora degolada, ao
       que parecia por Wolff, em Istambul. Aterrava-o a ideia de
       Elene se encontrar de novo sozinha com Wolff na noite
       seguinte.
       olhou  sua volta e apercebeu-se da atmosfera festiva que o
       rodeava Passou por um cabeleireiro e reparou que estava cheio
       e que havia mulheres de p  espera. As lojas de vesturio
       tambm
       pareciam estar a fazer bom negcio. Compreendeu que os
       Egpcios viviam j o momento da libertao.
       No conseguia evitar uma sensao de catstrofe iminente. At
       o cu parecia escuro. Ergueu os olhos e verificou que estava
       de facto escuro. Parecia estender-se sobre a cidade uma
       neblina cinzenta e turbilhonante, salpicada de partculas
       escuras: fumo misturado com papel queimado. Em todo o Cairo os
       Ingleses queimavam os seus arquivos, e o fumo obscurecia o
       sol.
       Subitamente, Vandam sentiu-se furioso consigo prprio e com os
       exrcitos aliados por se prepararem to fatalisticamente para
       a derrota. Que acontecera quela famosa mistura de obstinao,
       engenho e coragem que supostamente caracterizava a nao
       britanica? "E tu",
       perguntou a si mesmo, "que planeias fazer nestas
       circunstncias?" Voltou-se e retrocedeu na direco do QG.
       Visualizou o mapa da linha de El Alamein, onde os Aliados
       ofereciam a sua ltima resistncia. Tratava-se de uma linha
       que Rommel no poderia contornar, pois abaixo dela ficava a
       vasta e intransponvel depresso de Qattara. Rommel teria de
       romper a linha. Mas onde? Imediatamente atrs dela ficava a
       cordilheira de Alam Halfa, solidamente fortificada. Claro que
       beneficiaria os Aliados a hiptese de Rommel consumir a sua
       fora a atacar Alam Halfa. Alm do mais, o acesso sul 
       
       cordilheira fazia-se atravs de traioeira areia movedia. Era
       improvvel que Rommel soubesse da existncia da areia
       movedia, pois nunca at ento penetrara tanto para leste, e
       s os Aliados dispunham de bons mapas do deserto.
       "Por conseguinte", pensou Vandam, "o meu dever  impedir Alex
       Wolff de dizer a Rommel que Alam Halfa est bem defendida e
       no pode ser atacada pelo sul." De repente, teve uma ideia:
       "Suponhamos que apanho Wolff, lhe apreendo o rdio e descubro
       a chave do cdigo. Podia passar por ele e transmitir uma
       mensagem para Rommel dizendo-lhe que a linha de El Alamein era
       fraca na extremidade meridional e que as prprias defesas de
       Alam Halfa eram deficientes.
       "A tentao seria demasiado grande para Rommel lhe resistir.
       Romperia a linha pela extremidade sul e viraria para norte, na
       direco de Alam Halfa. Encontraria ento a areia movedia.
       Enquanto se debatesse para a atravessar, a nossa artilharia
       dizimaria as suas foras, e quando chegasse a Alam Halfa
       encontr-la-ia fortemente defendida. Nessa altura, trariamos
       reforos da linha da frente e esmagaramos o inimigo como num
       quebra-nozes.
       "Se a emboscada resultasse, poderia no s salvar o Egipto
       como aniquilar o Afrika Korps."
       Vandam comeou a sentir-se eufrico. Sabia que tinha de
       apresentar esta ideia aos chefes. Escreveria um memorando para
       Bogge o quah evidentemente. o bloquearia. Mas enviaria uma
       cpia directamente para o director do Servio de Informaes
       Militar. Dispunha de tempo para Lha fazer chegar s mos antes
       da conferncia do Estado-Maior do dia seguinte. Estugou o
       passo, direito ao seu escritrio. Subitamente, o futuro
       parecia-lhe diferente. Talvez as botas altas germanicas no
       ressoassem no pavimento de mosaicos das mesquitas. Talvez
       Billy no fosse obrigado a viver sob o domnio de Hitler.
       Talvez Elene no fosse enviada para Dachau.
       "Podemos salvar-nos todos", pensou. "Se eu apanhar Wolff."
       
       NA quinta-feira, o major Smith chegou ao barco-habitao ao
       meio-dia, vindo directamente da conferncia matinal efectuada
       no QG, onde Auchinleck e o seu estado-maior tinham discutido a
       estratgia aliada.
         Ele e Sonja entregaram-se  rotina j familiar, que se
       iniciava no sof e terminava no quarto. Quando Wolff saiu do
       armrio, encontrou no cho a pasta e a camisa de Smith, com o
       molho das chaves.
       Wolff abriu a pasta e comeou a ler.
       Decorridos minutos, apercebeu-se de que tinha na mo um
       esquema completo da ltima defesa dos Aliados na linha de El
       Alamein: artilharia nas cordilheiras, tanques no terreno plano
       e campos de minas em toda a extenso. A cordilheira de Alam
       Halfa, oito quilmetros atrs do centro da linha, estava
       fortemente defendida. A extremidade meridional da linha
       oferecia menor resistncia, tanto em contingentes como em
       minas.
       A pasta de Smith continha tambm um papel delineando a posio
       inimiga. os Servios de Informao Aliados analisavam a
       possibilidade de Rommel tentar abrir caminho atravs da
       extremidade sul. Em baixo, escrito a lpis, provavelmente por
       Smith, encontrava-se uma nota que Wolff considerou
       supremamente importante: "o major Vandam propoe um plano de
       
       dissimulao: encorajar Rommel a penetrar pela extremidade
       sul, atra-lo a Alam Halfa, apanh-lo em areia movedia e
       depois o quebra-nozes. Plano aceite por Auchinleck."
       Que descoberta! Alm de ter na mo os pormenores da linha de
       defesa aliada, Wolff estava tambm ao corrente do seu plano de
       dissimulao. Era o maior golpe de espionagem do sculo.
       Dever-se-ia ao prprio Wolff a vitria de Rommel no Norte de
       Africa. "Deviam fazer-me rei do Egipto s por isto", pensou.
       Ergueu os olhos e viu Smith a observ-lo, enquanto mantinha
       com uma mo o reposteiro aberto.
         Quem diabo  voc?  berrou Smith.
       Furioso, Wolff apercebeu-se de que no prestara ateno aos
       rudos do quarto. Algo correra mal; no houvera o aviso da
       rolha da garrafa de champanhe a saltar.
         Essa pasta  minha!
       frente.
       Wolff estendeu o brao, agarrou o pe de Smith e puxou-o para o
       lado. o major estatelou-se ruidosamente no cho. Ambos os
       homens se ergueram rapidamente.
       Smith era baixo, dez anos mais velho do que Wolff e estava em
       m forma fsica. Recuou com uma expresso de medo no rosto.
       Chocou com uma prateleira, olhou para o lado, viu uma fruteira
       de vidro, agarrou-a e lanou-a a Wolff. Errou o alvo e a
       fruteira estilhaou-se ruidosamente na banca da cozinha. "o
       barulho", pensou Wolff, "se ele faz mais barulho, vem gente
       investigar." Avanou para Smith. Este, de costas para a
       parede, gritou:
         Socorro!
       Wolff desferiu-lhe um murro no queixo e ele escorregou pela
       parede e ficou sentado, inconsciente, no cho.
       Sonja saiu do quarto e fitou Smith.
         Que vamos fazer com ele?
         No sei.
       Matar Smith seria perigoso. A morte de um oficial  e o
       desaparecimento da sua pasta  causaria grande agitao na
       cidade.
       Smith gemeu e abriu os olhos.
       -   Voc ... voc  Slavenburg.  olhou para Sonja e depois de
       novo para Wolff.   Foi voc quem ma apresentou ... no Cha-Cha
       ... foi tudo planeado
         Caluda  ordenou-lhe Wolff em tom suave.  o tmha uma opo:
       conserv-lo ali, amarrado e amordaado, at Rommel chegar ao
       Cairo.
         Malditos espies  increpou-os Smith, lvido.
         E voc pensou que eu estava doida por si  observou Sonja
       cruelmente.
         Acaba com isso!  disse Wolff.  Tens alguma corda para o
       amarrar?
       Sonja reflectiu um momento antes de responder:
         L em cima, na coberta. No armrio.
       Wolff retirou da gaveta da cozinha o pesado amolador de ao e
       entregou-o a Sonja.
         Se ele se mexer, bate-lhe com isto ...
       Subiu a escada para a coberta e abriu o armrio, do qual
       retirou   um rolo de corda. Nesse momento ouviu um grito de
       Sonja e passos precipitados na escada. Rodou sobre si mesmo e
       viu Smith irromper pela escotilha. Sonja no devia ter-lhe
       acertado com o amolador oe ao.
       
       Wolff correu atravs da coberta em direco ao portal, a fim
       de impedir a passagem ao oficial. Smith virou-se, correu para
       o outro -extremo do barco e saltou para a gua. Wolff olhou
       rapidamente  sua volta. No se via ningum nas cobertas dos outros
       barcos  era a hora da sesta. o caminho do cais tambm estava
       deserto,  excepo do "mendigo", que presumiu ter sido
       destacado por Kemel para aquele posto. Este teria de negociar
       consigo. No rio navegavam dois faluchos, a uma distncia de
       pelo menos quatrocentos metros.
       Wolff correu para a amurada. Smith emergiu, sem flego, e
       comeou a nadar sem percia, afastando-se do barco. Wolff
       recuou alguns passos, correu e atirou-se tambm ao rio. Caiu
       de ps sobre a cabea de Smith.
       Durante alguns segundos os dois corpos debateram-se em
       confuso. Wolff submergiu num emaranhado de pernas e braos e
       procurou empurrar Smith para o fundo. Quando j no conseguia
       reter a respirao, soltou-se de Smith e emergiu.
       Aspirou e limpou os olhos. Smith emergiu tambm  sua frente,
       tossindo e ofegante. Wolff colocou-se por detrs dele,
       rodeou-lhe o pescoo com um brao e com o outro empurrou-lhe a
       cabea para baixo. Smith continuava a debater-se debaixo de
       gua, agitando os braos e esperneando.
       Era demasiado arriscado, estava a prolongar-se por muito
       tempo. Wolff largou Smith e puxou da faca. Agarrou o major
       pelos cabelos e esfaqueou-o repetidamente. A sua volta a gua
       do rio tingiu-se de um vermelho lamacento.
       Wolff meteu a faca na bainha e arrastou o corpo para o barco.
       Sonja, que vestira um robe, espreitou por sobre a amurada.
         Est morto?  perguntou.
         Est. Temos de afundar o corpo. D-me a corda!
       Sonja desapareceu por um instante e regressou com a corda.
         Agora mete qualquer coisa pesada na pasta dele. olha,
       garrafas de champanhe cheias.
       Ela desapareceu de novo. Atravs da vigia, Wolff viu-a descer
       a escada para a sala. Pegou na pasta, levou-a para a cozinha e
       abriu o frigorfico, do qual retirou quatro garrafas que
       introduziu na pasta, juntamente com o amolador de ao e um
       pesa-papis de vidro. Depois, fechou a porta e regressou 
       coberta.
         E agora?  perguntou.
         Ata a ponta da corda  asa da pasta.  os dedos de Sonja
       moviam-se apressadamente.   Agora atira-me a corda.
       Ela atirou-lhe a extremidade livre da corda. Batendo os ps
       para se manter  superfcie, Wolff passou a corda por sob as
       axilas do morto, rodeou-lhe com ela duas vezes o torso e deu
       um n.
         Atira a pasta  gua  disse a Sonja.
       Ela atirou pela borda fora a pasta, que caiu pesadamente a uns
       dois metros do barco e se afundou. A corda ficou tensa e o
       corpo submergiu tambm. Wolff agitou as pernas debaixo de
       gua, no ponto onde o corpo desaparecera: no sentiu nada. o
       corpo mergulhara profundamente.
       Wolff subiu para a coberta, olhou para trs e verificou que a 
       onalidade rosada da gua desaparecera rapidamente.
       Em baixo, Sonja deixou-se cair no sof e fechou os olhos.
       Wolff despiu a roupa molhada.
         Foi a pior coisa que me aconteceu  murmurou Sonja.
         No te preocupes que sobrevives  redarguiu-lhe Wolff.
       
         Pelo menos era ingls.
       Wolff dirigiu-se  casa de banho e abriu as torneiras da
       banheira. Quando regressou, Sonja perguntou-lhe:
         Valeu a pena?
         Valeu.  Wolff indicou com um gesto os documentos militares
       que continuavam no cho, onde os largara quando Smith o
       surpreendera.  Esse material  importantssimo. Com ele,
       Rommel pode ganhar a guerra.
         Quando transmites?
         Hoje,  meia-noite.
         Esta noite trazes c Elene.
       Wolff hesitou.
         Teria de transmitir com ela c ...
         Eu entretenho-a. Com os diabos, Alex, ests em dvida para
       comigo!
         Est bem.  Wolff dirigiu-se para a casa de banho e meteu-se
       na banheira de gua quente, pensando como Sonja era incrivel.
         Mas agora Smith no te traz mais segredos  disse-lhe ela da
       sala.
         No me parece que precisemos deles depois da prxima
       replicou Wolff.   Ele teve a sua utilidade.
       
       Captulo 10
       
       VANDAM bateu  porta do apartamento de Elene uma hora antes do
       encontro da jovem com Alex Wolff. Ela abriu. Envergava um
       vestido de cocktail preto, sapatos pretos de saltos altos e
       meias de seda. Maqllilhara-se e tinha o cablo brilhante. Estivera 
       espera de Vandam.
       Ele sorriu-lhe, apreciando a sua beleza invulgar.
         ol!
         Entra  convidou, e conduziu-o para a sala.   Senta-te
       Vandam queria beij-la, mas ela no lhe deu oportunidade para
       o
       
         Quero falar-te dos pormenores para esta noite Vandam,
       sentando-se no sof.
         Est bem  redarguiu Elene, e sentou-se numa cadeira.  Se
       queres uma bebida, serve-te.
         Aconteceu alguma coisa?  perguntou o major, fitando-a.
         No, nada. Prepara uma bebida e depois d-me as tuas
       instruces.
       Vandam franziu a testa. Ergueu-se, atravessou a sala e
       ajoelhou-se defronte da cadeira dela.
         Que foi, Elene?
       Ela fitou-o. Parecia prestes a romper em lgrimas.
         onde estiveste nos ltimos dois dias? alta.
         A trabalhar.
         E onde pensas que eu estive?
         Aqui, suponho.
         Exactamente!
       Vandam no compreendeu o que ela queria dizer.
         Eu estive a trabalhar, tu estiveste aqui e por isso ests
       zangada comigo?
         Estou! Podias ter-me mandado um bilhete ou um ramo de flores
       !
         Flores? Para que servem as flores? J no precisamos de
       fazer esse jogo.
       
         Ah, no?! Fizemos amor na noite de anteontem, caso te tenhas
       esquecido. Trouxeste-me a casa e deste-me um beijo de
       boas-noites. Depois ... nada.
       Ele sentou-se no cho e desviou o olhar.
         Caso tl  te tenhas esquecido, um certo Er\,vin Rommel est a
       bater-nos  porta com um magote de nazis a reboque, e eu sou
       uma das pessoas que esto a tentar impedir-lhe a entrada.
         Podias ter arranjado cinco minutos para me mandar um
       bilhete.
       
       Continuava a no fazer sentido, mas desta vez ele ouviu o tom
       magoado da sua voz. Virou-se para a olhar.
         s a coisa mais maravilhosa que me aconteceu nestes anos
       todos, talvez em toda a minha vida. Perdoa-me, por favor. Fui
       idiota.   Pegou-lhe nas mos.
       Elene mordeu o lbio, tentando conter as lgrimas.
         Foste, sim  murmurou, ao mesmo tempo que o olhava e lhe
       tocava no cabelo.    Um grandessssimo idiota   segredou,
       afagando-lhe a cabea.
         Tenho tanto que aprender a teu respeito!
         E eu a teu.
       Vandam tentou ser sincero:
         Escuta, eu no tenho jeito para gestos simblicos. ou nos
       amamos ou no nos amamos, e nem  odas as flores do Mundo faro
       qualquer diferena. No entanto, o meu trabalho pode ter
       influncia no facto de vivermos ou morrermos. Pensei em ti,
       pensei em ti o tempo todo. Mas no me preocupo contigo quando
       sei que ests bem. Achas que poders habituar-te a essa minha
       maneira de ser?
         Vou tentar  respondeu-lhe com um sorriso lacrimoso.
         o que gostava de te dizer, depois de tudo isto, era:
       "Esquece o combinado para esta noite, no vs. , Mas no
       posso. Precisamos de ti e  tremendamente importante.
         Est bem, eu compreendo.
         Mas, antes de mais nada, posso dar-te o beijo que devia
       ter-te
       dado  entrada?
       Ajoelhou-se ao lado do brac o da cadeira dela, segurou-lhe o
       rosto com a sua enorme mo e beijou-a. A boca de Elene era
       macia e dcil. e ele sentiu que seria capaz de continuar a
       beij-la eternamente.
       Por fim, ela recuou, respirou fundo e disse:
         -Meu Deus, creio que foste sincero.
         Podes ter a certeza de que fui.
       Elene riu-se.
         Quando disseste isso, foste por momentos o velho major
       Vandam. Instrua-me, meu major.
         Para isso tenho de me colocar a uma distncia que no me
       permita beijar-te.
       Vandam atravessou a sala e dirigiu-se ao bar, do qual retirou
       uma garrafa de gin.
       Hoje desapareceu um major do Servio de Informaes juntamente com uma pasta cheia de segredos. Veio a saber-se
       que ele tem andado a desaparecer  hora do almoo umas duas
       vezes por semana sem que ningum saiba para onde vai. Tenho o
       pressentimento de que talvez se tenha andado a encontrar com
       Wolff.
         Que continha a pasta?
       
         Uma discriminao to completa das nossas defesas que
       estamos convencidos de que poder modificar o resultado da
       prxima batalha. Por isso temos de apanhar Wolff esta noite.
         Mas talvez j seja demasiado tarde!
         No . H tempos encontrmos a descodificao de uma das
       emisses de Wolff. Tinha sido transmitida  meia-noite.
       Geralmente, os espies comunicam todos os dias  mesma hora,
       pois a outra hora aqueles para quem trabalham no esto 
       escuta. Penso que Wolff vai transmitir as informaes a que me
       referi hoje  meia-noite, a no ser que eu o apanhe
       primeiro.  Hesitou, mas depois concluiu que ela tinha o
       direito de conhecer a importncia de que se revestia a misso
       de que estava encarregada.   H mais uma coisa: ele serve-se
       de um cdigo baseado num romance chamado Rebeca. Tenho um
       exemplar desse livro. Se pudesse obter a chave do cdigo . . .
         Que  isso?
         Uma folha de papel com as instrues que permitem codificar
       as transmisses. Se eu conseguir arranjar a chave do cdigo do
       livro, posso passar por Wolff na radiotransmisso e enviar
       informaes falsas a Rommel. Isso poderia salvar o Egipto. Mas
       s se tiver a chave.
         Muito bem. Qual  o plano para esta noite?
         o mesmo da outra noite, mas mais completo. Eu estou no
       restaurante com Jakes, ambos armados com pistolas.
       os olhos dela dilataram-se.
         Tens uma pistola?
         Agora no, mas vou ter. Estaro outros dois homens no
       restaurante, mais seis c fora e carros civis preparados para
       bloquear todas as sadas da rua ao som de um apito. Fac,a
       Wolff o que fizer, esta noite, se quiser ver-te,  apanhado.
       ouviu-se uma pancada  porta do apartamento.
         Quem ser?  perguntou Vandam.   Esperas algum?
         No, claro. So quase horas de me ir embora.
       o major franziu a testa.
         No me agrada isto. No vs l.
       
         Tenho de ir. Pode ser o meu pai. ou notcias dele.
       Elene saiu da sala e Vandam permaneceu sentado  escuta,
       enquanto ela abria a porta. ouviu-a exclamar:
         Alex!
       E ouviu a voz de Wolff:
         J est pronta. Est uma maravilha!  Era uma voz profunda e
       confiante, com um sotaque muito leve.
         Mas ficmos de nos encontrar no restaurante ...  observou
       Elene.
         Eu sei. Posso entrar?
       Vandam saltou por sobre o sof e estendeu-se no cho atrs
       dele.
       A voz de Wolff soou mais prxima:
         Por aqui?
         -Hum ... sim ...
       Vandam ouviu os dois entrarem na sala e Wolff dizer:
          um ptimo apartamento! Mikis Aristopoulos deve pagar-lhe
       bem.
         oh, no trabalho l regularmente!  da famlia; dou uma
       ajuda.
         olhe, so para si.
         oh, flores! obrigada.
       
       "Diabos te levem!", pensou Vandam.
         Posso sentar-me?  perguntou Wolff.
       Vandam sentiu o sof gemer quando o espio se sentou. Pensou:
       "Podia saltar-lhe em cima agora." Deviam pesar aproximadamente
       o
       mesmo e estavam equilibrados um para o outro   excepo da
       faca. Em caso de luta e se tivesse a faca, Wolff venceria. J
       acontecera uma vez, no beco. "Porque no trouxe eu a
       pistola?", pensou Vandam.
       Se lutassem e Wolff vencesse, que aconteceria? Wolff ficaria a
       saber que Elene andara a tentar apanh-lo. Em Istambul, numa
       situao semelhante, ele cortara o pescoo a uma rapariga.
       1    Vejo que estava a tomar uma bebida antes de eu
       chegar-observou Wolff.   Posso fazer-lhe companhia?
         Claro  aquiesceu Elene.   Que toma?
         Que  isso?  Wolff cheirou a bebida, tentando identific-la.
       Um pouco de gin tambm.
       "Era a minha bebida", pensou Vandam. "Graas a Deus, Elene no
       tinha tambm uma! Dois copos teriam denunciado a situao." .
       ouviu o tilintar de gelo.
         A sua!
         A sua.
       Na opinio de Vandam, Elene estava a desempenhar bem o seu
       papel. "Que pensar ela que estou a planear? J deve ter
       adivinhado onde me escondi. Pobre Elene!" Encontrava-se mais
       uma vez numa situao mais complexa do que supusera. Vandam
       esperava que fosse passiva e confiasse nele.
         Parece nervosa, Elene  observou Wolff.  Espero que a minha
       vinda aqui no a tenha perturbado. Para ser franco, estou
       farto de restaurantes. Combino jantar com pessoas, mas quando
       chega a altura de sair nunca me apetece e comeo a pensar
       noutro programa.
       No iam, portanto, ao oasis, pensou Vandam. "Raios! Isso
       significa que no vou ter a ajuda do Jakes nem dos outros."
         Ento que  que quer fazer?
         Posso fazer-lhe outra vez uma surpresa?
       "obriga-o a dizer!", pediu mentalmente Vandam.
       Mas Elene respondeu:
         Est bem.
       o major praguejou intimamente: se Wolff revelasse aonde iriam,
       poderia contactar com Jakes e deslocar a emboscada para outro
       local.
         Vamos?  convidou Wolff, e o sof gemeu de novo quando ele se
       levantou.
       "Podia atirar-me a ele agora", pensou de novo Vandam. Mas era
       demasiado arriscado.
       ouviu-os sair da sala, a porta abrir-se e bater.
       Vandam levantou-se. Teria de os seguir e aproveitar a primeira
       oportunidade para contactar com Jakes. Dirigiu-se para a porta
       e escutou. No ouviu nada. Abriu uma frincha. Tinham sado.
       Atravessou rapidamente o corredor e desceu a escada.
       Quando chegou  porta do prdio, viu-os do outro lado da rua.
       Wolff abria a porta de um automvel para Elene entrar. No era
       um txi. o espio devia ter alugado, pedido emprestado ou
       roubado um carro para aquela noite. Wolff fechou a porta do
       lado de Elene, contornou o veculo e sentou-se ao volante.
       Vandam montou a sua motocicleta.
       o carro arrancou e Vandam seguiu-o. Conseguiu manter-se cinco
       
       ou seis carms atrs sem perder de vista a sua presa. Se ao
       menos Wolff parasse em algum lado onde houvesse um telefone
       ...
       Saram da cidade, na direco de Giz. Escurecia e Wolff
       acendeu os faris. Vandam no o imitou, para que o adversrio
       no notasse que estava a ser seguido. Vrias vezes esteve
       prestes a cair da motocicleta, devido aos numerosos buracos
       que acidentavam a estrada do deserto.
       A sua frente erguiam-se as piramides. Wolff afrouxou e por fim
       parou. Iam fazer um piquenique junto das piramides. Vandam
       desligou o motor e conduziu a mquina  mo sobre a areia.
       ocultou-a atrs de um montculo rochoso e deitou-se a seu
       lado.
       o automvel permanecia imvel, com o motor desligado e o
       interior s escuras. Que estariam a fazer? o cime apoderou-se
       dele. Disse a si mesmo que no fosse estpido: estavam a
       comer, mais nada. Decidiu arriscar-se a fumar um cigarro.
       Cinco cigarros depois, o silncio do deserto foi quebrado pelo
       roncar do motor do automvel de Wolff. Vandam viu-o virar e
       tomar a estrada que conduzia ao Cairo. Ergueu-se de um salto,
       conduziu a motocicleta para a estrada e seguiu-os. Aonde iria
       agora Wolff?
       Comeou a suspeitar da resposta quando, nos arredores da
       cidade, atravessaram a ponte para Zamalek, onde a danarina
       Sonja tinha o seu barco-habitao. Seria possvel que Wolff l
       estivesse a viver? o barco estava vigiado havia dias e Kemel
       no comunicara nada de anormal.
       Wolff arrumou o automvel e apeou-se. Vandam encostou a
       motocicleta a uma parede e seguiu o espio e Elene, que
       percorriam o caminho do cais. Por detrs de um arbusto viu-os
       entrar num dos barcos. Wolff ajudou Elene a transpor a escada
       do portal, subiu atrs dela para a coberta e ambos
       dsapareceram no interior da embarcao.
       Chegara a sua oportunidade de pedir auxlio. Devia haver um
       polcia nas proximidades.
         Eh!   chamou baixi ho.
       
       Est a algum? Polcia?
       Um vulto escuro surgiu de trs de uma rvore e uma voz com
       sotaque rabe respondeu:
         Sim.
         Sou o major Vandam. Voc  o agente da Polcia encarregado
       de vigiar o barco?
         Sou sim, meu major.
         o homem que procuramos encontra-se neste momento a bordo.
       Tem uma arma?
         No, meu major.
         Diabo!  Vandam considerou a hiptese de atacar o barco com o
       rabe, mas rejeitou-a imediatamente como invivel: naquele confinado, a faca de Wolff era uma ameaa temvel.  V
       ao telefone mais prximo, ligue para o QG e transmita um
       recado ao capito Jakes ou ao coronel Bogge: ataquem
       imediatamente o barco-habitao. Compreendeu?
         Capito Jakes ou coronel Bogge, QG. Compreendi sim, meu
       major.
       o rabe afastou-se com passos rpidos. Recebera instrues
       para comunicar com o seu oficial superior e com mais ningum
       relativamente quele caso, pelo que iria  esquadra e ligaria
       
       para casa do superintendente Kemel. Este saberia o que fazer.
       Vandam encontrou uma posio que lhe permitia simultanea.mente
       permanecer oculto e vigiar o barco e o caminho do cais.
       Decorrido um bocado, viu uma mulher dirigir-se para a
       embarcao. Pareceu-lhe familiar. Entrou no barco e Vandam
       compreendeu que era Sonja.
       Sentiu-se aliviado. Pelo menos Wolff no molestaria Elene com
       outra mulher a bordo. Preparou-se para esperar.
       
       ELENE desceu a escada e percorreu nervosamente com os olhos o
       interior do barco. Esperara encontrar uma decorao reduzida e
       com motivos nuticos, mas deparava-se-lhe um ambiente luxuoso,
       embora um pouco decadente. Havia carpetes espessas, divas
       baixos
       mesas e ricos reposteiros de veludo do cho ao tecto, que
       separavam aquela rea do que calculou ser o quarto.
         E seu?  perguntou a Wolff.
          de uma amiga  respondeu ele.   Sente-se.
       Elene sentia-se encurralada. onde estava William Vandam?
       Tivera vrias vezes a impresso de que uma motocicleta os
       seguira, mas no pudera certificar-se do facto, receosa de
       alertar Wolff. Este retirou do frigorifico uma garrafa de
       champanhe, fez saltar a rolha procurou duas taas e encheu-as.
       Elene sentia-se aterrorizada. Que tipo de jogo seria o dele?
       Percorreu-a um calafrio.
         Est com frio?  perguntou Wolff, estendendo-lhe uma taa de
       champanhe.
         No, no  frio.
       Wolff ergueu a sua taa e brindou:
         A sua sade.
       Elene tinha a boca seca. Sorveu um golo e depois um grande
       trago da bebida gelada. Sentiu-se um pouco melhor.
       Ele sentou-se a seu lado no diva e disse:
       
         Aprecio imenso a sua companhia. Voc  uma feiticeira.  E
       colocou a mo sobre o joelho dela.
       Elene ficou petrificada. "Pronto,  agora", pensou.
         Voc  enigmtica  continuou ele.   Atraente, bastante
       reservada, extremamente bonita, por vezes ingnua e por vezes
       sabida.   Enquanto falava, percorria-lhe com a ponta do dedo
       os contornos do rosto, testa, nariz, lbios, queixo.   Porque
       sai comigo?
       Que quereria ele dizer? Seria possvel que suspeitasse do
       papel que ela desempenhava? ou tratar-se-ia apenas da fase
       seguinte do jogo?
       olhou-o e respondeu:
         Voc  um homem muito atraente.
         Agrada-me que tenha essa opinio.   Inclinou-se para a
       beijar e ela ofereceu-lhe a face. os lbios de Wolff
       roaram-lhe pela pele e depois ele perguntou num
       murmrio:  Porque tem medo de mim?
       ouviu-se um rudo na coberta  passos rpidos e leves  e a
       escotilha abriu-se. Elene pensou: "William!"
       Vislumbrou no degrau um sapato de salto alto e um p de
       mulher. Esta desceu e Elene reconheceu Sonja, a danarina do
       ventre.
       "Que diabo  isto?", pensou.
       
       
         ESTA bem, sargento  disse Kemel pelo telefone da
       mesa-de-cabeceira.  Procedeu exactamente como devia ao
       contactar comigo. Eu trato de tudo pessoalmente. Pode at
       abandonar o servio a partir deste momento.
         Muito obrigado, Sr. Superintendente  agradeceu o sargento.
       Boas noites.
       Kemel desligou. Era uma catstrofe. os Ingleses tinham seguido
       Alex Wolff at ao barco-habitao e Vandam estava a tentar
       organizar um ataque. As consequncias seriam duplas. Primeiro,
       a possibilidade de os oficiais Livres utilizarem o rdio de
       Wolff para estabelecerem contacto com Romel desapareceria.
       Segundo, quando os Ingleses descobrissem que o barco-habitao
       era um ninho de espies, compreenderiam que ele, Kemel, os
       protegera. Que podia fazer? Vestiu-se apressadamente.
         Que ?  perguntou-lhe a mulher, da cama.
         Servio  sussurrou ele.
         oh, no!   E virou-se para o outro lado.
       Kemel retirou uma pistola da gaveta fechada  chave da
       secretna e introduziu-a no bolso do casaco. Depois, beijou a
       mulher e saiu silenciosamente de casa. Meteu-se no carro e
       ligou o motor. Tinha de consultar Sadat a respeito do
       sucedido, mas entretanto a impacincia podia levar Vandam a
       cometer qualquer acto precipitado. Tinha de resolver primeiro
       o problema de Vandam.
       Kemel seguiu para Zamalek e estacionou perto do caminho do
       cais. Retirou do porta-bagagem um pedao de corda e avanou
       com a pistola na mo direita segura pelo cano,  guisa de
       matraca.
       Chegou  margem do rio. olhou para o Nilo prateado e para as
       formas pretas dos barcos-habitaes. Vandam devia estar oculto
       algures entre os arbustos. Kemel avanou sub-repticiamente.
       A sua frente, uma voz perguntou num murmrio:
         Quem vem a? Jakes?
       Kemel ergueu o brao e abateu-o violentamente. A pancada
       atingiu em cheio a cabea de Vandam e deixou-o inconsciente.
       Kemel ajoelhou-se ao lado do corpo cado de costas e,
       rapidamente, descalou-lhe as sandlias e tirou-lhe as pegas,
       que lhe introduziu na boca, para evitar que o oficial gritasse
       a pedir socorro. Em seguida, virou-o de bruos, cruzou-lhe os
       pulsos atrs das costas e amarrou-os com a corda. Depois,
       amarrou-lhe tambm os tornozelos e, por fim, atou a corda a
       uma rvore.
       Vandam recuperaria os sentidos dentro de minutos, mas
       ser-lhe-ia impossvel mover-se ou gritar. Kemel resolveu dar
       uma vista de o!hos rpida ao barco-habitao. Seguiu o caminho
       do cais em dlreco ao Jlhan. Havia luzes no interior, mas as
       cortinas das vigias estavam corridas. Sentiu-se tentado a
       subir a bordo, mas considerou preferivel consultar primeiro
       Sadat, pois no estava certo do que convinha fazer. Virou-se e
       dirigiu-se para o automvel.
       
       SoNJA sorriu:
         Alex disse-me tudo a seu respeito, Elene.
       Elene retribuiu o sorriso. Seria aquela a amiga de Wolff a
       quem o barco pertncia? No a teria ele esperado to cedo? Por
       que razo nenhum deles parecia irado ou embaraado?
       `Wolff serviu uma taa de champanhe a Sonja
         Trabalha ento na loja do Mikis?  perguntou a danarina a
       
         No, no trabalho. Ajudei-o durante uns dias, mais nada.
       Somos aparentados.
         Ento  grega?
         Exactamente.
       Aquela conversa incutiu confiana em Elene, que sentiu o medo
       diminuir. Acontecesse o que acontecesse, Wolff no iria com
       certeza violent-la, de faca na mo, diante de uma das
       mulheres mais famosas do Egipto. Sonja proporcionava-lhe, pelo
       menos, alguns momentos para respurar. William estava decidido
       a apanhar Wolff antes da meia-noite ... Meia-noite!
       Quase se esquecera. A meia-noite, Wolff contactaria com o
       inimigo pela TSF e comunicar-lhe-ia os pormenores da linha de
       defesa. Mas onde estava o rdio? Estaria no barco? Ele
       transmitiria a mensagem na presena delas?
       Wolff sentou-se ao lado de Elene, que se sentiu vagamente
       ameaada com um de cada lado.
         Sou um homem feliz!  exclamou ele.  Aqui sentado com duas
       mulheres to belas!
       Elene olhava em frente, sem saber que dizer.
         Ela  bonita, no , Sonja?
         !  Sonja tocou no rosto de Elene e depois pegou-lhe no
       queixo e virou-lhe a cabea.   Acha-me bonita, Elene?
         Com certeza.   Elene franziu a testa: a situao estava a
       tornar-se esquisita.
         Ainda bem!  afirmou Sonja, e colocou a mo sobre o joelho da
       outra.
       Ento, Elene compreendeu.
       As peas do puzzle ocuparam os seus devidos lugares: a falsa
       cortesia de Wolff, o barco-habitao e o aparecimento
       inesperado de Sonja. Elene apercebeu-se de que no estava de
       todo em segurana.
       Aqueles dois queriam us-la de qualquer maneira. o medo que
       sentia por Wolff ressurgiu e recrudesceu.
       "Pra com isso! No vou ter medo. Posso bem ser molestada por
       dois idiotas depravados. Est em jogo um assunto mais
       importante. Esquece-te de ti, pensa no rdio e na maneira de
       impedires Wolff de contactar com Rommel." Consultou
       furtivamente o relgio: faltava um quarto para a meia-noite.
       ERA quase alvorada. No quarto do barco, Wolff e Sonja dormiam
       profundamente o jogo em que tinham obrigado Elene a participar
       fora para benefcio de Sonja: era evidente que se tratava da
       sua fantasia, da sua mania. Quanto mais Wolff dedicava a sua
       ateno a Elene, tanto mais Sonja tentava intrometer-se entre ambos, at
       que no desenlace, Wolff rejeitara Elene e fizera amor com
       Sonja. Fora to idiota, to ridculo, que Elene quase
       considerara a cena cmica. Porm, no of erecendo resistncia,
       conseguira que Wolff esquecesse a sua emisso da meia-noite
       para Rommel.
       Naquele momento, ao acordar no diva da sala, perguntou a si
       mesma o que teria acontecido a Vandam. Teria perdido a pista
       do automvel de Wolff na confuso do transito ou sofrido algum
       acidente? Fosse por que motivo fosse, o certo  que Vandam j
       no estava a velar por ela. Encontrava-se entregue a si mesma.
       Que impediria Wolff de enviar a sua mensagem noutra noite?
       Seria importante saber se o rdio se encontrava no barco.
       Recordou as palavras de Vandam: "Se conseguir arranjar a chave
       do cdigo do livro, posso passar por Wolff na radiotransmisso
       ... Isso poderia salvar o Egipto."
       
       "Talvez eu consiga encontrar a chave", pensou Elene. Vandam
       explicara-lhe que se tratava de uma folha de papel com as
       instrues que permitiam utilizar o livro para codificar
       mensagens. Resolveu passar revista ao barco, comeando pela
       popa e acabando na proa.
       Entrou no quarto em bicos de ps. Wolff respirava serena e
       regularmente. Sonja no se movia. Elene penetrou na exgua
       casa de banho. Havia uma bacia, uma pequena banheira e um
       armrio que continha uma mquina de barbear e comprimidos. o
       rdio no estava na casa de banho.
       Atravessou de novo o quarto e regressou  sala. o diva estava
       aparafusado ao cho. o rdio no podia estar ali. Passou 
       cozinha. Havia um armrio alto, que abriu silenciosamente.
       Continha uma vassoura e algum material de limpeza. Nenhum
       rdio. Abriu seis pequenos armrios. Continham loua,
       conservas, tachos e copos. Havia diversas gavetas. Abriu uma e
       o chocalhar dos talheres esfrangalhou-lhe os nervos. outra
       continha frascos de especiarias e temperos. outra ainda, facas
       de cozinha.
       Perto da cozinha havia uma pequena secretria com tampo de
       correr e ao lado outro armrio. Elene abriu-o e viu uma mala.
       o seu ntmo cardaco acelerou-se. Retirou a mala para o cho.
       Era pesada.
       o rdio ajustava-se perfeitamente na mala, como se esta
       tivesse sido fabricada com o propsito expresso de o conter.
       Sobre o rdio viu um livro, cujo ttulo leu: Rebeca. Havia
       qualquer coisa entre as pginas. Abriu o livro, de entre cujas
       folhas caiu um pedao de papel. Elene apanhou-o e verificou
       que era uma li.cta   nlmlor c  
       
       datas, com algumas palavras em alemo. Tratava-se com certeza
       da chave do cdigo.
       Tinha na mo aquilo de que Vandam necessitava para modificar o
       rumo da guerra. Agora s precisava de fugir com o livro e a
       chave.
       A cama rangeu. Por detrs dos reposteiros ouviu o rudo
       inequvoco de algum a levantar-se. Elene dirigiu-se para a
       escada e subiu a correr os estreitos degraus. olhou para baixo
       e viu Wolff aparecer entre as cortinas e olh-la, estupefacto.
       os seus olhos desviaram-se dela para a mala aberta no cho.
       Elene voltou-se para a escotilha, fechada do lado de dentro
       por meio de dois trincos. Correu-os e, pelo canto do olho, viu
       Wolff precipitar-se para a escada. Abriu a escotilha e saiu
       para a coberta. Wolff subia apressadamente a escada. Quando
       ele agarrou a borda da abertura, Elene baixou-lhe a escotilha
       sobre a mo com toda a fora. Soou um berro de dor. Elene
       atravessou a coberta a correr e desceu o portal. Na margem do
       rio baixou-se, levantou a extremidade do portal e deixou-o
       cair no rio.
       Wolff saiu pela escotilha, o rosto transformado numa mscara
       de dor e fria. Ao v-lo atravessar a coberta a correr, Elene
       entrou em panico. "Est nu", pensou, "no me pode perseguir!"
       Mas ele saltou por sobre a amurada do barco e aterrou na orla
       da margem, agitando os braos para se equilibrar. Com um
       sbito mpeto de coragem, Elene correu para ele e empurrou-o
       para trs, para a gua. Depois, voltou-se e fugiu ao longo do
       caminho do cais.
       Quando chegou ao troo inferior do caminho que conduzia  rua,
       
       deteve-se e olhou para trs, com o corao a bater
       descompassadamente. Experimentou uma sensao de euforia
       quando viu Wolff, nu e a pingar, emergir da gua e subir a
       margem lodosa. Comeava a clarear e ele no a podia perseguir
       naquele estado. Virou-se na direco da rua, desatou a correr
       e chocou com algum.
       Braos fortes imobilizaram-na. Ela debateu-se
       desesperadamente. o homem que a segurava passou-lhe um brao
       pelo pescoo, impedindo-a de gritar.
       Wolff aproximou-se e perguntou:
         Quem  voc?
         Sou Kemel. Voc deve ser Wolff.
         Graas a Deus que voc est aqui!  melhor vir a
       bordo.-Wolff precedeu-os, recuperou a prancha flutuante do
       portal e rep-la no lugar, entre o barco e a margem.    Por
       aqui
       convidou.
       Kemel conduziu Elene atravs da coberta e pela escada abaixo,
       empurrou-a para o diva e obrigou-a a sentar-se.
       Wolff passou por entre os reposteiros e regressou decorridos
       momentos com uma grande toalha enrolada  cintura. Sentou-se e
       e aminou a mo.
         -Quase me partiu os dedos  observou, fitando Elene com um
       misto de clera e surpresa.
         onde est Sonja?  perguntou Kemel.
         Na cama  respondeu Wolff, indicando com a cabea a direcc,ao
       do quarto por detrs do reposteiro.  Nem um tremor de terr  a
       consegue acordar.
         Voc est em apuros  observou Kemel.
         Bem sei. Suponho que esta mulher trabalha para Vandam.
         L isso no sei. Recebi um telefonema do homem que pus de  u
       irda ao caminho do cais. Vandam veio at aqui e mandou-o pedir
       au  liio.
       Wolff ficou assustado.
         Foi por pouco!  exclamou com ar preocupado.  onde est
       Vandam agora?
         Ainda est ali. Dei-lhe uma pancada na cabea e amarrei-o.
       Elene sentiu o corao desfalecer-lhe. Vandam estava
       imobilizado ... e mais ningum sabia onde ela se encontrava.
       Fora tudo intil.
       Wolff acenou com a cabea e observou:
         Vandam deve t-la seguido. Com ele so duas pessoas que
       sabem que vivo aqui. Se quiser c ficar, tenho de os matar a
       ambos.
         No basta  declarou Kemel.  Se voc matar Vandam, o
       assassnio acaba por me ser atribudo.  Fez uma pausa,
       observando Wolff atravs de olhos semicerrados, e acrescentou:
         E se me matasse a mim, ficava ainda o homem que me telefonou
       a noite passada.
         Portanto ...  Wolff franziu o cenho  ... tenho de me ir
       embora. Raios partam!
       Kemel acenou afirmativamente e disse:
         Se voc desaparecer, creio que posso compor as coisas. Mas
       preciso de uma coisa de si. Lembre-se do motivo por que o
       temos aiudado  Queremos falar com Rommel.
         Esta noite transmito. Diga-me o que quer transmitir e eu
         No. Queremos ser ns a faz-lo. Queremos o seu rdio.
       As instrues de Sadat haviam sido claras no que respeitava a
       
       essa questo.
       Wolff franziu de novo a testa. Elene compreendeu que Kemel era
       um rebelde nacionalista que tentava cooperar com os Alemes
         Podamos transmitir a sua mensagem  acrescentou Kemel
         No  necessrio  respondeu Wolff, que parecia ter tomado
       uma deciso.   Tenho outro rdio.
         Ento est combinado.
       o rdio est ali.  Wolff apontou para a mala, ainda aberta no
       cho.  J est sintonizado no comprimento de onda corrente. S
       tm de transmitir s vinte e quatro horas de qualquer noite.
       Kemel aproximou-se do aparelho e examinou-o. Elene perguntou a
       si mesma por que motivo no teria Wolff mencionado o cdigo
       Rebeca. Percebeu que o espio estava a jogar pelo seguro: dar
       o codigo a Kemel seria arnscar-se a que este o desse a
       qualquer outra pessoa.
         onde mora Vandam?  perguntou Wolff.
       Kemel, que procedera a algumas investigaes nesse campo
       deu-lhe o endereo do major.
       "Que pretender agora?", pensou Elene.
         Ele  casado, suponho?
         Vivo. A mulher foi morta em Creta o ano passado.
         Tem filhos?
         Tem um rapaz chamado Billy. Porqu?
       Wolff encolheu os ombros.
         Estou um pouco obcecado com o homem que esteve prestes a
       apanhar-me  respondeu, mas Elene teve a certeza de que mentia.
       Kemel fechou a mala, aparentemente satisfeito, e Wolff
       pediu-lhe:
         Tome conta dela um minuto, sim?
         Claro.
       Wolff reparara que Elene segurava ainda o livro na mo.
       Tirou-Lho e depois desapareceu por detrs do reposteiro.
       Decorridos poucos minutos, regressou j vestido e sem o livro.
         Tem um indicativo de chamada?  perguntou-lhe Kemel.
         Esfinge  respondeu Wolff secamente.
         Cdigo?
         Nenhum.
         Que estava naquele livro?
         Um cdigo  respondeu Wolff em tom irritado.  Mas no Lho
       dou. Vo ter de se arriscar a transmitir s claras.  De
       sbito, Wolff sacou da faca.  No discuta. Sei que tem uma
       arma, mas se
       disparar vai ter de justificar a bala aos Ingleses.  melhor
       ir-se embora.
       Sem uma palavra, Kemel pegou na mala e saiu pela escotilha.
       Wolff guardou a faca na bainha, sob a camisa. Foi buscar o
       livro ao quarto, retirou o papel da chave, amarrotou-o,
       colocou-o num cinzeiro de vidro e pegou-lhe fogo com um
       fsforo.
       < Deve ter outra chave com o outro emissor, , pensou Elene.
       Aps se certificar de que o papel ardera completamente, Wolff
       abriu uma vigia e atirou o livro  gua.
       Retirou uma pequena maleta de um armrio e comec,ou a emalar
       alguns objectos.
         Aonde vai?  perguntou-lhe Elene.
         J vai saber; tambm vai.
         oh, no!  Que lhe faria? Surpreendera-a a engan-lo ...
       Teria imaginado algum castigo apropriado? o medo apossou-se
       
       dela. Nada do que fizera resultara.
       Wolff continuou a fazer a mala. Quando acabou, lanou um
       ltimo olhar  sua volta.
         No tenho coragem para perturbar o sono de Sonja  declarou,
       sorrindo.   Vamos.
       Caminharam ao longo do caminho do cais, Wolff segurando a mala
       com uma das mos e o brao de Elene com a outra. Porque
       abandonaria Sonja? Elene considerou-o desprovido de
       escrpulos, e a ideia f-la estremecer.
       Viraram para a rua e dirigiram-se para o automvel de Wolff.
       Este obrigou-a a entrar pelo lado do motorista e a passar por
       sobre a
       alavanca de mudanas, para se sentar no banco do passageiro 
       frente. Depois, instalou-se ao lado dela e partiram.
       "Para onde iremos?", perguntou-se Elene. Para onde quer que
       fossem, o outro emissor encontrava-se l, juntamente com outro
       exemplar de Rebeca e outra chave do cdigo. "Quando chegarmos,
       vou ter de tentar de novo." Agora que Wolff abandonara o
       barco-habitao, Vandam nada podia fazer, mesmo depois de ser
       libertado. Elene teria de tentar, sozinha, impedir Wolff de
       contactar com  Rommel e, se possvel, roubar a chave do
       cdigo. A ideia era ridcula. o que realmente desejava era
       libertar-se daquele homem  diablico e perigoso, ir para casa
       e sentir-se de novo em segurana. Mas pensou no pai, viajando
       a p para Jerusalm, e compreendeu que tinha de tentar.
       Wolff parou o automvel e Elene exclamou:
          Esta  a casa de Vandam!  olhou-o sem compreender. Mas ele
       no est em casa.
         Pois no  concordou Wolff com um sorriso cnico.  Mas est
       Billy.
       
       Captulo 11
       
       ANWAR el-Sadat ficou encantado com o rdio. Ligou-o para o
       experimentar e declarou a Kemel que era muito potente.
       Esconderam-no no forno da cozinha de Sadat. Depois, Kemel
       regressou de carro a Zamalek, ensaiando pelo caminho a
       histria que preparara para encobrir o papel que desempenhara
       nos acontecimentos nocturnos.
       Estacionou o automvel, desceu cautelosamente o caminho do
       cais e embrenhou-se nos arbustos a trinta ou quarenta metros
       do local onde deixara Vandam. Rolou pelo cho para sujar a
       roupa, esfregou um pouco de terra arenosa na cara, passou os
       dedos pelo cabelo e esfregou os pulsos, que ficaram
       congestionados e aparentemente doridos. Depois foi procurar
       Vandam.
       Encontrou-o exactamente onde o deixara. os ns estavarn ainda
       apertados e a mordaa no seu lugar. Vandam fitou-o de olhos
       fixos e dilatados, e Kemel exclamou:
         Meu Deus, tambm o apanharam!
       Inclinou-se, retirou a mordaa a Vandam e desamarrou-o.
         o sargento contactou-me  explicou.   Vim aqui  sua procura
       e s me lembro de ter acordado amarrado e amordaado e com uma
       enorme dor de cabea. Libertei-me h instantes.   o
       superintendente atirou a corda para o lado e Vandam
       levantou-se, entorpecido.   Como se sente?  perguntou Kemel.
         Sinto-me bem.
         Vamos subir a bordo e ver se descobrimos alguma coisa.
       
       Apenas Kemel se virou, Vandam avanou e agrediu-o na nuca com
       a regio lateral da mo, to violentamente quanto pde. Podia
       t-lo morto, mas era-lhe indiferente. Sabia que Kemel o
       trara. Estivera amarrado e amordaado, mas pudera ouvir: "Sou
       Kemel. Voc deve ser Wolff." A partir desse momento a fria de
       Vandam acumulara-se, e o oficial pusera no golpe toda a sua
       ira contida.
       Kemel ficou cado no cho, inconsciente. Vandam virou-o ao
       contrrio, revistou-o e encontrou a pistola. Serviu-se da
       corda que
       amarrara as suas prprias mos para atar as de Kemel atrs das
       costas. Depois, esbofeteou-o at ele recuperar os sentidos.
         Levante-se  ordenou.
       Kemel, cujos olhos reflectiam medo, ergueu-se com dificuldade.
       Vandam agarrou-o pelo colarinho com a mo esquerda e empunhou
       a arma com a direita.
         Vamos!
       Dirigiram-se para o barco-habitao. Empurrando Kemel  sua
       frente, Vandam subiu o porlal e atravessou a coberta.
       Desajeitadamente, devido s mos atadas, Kemel desceu a
       escada. Vandam inclinou-se para olhar o interior. Estava
       deserto. Desceu rapidamente as escadas, empurrou Kemel para o
       lado e correu o reposteiro. Viu Sonja a dormir, deitada na
       cama.
         Entre para ali  ordenou.
       Kemel entrou e deteve-se ao lado da cabeceira da cama.
         Acorde-a.
       Kemel acordou-a aos gritos. Sonja abriu os olhos e sentou-se
       na cama. Reconheceu Kemel e depois viu Vandam com a arma. Ela
       e o major perguntaram simultaneamente:
         onde est Wolff?
       Vandam teve a certeza de que ela no representava. Percebia
       agora claramente que Kemel avisara Wolff e que este fugira sem
       acordar Sonja. Presumivelmente, levara Elene consigo por
       qualquer razo.
         Wolff transmitiu alguma radiomensagem ontem  noite?
       perguntou.
       No, no transmitiu.
         Que aconteceu aqui?  perguntou Vandam, temendo a resposta.
         Fomos para a cama.
         Quem?
         Wolff e eu.
       E teria sido tudo? Estaria Sonja a dizer a verdade? Wolff no
       teria de facto contactado com Rommel pela rdio na noite
       anterior? Desejava apenas que fosse verdade.
         Vista-se  ordenou a Sonja.
       Ela saiu da cama e enfiou apressadamente um vestido. Depois, 
       landam ordenou a Kemel e a Sonja que entrassem na exgua casa
       de banho, fechou a porta  chave e comeou a revistar o barco.
       Encontrou um cinzeiro de vidro cheio de papel queimado e
       completamente reduzido a cinzas. Ao fim de meia hora adquirira a
       certeza deque no existia a bordo nenhum rdio e nenhuma chave
       de cdigo
       Encontrou um pedao de corda, fez sair os dois prisioneiros da
       casa de banho, amarrou as mos de Sonja e em seguida amarrou o
       homem e a mulher um ao outro. Saiu do barco com eles e
       conduziu-os para a rua, onde mandou parar um txi. Instalou
       Sonja e Kemel no banco da retaguarda e, de arma apontada para
       
       eles, sentou-se no da frente.
         Quartel-general  disse ao assustado motorista rabe.
       os dois prisioneiros seriam interrogados, mas havia apenas
       duas perguntas que interessavam: onde estava Wolff? onde
       estava Elene?
       
       SENTADo no automvel, Wolff agarrou no pulso de Elene e sacou
       da faca, cujo gume afiado passou levemente pelas costas da mo
       da jovem. Horrorizada, Elene olhou para a mo. Inicialmente,
       viu apenas uma linha, semelhante ao risco de um lpis; depois,
       o sangue jorrou e ela sentiu uma dor lancinante. A respirao
       tornou-se-lhe opressa.
         Vai ficar perto de mim e no dizer nada  recomendou Wolff.
         Caso contrrio, esfaqueia-me?  perguntou, desdenhosa.
         No. Caso contrrio esfaqueio Billy.
       Wolff saiu do carro e Elene permaneceu imvel, experimentando
       uma sensao de impotncia. Que podia fazer contra aquele
       homem implacvel? Retirou um leno da mala e atou-o em torno
       da mo que sangrava. Wolff contornou o veculo, abriu a porta
       do lado da jovem, agarrou-lhe no brao e obrigou-a a sair.
       Subiram o caminho at  casa de Vandam e Wolff tocou 
       campainha. Gaafar abriu a porta, lanou um olhar rpido  mo
       de Elene e cumpnmentou-a:
         Bons dias, Miss Fontana.
       Wolff disse:
         Bons dias. Sou o capito Alexander. o major pediu-me que
       viesse c. Deixa-nos entrar?
         Com certeza, Sr. Capito.   Gaafar desviou-se e Wolff entrou
       no trio de mosaicos, sem largar o brao de Elene.  Espero que
       o Sr. Major esteja bem  disse o criado.
         Est ptimo. Mas no pode vir a casa esta manha, e como
       estou de folga pediu-me para levar Billy no carro para a
       escola.
       Elene estava apavorada. Wolff ia raptar Billy. No podia
       permiti-lo. Apeteceu-lhe gritar: "No, Gaafar, ele est a
       mentir, leve o Billy e fuja, fuja!" Mas Wolff tinha a faca e
       Gaafar era velho. Wolff apanharia Billy de qualquer maneira.
       
       Gaafar pareceu hesitar e Wolff ordenou-lhe:
         Vamos, Gaafar, despache-se! No dispomos do dia todo.
         Sim, Sr. Capito. Billy est a acabar de tomar o
       pequeno-almoo. Querem fazer o favor de esperar aqui um
       momento?  E abriu a porta da sala.
       Wolff empurrou Elene para a sala e largou-lhe finalmente o
       brac,o. Sentou-se  secretria, procurou papel e lpis e
       comeou a escrever.
         Porque me trouxe aqui?  gritou Elene.
       Wolff ergueu a cabea do papel e respondeu:
         Para manter o rapaz sossegado. Temos um longo caminho a
       percorrer.
         Deixe ficar o Billy  rogou a rapariga.   uma criana.
          o filho de Vandam  replicou Wolff com um sorriso.  E
       possvel que Vandam calcule onde vou, e quero ter a certeza de
       que no vai atrs de mim.   E continuou a escrever.
       Elene fez um esforo para se concentrar. Iam fazer uma longa
       viagem. No fim, com certeza, encontrava-se o outro rdio, bem
       como outro exemplar de Rebeca e uma cpia da chave do cdigo.
       Fosse como fosse, tinha de ajudar Vandam a segui-los. onde
       
       teria Wolff deixado o outro rdio? Podia t-lo escondido
       algures no deserto ou entre o Cairo e Asyut. Talvez
       Billy entrou na sala.
         ol!   disse a Elene.   Trouxe-me o lal llvro!
         o livro?  Fitou-o, enquanto pensava que era ainda uma
       criana, no obstante as suas atitudes de adulto. Vestia
       cales de
       flanela cinzenta e camisa branca, usava a gravata da escola e
       segurava a pasta com os livros.
         Disse que me emprestava um livro policial do Simenon.
         Esqueci-me. Desculpa.
       Wolff, que estivera a olhar para Billy como um avarento para o
       seu tesouro, levantou se.
         ol, Billy    cumprimentou com um sorriso. capito
       Alexander.
       Billy apertou-lhe a mo e cumprimentou:
         Como est, Sr. Capito?
         o teu pai pediu-me para te dizer que est muito ocupado a
       fazer frente ao velho Rommel. Eu levo-te  escola.
         Ele teve outra luta?
       Wolff hesitou, antes de responder:
         Por sinal teve, mas est bem. Ficou com um galo na cabea.
       Billy pareceu mais orgulhoso do que preocupado.
       Wolff dirigiu-se rapidamente a Elene em rabe:
         Entretenha o rapaz um bocado.  E regressou  secretria.
       Elene olhou para a pasta de Billy e teve uma ideia:
         Mostra-me os teus livros  disse. Atravs da pasta aberta via
       um atlas, que retirou.   Que ests a dar em geografia?
         os fiordes da Noruega.
       Elene viu Wolff acabar de escrever e introduzir a folha de
       papel num sobrescrito, que fechou e guardou no bolso.
         Vamos l ver onde est a Noruega  disse Elene, folheando o
       atlas.
       Wolff pegou no telefone e discou um nmero. olhou para Elene e
       depois para o exterior, atravs da janela.
       Elene encontrou o mapa do Egipto e Billy observou:
         Mas isso  ...
       Rapidamente, Elene tocou-lhe nos lbios com um dedo. crianca
       calou-se e olhou-a, franzindo as sobrancelhas.
         Claro, isto  a Escandinvia  disse Elene  , mas Noruega
       fica na Escandinvia. olha.
       Desatou o leno da mo e com uma unha abriu o golpe para o
       fazer sangrar de novo. Billy empalideceu.
       Entretanto, Elene adquirira praticamente a certeza de que
       Wolff tencionava dirigir-se a Asyut. o espio declarara recear
       que Vandam adivinhasse qual o seu destino, e era provvel que
       o major associasse essa cidade com Wolff. Nesse momento, ouviu
       Wolff pedir pelo telefone:
         Est? Diga-me o horrio do comboio para Asyut.
       "Eu tinha razo!", pensou a rapariga. Humedeceu o dedo com
       sangue da mo e com trs riscos desenhou uma seta indicando a
       cidade de Asyut, quinhentos quilmetros a sul do Cairo. Fechou
       o atlas e com o leno manchou-lhe a capa de sangue. Depois,
       ocultou o livro atrs de si. Billy, os olhos fixos na mo de
       Elene, permanecia mudo de assombro.
       Wolff pousou o telefone e disse:
         Vamos. No queres com certeza chegar atrasado  escola.
       Dirigiu-se para a porta e abriu-a.
       
       De testa franzida, Billy pegou na pasta e saiu, seguido por
       Elene. Wolff, antes de sair, colocou a carta que escrevera
       sobre uma pilha de correspondncia que viu numa mesa no trio.
         Sabe guiar?  perguntou a Elene.
         Sei    afirmou a jovem, compreendendo de imediato que devia
       ter respondido negativamente.
         Vocs dois vo  frente  ordenou Wolff, e sentou-se no banco
       da retaguarda.
       Quando ela arrancou, Wolff inclinou-se para a frente, mostrou
       a faca a Billy e perguntou-lhe:
         Ests a ver isto?
         Estou  respondeu o garoto em voz pouco firme.
         Se no te portares bem, uso-a em ti  ameaou Wolff.
       A crianca comecou a chorar.
       
       A sala do interrogatrio tinha apenas uma mesa e uma cadeira.
       Vandam entrou, precedido por Jakes e Kemel, e sentou-se.
         onde est Alex Wolff?  perguntou o major.
         No sei  respondeu o superintendente.
         oua, Kemel, nas circunstncias actuais ser fuzilado por
       espionagem. Se nos disser tudo quanto sabe, talvez se safe com
       uma condenao a priso perptua. Seja sensato. Foi voc quem
       me agrediu no caminho que conduz ao cais, no foi?
         No, senhor.
       Vandarn suspirou. Kemel tinha a sua histria e agarrava-se a
       ela. Perguntou:
         De que maneira est a sua mulher envolvida em tudo isto?
       Kemel no respondeu, mas pareceu assustado.
         Se no responde s minhas perguntas, vou ter de lhe
       perguntar ela.
       Kemel mantinha os lbios apertados numa linha dura.
       Vandam ergueu-se e ordenou ao capito:
         Jakes, prenda a mulher dele por suspeita de espionagem.
         - Justia britanica tpica  comentou Kemel.
       Vandam olhou-o e insistiu:
         onde est Wolff?
         No sei.
       Vandam saiu, seguido por Jakes.
         o tipo  polcia, conhece as tcnicas  observou o
       major.-H-de vergar, mas no hoje.  E ele tnha de encontrar
       Wolff e Elene naquele dia.
       Dirigiram-se para outra sala e entraram. Sonja estava sentada
       numa cadeira, com um vestido prisional cinzento. A seu lado
       postava-se uma oficial do Exrcito que teria assustado Vandam
       caso este fosse seu prisioneiro: era baixa e corpulenta, com
       uma expresso dura e cabelo grisalho curto.
       Vandam e Jakes sentaram-se. Vandam j interrogara Sonja
       naquela sala, e ela sobrepujara-o em astcia. Desta vez,
       porm, a segurana de Elene estava em jogo e poucos escrpulos
       restavam a Vandam.
         onde est Alex Wolff?
         No sei.
         Wolff  um espio alemo e voc tem-no ajudado.
         Ridculo.
       Vandam observou-lhe o rosto. Era uma mulher orgulhosa,
       confiante em si mesma, desprovida de medo.
         Wolff atraioou-a  prosseguiu o major.  Kemel, o polcia,
       avisou Wolff do perigo, mas ele deixou-a a dormir e fugiu com
       
       outra mulher. Vai continuar a proteg-lo depois disso?
       SonJa no respondeu.
         Wolff tinha o rdio no seu barco e enviava mensagens a
       Rommel. Voc sabia-o, e por isso  cmplice dele. Ser
       fuzilada por espionagem.
         o Cairo todo sublevar-se-ia! No se atreveriam'
         Acha que no? Que nos importa que o Cairo se subleve agora?
       os Alemes esto s portas da cidade ... eles que contenham a
       rebelio.
         No me pode tocar.
         Acho melhor provar-lhe que posso  respondeu Vandam, e
       dirigiu um aceno de cabea  oficial.
       Esta segurou Sonja, enquanto Jakes a amarrava  cadeira. A
       bailarina debateu-se um momento, mas em vo. Pela primeira vez
       perpassou-lhe nos olhos um vislumbre de medo. A oficial
       retirou uma grande tesoura da mala, ergueu uma madeixa do
       longo e espesso cabelo de Sonja e cortou-a.
         No pode fazer isso!  gritou histericamente a danarina.
       A oficial continuou a cortar. A medida que cortava as pesadas
       madeixas, deixava-as cair no colo de Sonja, cujos gritos se
       transformaram em lgrimas.
         Como v  disse Vandam  , j no nos importamos muito com a
       opinio pblica egpcia. Estamos encostados  parede.
       A mulher retirou da mala sabo e um pincel da barba, ensaboou
       a cabea de Sonja e comeou a rapar-lha. Por fim, retirou um
       espelho da mala e colocou-lho  frente. Sonja ficou de
       respirao suspensa ao ver a sua cabea totalmente rapada.
         No  murmurou  , no sou eu!  E rompeu num choro convulsivo.
       o dio desaparecera; estava completamente desmoralizada.
         onde obtinha Wolff as suas informaes?    perguntou v n m  
       vl m n 
         Do major Smith  respondeu Sonja.   Sandy Smith.
       Vandam dirigiu um olhar rpido a Jakes. Era o nome do major do
       SSI que desaparecera  passara-se o que haviam receado.
         Como obtinha ele a informao?
         Sandy ia ao barco visitar-me na sua hora de almoo. Enquanto
       estvamos juntos, Alex revistava-lhe a pasta.
       "To simples como isso", pensou Vandam. "Meu Deus, sinto-me
       cansado!" Smith era oficial de ligao entre o SSI e o QG.
       Tivera acesso a todo o plano secreto de estratgia. E seguia
       directamente das conferncias matinais no QG para o
       barco-habitao, com uma pasta cheia de segredos.
         onde est agora Smith?  perguntou Vandam.
         Surpreendeu Alex a mexer-lhe na pasta. Alex matou-o. Est no
       rio, junto do barco.
       Vandam dirigiu um aceno de cabea a Jakes, que saiu.
         Fale-me de Kemel  pediu a Sonja.
       Com a resistncia completamente esmagada, ela estava desejosa
       de falar, de dizer tudo quanto sabia:
         Abordou-me e disse-me que o senhor lhe tinha pedido que
       vigiasse o barco. Prometeu censurar os relatrios de
       vigilncia se eu lhe arranjasse um encontro entre Alex e Anwar
       el-Sadat, um capito do Exrcito.
         Porque queria Sadat encontrar-se com Wolff?
         Para o Movimento dos oficiais Livres poder enviar uma
       mensagem a Rommel.
       Vandam ordenou  oficial:
         Procure-me a morada do capito Anwar el-Sadat.
       
         Sim, meu major.   E a mulher saiu.
       ,   Sabe para onde Wolff poder ter ido?  perguntou Vandam a
       Sonja.
         Procurar o ladro Abdullah. Talvez tenha ido procur-lo.
         Boa ideia. Mais algumas sugestes?
         os seus primos do deserto.
         onde poderiam ser encontrados?
         Ningum sabe. So nmadas.
         Wolff poderia estar ao corrente dos seus movimentos?
         Suponho que sim.
         Voltaremos a ver-nos  prometeu Vandam, e saiu.
       A mulher oficial entregou-lhe um papel com a morada de Sadat.
       Jakes esperava-o na sala de reunies.
         A Marinha vai emprestar-nos dois mergulhadores mou.   J vm
       a caminho.
         Muito bem. Vou prender Sadat. J foram transmitidas
       instrues a toda a gente?
       o capito acenou afirmativamente e respondeu:
         Sabem que procuramos um emissor de TSF` um exemplar do livro
       Rebeca e um conjunto de instrues de cdigo.
         Quero que faa uma rusga  casa de Abdullah. Depois, v ter
       comigo ao barco-habitao.
       Sadat vivia num subrbio a cinco quilmetros do Cairo, na
       direco de Helipolis. Quatro jipes aproximaram-se
       ruidosamente da casa e os soldados cercaram-na imediatamente,
       comeando a revistar o jardim. Vandam bateu  porta principal,
       que estava aberta, e chamou:
         Capito Anwar el-Sadat?
         Sou eu.
       Sadat era um jovem magro, com uma expresso sria, de altura
       mediana e cabelo ondulado castanho, que comeava j a rarear.
       Vestia uniforme e fez, como se estivesse prestes a sair.
         Est sob priso  declarou Vandam, e entrou em casa. onde  o
       seu quarto, capito?
       Sadat indicou-lho. Sob a sua aparncia, calma e digna, a
       tenso estava latente. "Est com medo", pensou Vandam, < mas
       no de ir para a priso;  de qualquer outra coisa."
       Entraram juntos no quarto. Era um quarto simples, com um
       colcho no cho e uma galabia suspensa num prego. Dois
       soldados comearam a revistar o aposento.
         Conhece Alex Wolff  disse Vandam a Sadat.  Tambm se chama
       Achmed Rahmha, mas  europeu.
         Nunca ouvi falar dele.
       obviamente, Sadat possua uma personalidade relativamente
       forte no era homem susceptvel de quebrar e confessar tudo s
       porque um punhado de soldados brutamontes comeava a
       revolver-lhe a casa.
       
         Major Vandam!  gritaram de outra zona da casa.
       Vandam seguiu a direco de onde viera o grito e entrou na
       cozinha. Um sargento da PM abria uma mala que descobrira
       oculta no forno. No interior da mala encontrava-se um
       radioemissor. Vandam olhou para Sadat, que o seguira. A
       amargura e a decepo alteravam o rosto do rabe. os rebeldes
       tinham ento avisado Wolff e, em troca, recebido o rdio do
       espio. Significaria tal facto que ele possua outro?
         Bom trabalho, sargento. Acabem de revistar a casa e depois
       levem o capito Sadat para o QG.
       
         Protesto  declarou Sadat.  A lei estipula que os oficiais do
       Exrcito Egpcio s podem ser detidos na messe de oficiais e
       devem ser guardados por um companheiro de armas.
         A lei tambm estipula que os espies devem ser
       fuzilados-replicou Vandam, que se voltou de novo para o
       sargento:  o capito  acusado de espionagem.
       Fitou de novo Sadat. A expresso de amargura e desapontamento
       desaparecera-lhe do rosto e fora substituda por um olhar
       calculista. "o tipo vai tirar o mximo partido disto", pensou
       Vandam. "Est a preparar-se para armar em mrtir.  muito
       adaptvel. Devia ser poltico. "
       Regressou ao jipe e ordenou ao motorista:
         Para Zamalek.
       Quando chegou ao barco-habitao, os mergulhadores j tinham
       feito o seu trabalho: dois soldados iavam o cadver do Nilo.
       Jakes aproximou-se e disse-lhe:
         olhe, meu major.    E estendeu-lhe o livro encharcado:
       Rebeca.
       o rdio fora para Sadat; o livro-cdigo para o rio. Vandam
       lembrou-se do cinzeiro cheio de papel queimado. Teria Wolff
       queimado a chave do cdigo? Mas porqu, se tinha uma mensagem
       vital para transmitir a Rommel? A concluso era bvia. Wolff
       tinha outro rdio, outro livro e outra chave ocultos em
       qualquer lado.
       os soldados iaram o corpo para a margem do rio. Vandam
       inclinou-se sobre o cadver e comentou para Jakes;
         Horrendo, no acha? Esfaqueado e depois atirado ao rio.
       Wolff  rpido como o diabo a manejar o raio da faca.
       Vandam levou a mo  face: o penso fora retirado e a barba- de
       alguns dias ocultava-lhe o ferimento. Elene no, com a faca
       no, por favor!
         Presumo que no encontrou Wolff, capito?
         No havia sinais dele em casa de Abdullah.
         Nem em casa do capito Sadat.    De sbito, Vandam sentiu-se
       completamente esgotado; Wolff parecia levar-lhe sempre a
       melhor. Esfregou a cara. H vinte e quatro horas que no
       dormia.-Acho que vou para casa descansar um bocado. Talvez me
       ajude a pensar com mais clareza. Esta tarde voltamos a
       interrogar todos os presos.
       A caminho de csa, lembrou-se de que Sonja mencionara outra
       possibilidade: os primos nmadas de Wolff. Mas quem poderia
       dizer onde se encontravam, a no ser o prprio Wolff? o jipe
       parou defronte da casa de Vandam, que se apeou e mandou o
       motorista embora.
       Havia correio na mesa do trio. o sobrescrito de cima,
       endereado a Vandam numa caligrafia vagamente familiar, no
       tinha selo e ostentava a palavra "urgente . Vandam pegou nele
       e dirigiu-se  sala a procura de um abre-cartas. Fosse como
       fosse, a busca de Wolff tinha de ser circunscrita. Lembrou-se
       onde tudo comeara. Asyut. Aparentemente, fora a que Wolff
       surgira do deserto. Consequentemente, talvez regressasse para
       l pelo mesmo caminho. Talvez os seus primos se encontrassem
       nessas imediaes.
       Podia ainda fazer qualquer coisa, pensou Vandam. Era provvel
       que naquele momento Wolff seguisse em direco ao sul.
       Impunha-se a instalao de bloqueios na estrada. E era
       necessrio colocar algum em todas as estaes de caminhos de
       ferro encarregado de o procurar. Vandam sentia dificuldade em
       
       concentrar-se.
       onde estava o maldito abre-cartas? Foi  porta e gritou:
         Gaafar!
       Regressou  sala e viu o atlas escolar de Billy numa cadeira.
       Parecia sujo. o rapaz devia t-lo deixado cair numa poa ou
       coisa parecida. Vandam pegou-lhe e sentiu-o pegajoso. Percebeu
       que estava sujo de sangue. Teve a sensao de estar a viver um
       pesadelo. Que se passava?
       Gaafar entrou e Vandam perguntou-lhe:
         Que porcaria  esta?
         No sei, Sr. Major  respondeu Gaafar depois de olhar para o
       atlas.  Eles estiveram a v-lo enquanto o capito Alexander
       aqui esteve . . .
         Eles quem? Quem  o capito Alexander?
         o of icial que o senhor encarregou de levar Billy Para a
       escola.
       
       Um terrvel pavor desanuviou instantaneamente o crebro de
       Vandam.
         Veio aqui esta manha um capito do Exrcito Britanico e
       levou o Billy?
         Levou sim, Sr. Major, levou-o para a escola. Disse que o Sr.
       Major o tinha mandado ...
         Gaafar, eu no mandei ningum.
       o rosto moreno do criado adquiriu um tom terroso.
         No pediu ao homem que se identificasse?
         Mas, Sr. Major, Miss Fontana vinha com ele! Por isso
       pareceu-me natural.
         oh, meu Deus!  Agora sabia por que motivo lhe parecera
       familiar a caligrafia do sobrescrito: era a mesma do bilhete
       que Wolff mandara a Elene.
       Rasgou o envelope, em cujo interior encontrou uma mensagem
       escrita na mesma caligrafia:
       
       Caro major Vandam
       o Billy est comigo. Elene cuida dele. No lhe acontecer nada
       enquanto eu estiver em seguranca. Aconselho-o a deixar-se
       ficar onde
       est e no tomar quaisquer medidas. No tenho qualquer desejo
       de
       molestar o rapaz. No entanto, a vida de uma crianca nada vale
       comparada com o futuro dos meus dois pases, o Egipto e a
       Alemanha.
       Por isso pode ter a certeza de que, se me convier, matarei
       Billy.
       
       Era a carta de um louco: a saudao corts, o ingls correcto,
       a
       tentativa de justificar o rapto de uma criana inocente. Wolff
       era louco. E tinha Billy em seu poder.
       Vandam estendeu o bilhete a Gaafar, que ps os culos com mo
       trmula. Qual seria o objectivo do rapto? Para onde teriam
       ido? E porqu o sangue? Gaafar chorava copiosamente
         Quem estava ferido?  perguntou-lhe Vandam.   Quem sangrava?
         No houve violncia. Miss Fontana tinha um golpe na mo.
       E espalhara sangue no atlas de Billy, que deixara sobre a
       cadeira. Era um sinal, uma mensagem. Vandam pegou no atlas e
       deixou-o abrir-se  Viu imediatamente o mapa do Egipto e uma
       
       seta vermelha apontando para Asyut.
       "Se eu comunico o facto para o QG", pensou, "Bogge transmite
       ordens para que prendam Wolff em Asyut. Trava-se uma luta e
       Wolff sabe que est perdido. Que far ento? Mata o meu
       filho."
       Sentiu-se paralisado pelo medo. Claro que era esse o objectivo
       de Wolff ao levar Billy: paralisar Vandam. S havia uma opo:
       tinha de os seguir sozinho. Wolff viera de Asyut de comboio;
       tinha pois de partir do princpio de que tambm regressaria de
       comboio.
       Saiu da sala e deteve-se no trio para pr os culos de
       motociclista e enrolar um cachecol em tomo da boca e do
       pescoo. Saiu de casa, montou na motocicleta e ligou o motor.
       o depsito de combustvel estava cheio. Gaafar seguira-o,
       ainda a chorar. Vandam tocou no ombro do velho e declarou-lhe.
         Hei-de traz-los.
       Arrancou, entrou na rua e virou para sul.
       
       Captulo 12
       
       "BILLY est to plido!", pensava Elene. "Est a tentar ser
       corajoso." Viajavam com Wolff numa carruagem de primeira
       classe para Asyut. "Que hei-de fazer?", perguntava a jovem a
       si mesma. Sentia um calafrio de cada vez que olhava para
       Wolff. o modo como ele fitava Billy, o brilho dos seus olhos,
       a expresso de triunfo ... Talvez devesse distrair Billy com
       um jogo qualquer. Que ideia to ridcula. ou no, talvez no
       fosse assim to ridcula. Estava ali a pasta da escola, e na
       pasta o caderno de exerccios. o garoto observava-a, curioso.
       Que jogo? o jogo do galo. Quatro linhas que se cruzavam duas
       horizontais e duas verticais. Uma cruz feita por ela no
       quadrado do centro. Billy pegou no lpis e escreveu um zero no
       canto. "Desconfio que ele aceitou esta ideia para me
       reconfortar!", pensou Elene. Wolff arrancou-lhe o caderno da
       mo, olhou, encolheu os ombros e devolveu-o. A cruz de Elene,
       o zero de Billy ... empataram.
       "Tenho de afastar Billy daquela faca", pensou Elene. Billy
       tracou uma cruz no centro de um novo quadriculado. Ela
       desenhou um zero e depois escreveu apressadamente: "Temos de
       fugir ... Prepara-te!" Billy traou nova cruz e escreveu:
       "Est bem." Um zero dela. "Prxima estao." A terceira cruz
       de Billy completou uma linha. Ele sorriu-lhe, jubiloso.
       Vencera. o comboio afrouxou. Tinha de dar a Billy uma
       oportunidade de fugir e depois tentar impedir Wolff de o
       perseguir.
       
       Elene olhou  sua volta. "Pensa depressa!" Estavam numa
       carruagem com quinze ou vinte filas de lugares. Ela e Billy
       sentavam-se lado a lado, voltados para a frente. Wolff estava
       defronte deles, com a mala aos ps. A seu lado havia um lugar
       vago e atrs dele ficava a porta para a plataforma do comboio.
       os outros passageiros eram uma mistura de europeus e egpcios
       ricos, todos vestidos  ocidental. o calor apertava e todos
       transpiravam. Alguns dormiam.
       o comboio parou na estao.
       "Ainda no", pensou Elene, "ainda no." o momento oportuno
       seria quando o comboio estivesse prestes a arrancar de novo, o
       que daria a Wolff menos tempo para os alcanar. Permaneceu
       
       sentada, numa imobilidade febril.
       Um padre de vestes coptas entrou na carruagem e ocupou o lugar
       vago ao lado de Wolff. Elene murmurou a Billy:
         Quando o apito soar, corre para a porta e sai do comboio.
         Que conversa  essa?  perguntou Wolff.
       o apito soou. Billy olhou para Elene, hesitante.
       Wolff franziu a testa.
       Elene atirou-se a Wolff, procurando atingi-lo na cara. Ele
       protegeu o rosto com os braos, mas no conseguiu evitar o
       impetuoso ataque. Elene arranhou-lhe a cara com as unhas e viu
       jorrar sangue. o padre soltou um grito de surpresa. Por sobre
       as costas do banco de Wolff, Elene viu Billy correr para a
       porta e tentar abri-la. Deixou-se cair sobre Wolff e tentou
       arranhar-lhe os olhos.
       Por fim, ele recuperou a voz e soltou um berro de clera.
       Levantou-se do lugar e empurrou Elene, que lhe agarrou a
       frente da
       camisa. Ele ergueu o punho e desferiu-lhe um murro. Elene caiu
       para trs, no banco. Quando recuperou a viso, viu Wolff
       precipitar-se na direco do garoto. Levantou-se. Billy
       transpunha a porta, seguido de perto por Wolff. Elene
       seguiu-os.
       Billy corria ao longo do cais da estao, perseguido por
       Wolff. os poucos egpcios que se encontravam nas imediaes
       observavam a cena levemente surpreendidos, sem revelarem
       qualquer inteno de intervir. Elene precipitou-se atrs de
       Wolff. o comboio estremeceu, prestes a arrancar. Wolff
       aumentou a velocidade e Elene gritou: "Corre, Billy, corre!"
       Billy alcanara praticamente a sada da estao. o comboio
       comeara a avanar, muito lentarmente, e Wolff tinha de
       retroceder para o apanhar. "Conseguimos!", pensou Elene.
       Nesse momento, Billy escorregou e caiu, batendo com fora no
       cho. Wolff alcanou-o no mesmo instante e inclinou-se para o
       apanhar. Elene aproximou-se e lanou-se s costas de Wolff,
       que se desequilibrou e largou Billy. Elene mantinha-se
       agarrada a Wolff. o comboio continuava a avanar, lenta mas
       firmemente. Wolff soltou-se de Elene e atirou-a ao cho.
       Depois, levantou Billy e atravessou-o ao ombro. o rapaz
       gritava e desferia-lhe socos nas costas. Wolff correu alguns
       passos paralelamente ao comboio e saltou.
       Elene ergueu-se penosamente. No podia abandonar Billy. Correu
       aos tropees para o comboio. Algum lhe estendeu uma mo, ela
       agarrou-a e saltou. Estava de novo no comboio, no ponto em que
       tudo comeara. Dominada pelo desanimo, seguiu Wolff para os
       lugares que ocupavam, sem encarar os passageiros por que
       passava. Viu Wolff aplicar uma forte palmada no traseiro de
       Billy e deix-lo cair no seu lugar. o rapaz chorava em
       silncio.
       Wolff voltou-se para Elene e increpou-a em voz alta, para ser
       ouvido:
         s louca!   Agarrou-lhe num brao e esbofeteou-a.
       o sacerdote ergueu-se, tocou no ombro de Wolff e murmurou
       algumas palavras. Wolff largou-a e sentaram-se. Elene olhou 
       sua volta e verificou que era o centro das atenes. Ningum a
       ajudaria porque era uma egpcia, e no Egipto as mulheres, tal
       como os camelos, precisavam de ser espancadas de tempos a
       tempos. Dentro dela fervia uma raiva intil e impotente. Quase
       tinham conseguido fugir. Passou o brao por sobre os ombros da
       
       criana, puxou-a para si e comec,ou a afagar-lhe o cabelo.
       Pouco depois, Billy adormeceu.
       
       VANDAM sabia que j se encontrava bastante  frente do comboio 
       Parara em quatro estaes para perguntar se a composio j
       passara. Ainda no. Conduzia rapidamente, com os culos e o
       cachecol enrolado ao pescoo e tapando-lhe a boca, a
       proteg-lo o mais possvel da poeira. Sabia o que tinha a
       fazer, mas precisava de tempo. Pararia na estao seguinte e
       poria o seu plano em prtica.
       A determinada altura da viagem tomara uma deciso. Partira do
       Cairo com o objectivo de salvar Billy e Elene, mas entretanto
       Compreendera no ser esse o seu nico dever. A guerra
       continuava.
       Vandam tinha a certeza de que Wolff possua outro emissor,
       .outro exemplar de Rebeca e outra chave do cdigo ocultos em
       Asyut. A fim de pr em prtica o plano destinado a iludir
       Rommel, Vandam precisava do rdio e da chave  o que
       significava que tinha de deixar Wolff chegar a Asyut e
       recuperar esses objectos. S ento
       poderia salvar Billy e Elene. Seria duro para eles,
       brutalmente duro mas viver sob o domnio nazi seria tambm
       brutalmente duro.
       Tomada a deciso, o major precisava de ter a certeza de que
       Wolff viajava naquele comboio. Ao mesmo tempo talvez
       conseguisse amenizar a situao de Elene e Billy.
       Quando chegou  cidade seguinte, parou  porta da esquadra da
       Polcia local, situada num largo central, do lado oposto ao da
       estaco de caminhos de ferro, e buzinou peremptoriamente
       diversas vezes Saram do edifcio dois polcias rabes: um
       homem grisalho de uniforme branco e um rapaz de dezoito ou
       vinte anos. Vandarn apeou-se da motocicleta e gritou:
       "Sentido!" os dois homens perfilaram-se e fizeram a
       continncia, que Vandam retribuiu.
         Ando atrs de um criminoso perigoso e preciso da vossa ajuda
       disse em tom premente  Vamos entrar.
       Vandam precedeu-os e dirigiu-se ao homem mais velho:
         Ligue para o Quartel-General Britanico no Cairo.  Deu-lhe o
       nmero, e o polcia ergueu o auscultador de um telefone
       colocado sobre uma mesa. Vandam voltou-se para o polcia mais
       novo:   capaz de guiar a minha motocicleta?
         Perfeitamente  respondeu o jovem, encantado com a ideia.
         V l fora experimentar.
       o mais velho, que estivera a gritar ao telefone, estendeu-o
       Vandam.
         Tem o QG ao telefone.
         Ligue-me ao capito Jakes  pediu Vandam pelo telefon_. No
       tardou a ouvir a voz de lakes:  Est? Fala Vandam. Estou no
       Sul, a seguir um palpite. A fim de conseguir o apoio mximo da
       gendarmaria indigena  utilizava estes termos para que o
       polcia no compreendesse  , quero que represente o seu papel
       de duro.
       Estendeu o telefone ao polcia grisalho, que,
       inconscientemente, se perfilou, enquanto Jakes o instrua, com
       uma clareza que no deixava lugar a qualquer dvida, no
       sentido de fazer tudo quanto Vandam quisesse, e depressa.
         Sim, senhor!  repetia o polcia, que por fim
       acrescentou:-Pode ter a certeza, Excelncia, de que faremos
       
       tudo quanto estiver ao nosso alcance.
       Vandam aproximou-se da janela. o polcia mais novo descrevia
       voltas no largo com a motocicleta, buzinando e acelerando.
       Reunira-se uma pequena multido que observava a cena. o agente
       ostentava um sorriso rasgado. "Serve", pensou Vandam.
       
         Trate do necessrio para eu entrar no comboio de Asyut
       quando ele passar por aqui  disse ao homem mais velho.  E
       mande o rapaz levar a motocicleta  estao seguinte e esperar
       l por mim.
         Sim, senhor!   E o homem saiu a correr.
       Vandam ainda no ouvia o comboio. Dispunha de tempo para fazer
       mais um telefonema. Levantou o auscultador e pediu ao
       telefonista que ligasse para o capito Newman, da Base Militar
       de Asyut. Newman atendeu aps uma longa espera.
         Fala Vandam. Creio que estou no rasto do seu faquista.
         Excelente, meu major!   exclamou Newman.   Posso ser-lhe
       til em alguma coisa?
         Chego a Asyut daqui a algumas horas. Preciso de um txi, de
       uma galabia grande e de um mido. Pode encontrar-se comigo?
         Espero por si  entrada da cidade. Acha bem?
         ptimo.  Vandam ouviu o rudo distante do comboio. Tenho de
       ir.
       Desligou. Colocou uma nota de cinco libras na mesa ao lado ao
       lefone. Era sempre til untar as mos. Saiu para o largo. Na
       ireco norte viu o fumo do comboio que chegava. o polcia
       mais novo aproximou-se na motocicleta. Vandam disse-lhe:
         Vou de comboio, mas voc segue na motocicleta at  prxima
       estao e espera-me l. Est bem?
         Est bem  exclamou o outro, encantado.
       Vandam retirou do bolso uma nota de libra, rasgou-a ao meio e
       u metade ao rapaz:
         Recebe a outra metade quando se encontrar comigo.
       o comboio estava quase na estao. Vandam atravessou o largo e
       orreu ao longo do cais, a fim de poder entrar pela frente sem
       ser visto pelos passageiros. o comboio entrou na estao, a
       vomitar uvens de fumo. Quando parou, Vandam subiu.
       Encontrou-se numa carruagem de segunda. Wolff viajaria com
       erteza em primeira classe. Vandam comec,ou a atravessar as
       carruans, abrindo caminho por entre os passageiros sentados no
       cho om as suas caixas, as suas grades e os seus animais.
       Depois de percorrer trs carruagens de segunda, encontrou-se 
       porta de uma carruagem de primeira classe. De sbito, teve
       dvidas sobre se teria ;a coragem necessria para fazer o que
       decidira. Wolff nunca o vira bem  no beco tinham lutado s
       escuras  , e a barba cobria-lhe quase por completo o golpe da
       cara. o verdadeiro problema era
       Billy. Tinha de forjar maneira de avisar o filho para que este
       fingisse no o reconhecer. Respirou fundo e abriu a porta.
       Quando a transps, olhou rpida e nervosamente para as
       primeiras filas de lugares. No viu Billy. Pediu aos
       passageiros que se encontravam mais perto:
         os vossos documentos, por favor.
         Que  que se passa, major? Exercito Egipcio.
         Uma inspeco de rotina, meu coronel  respondeu Vandam, e
       continuou a percorrer a coxia, inspeccionando documentos.
       Quando se encontrava a meio da carruagem, adquirira j a
       certeza de que Wolff, Elene e Billy no se encontravam nela.
       
       Comeou a ventilar a hiptese de se ter enganado nas suas
       suposies.
       Chegou ao fim da carruagem  e transps a porta que dava acesso
       ao espao entre as carruagens. A sua frente ficava a ltima
       carruagem. "Se eles vm no comboio, vou sab-lo agora",
       pensou.
       Abriu a porta e viu imediatamente Billy. Sentiu uma punhalada
       de angstia, como uma ferida. o rapaz dormia no seu lugar, com
       os ps mal tocando o pavimento, o corpo descado para o lado e
       o cabelo caindo para a testa. Elene, que o enlaava, ergueu a
       cabea e arregalou os olhos. Vandam levou rapidamente um dedo
       aos lbios e ela baixou os olhos. Porm, Wolff captara o seu
       olhar e virou a cabea para descobrir o que ela vira. Vandam
       dirigiu-se-lhe:
         Documentos, por favor.
       Era a primeira vez que via o seu inimigo cara a cara. Wolff
       era um indivduo atraente, de traos fisionmicos vincados.
       Apenas em torno dos olhos e aos cantos da boca se lhe revelava
       a fraqueza, a depravao. E apresentava arranhes recentes nas
       faces. Talvez Elene lhe tivesse oposto alguma resistncia.
       Wolff estendeu os documentos e depois olhou atravs da janela,
       enfadado. os documentos identificavam-no como Alexander Wolff,
       Villa les oliviers, Garden City.
         Aonde vai?  perguntou-lhe Vandam.
         A Asyut, visitar pessoas de famlia.
         Viajam juntos?
          o meu filho e a ama  respondeu Wolff.
       Vandam pegou nos documentos de Elene e relanceou-os.
       Apetecia-lhe atirar-se ao pescoo de Wolff. o meu filho e a
       ama. Pulha!
       Devolveu os documentos a Elene.
       
         No  preciso acordar a criana  disse, e virou-se para o
       sacerdote sentado ao lado de Wolff, que lhe estendia a
       carteira e dizia:
         Tambm vou para Asyut.
         obrigado  agradeceu Vandam, devolvendo os documentos.
       Dirigiu-se  fila seguinte de lugares e continuou a examinar
       documentos. Quando olhou para trs, Wolff fixava de novo a
       paisagem atravs da janela.
       Vandam chegara ao fim da carruagem e devolvia os ltimos
       documentos quando ouviu um grito que lhe trespassou o corao:
         Aquele  o meu pai!
       Ergueu os olhos. Billy corria pela coxia na sua direco, de
       braos estendidos, tropeando e chocando com os lugares. oh 
       Deus! Atrs de Billy, viu Wolff e Elene levantados a
       observarem a cena-Wolff com um olhar penetrante, Elene com uma
       expresso de medo. Vandam abriu a porta atrs de si, simulando
       no reparar no rapaz, e saiu para a plataforma da carruagem.
       Billy precipitou-se tambm atravs da porta. Vandam fechou-a e
       pegou no filho.
         Est tudo a correr bem  murmurou  , no te preocupes.
       Wolff devia aparecer de um momento para o outro.
         Eles levaram-me!  contou Billy.  Faltei  escola e estava
       com muito, muito medo!
         Agora j passou tudo ...
       Vandam sentia-se incapaz de abandonar Billy. Teria de matar
       Wolff, de desistir do plano concebido para enganar Rommel e da
       
       procura do emissor e do cdigo ... No, tinha de prosseguir o
       seu objectivo. Dominou os seus instintos e disse ao filho:
         Escuta, tenho de apanhar aquele homem e no quero que ele
       saiba quem sou. E o espio alemo que tenho andado a procurar,
       compreendes?
       -   Sim, sim ...
         s capaz de fingir que no sou teu pai e voltar para ele?
       Billy fitou-o, boquiaberto, com uma expresso mais elucidativa
       'do que qualquer recusa.
          uma histria de detectives a srio, Billy, e ns dois
       participamoS nela, tu e eu. Tens de fingir que te enganaste.
       Mas t  lembra-te de que estarei perto e de que, juntos,
       apanharemos o espio.
       
       A porta abriu-se e Wolff apareceu.
         Que vem a ser isto?
       Vandam arvorou uma expresso compreensiva.
         Parece que acordou de um sonho e me confundiu com o pai.
       Somos da mesma estatura. o senhor disse que era o pai, no
       disse?
         Que disparate, Billy!  exclamou Wolff.  Volta para o teu
       lugar.
       Billy permaneceu imvel.
         V, meu homenzinho  disse Vandam, pousando a mo no ombro do
       garoto.   Vamos l ganhar a guerra.
       A velha frase familiar produziu o efeito desejado, e Billy
       sorriu corajosamente.
         Desculpe  murmurou.   Devo ter estado a sonhar.
       Vandam sentiu o corao estalar-lhe.
       Billy virou-se e regressou  carruagem, seguido por Wolff e
       Vandam. Enquanto caminhavam ao longo da coxia, o comboio
       afrouxou. Aproximavam-se da estao seguinte, onde a
       motocicleta de Vandam o aguardava. Billy chegou ao lugar e
       sentou-se. Elene fitava Vandam com um olhar de incompreenso.
       Billy tocou-lhe nurn brao e disse:
         No h novidade; enganei-me.
       Uma estranha luz brilhou nos olhos da rapariga, que pareceu J
       prestes a irromper em lgrimas.                    2
       Vandam deteve-se  porta da carruagem e disse a Billy:
         Boa viagem.
         Muito obrigado.
       o comboio entrou na estao e parou. Vandam apeou-se, avanou
       um pouco ao longo do cais e deteve-se  sombra de um toldo, 
       espera. Soou um apito e o comboio recomeou a andar. Vandarn
       tinha os olhos fixos na janela que sabia ficar prximo do
       lugar de Billy. Quando a janela passou, viu o rosto do filho,
       que ergueu a mo e lhe dirigiu um breve aceno. Vandam
       retribuiu o gesto e a cara desapareceu.
       o major constatou que estava a tremer.
       o comboio j quase se desvanecera  distncia quando saiu da
       estao. Encontrou o jovem polcia montado na motocicleta.
       Vandam deu-lhe a outra metade da nota de libra, montou a
       motocicleta e seguiu pela estrada que se dirigia para sul.
       Segundo os seus clculos, chegaria a Asyut trinta ou quarenta
       minutos antes do comboio. o capito Newman aguard-lo-ia.
       Avanou  frente do comboio que transportava Billy e Elene, as
       nicas pessoas no Mundo a quem amava. Disse mais uma vez a si
       
       
       mesmo que fizera o que seria melhor para todos, o que seria
       melhor para Billy. Mas no fundo do seu crebro uma voz
       repetia: "Cruel, cruel, cruel
       
       o comboio entrou na estao e parou. Elene viu um letreiro que
       ostentava, em rabe e ingls, a palavra ASYUT. Haviam chegado.
       Que jogo seria o de Vandam? Compreendeu que ele devia ter em
       mente qualquer plano para a salvar e a Billy e simultaneamente
       encontrar a chave do cdigo. Gostaria de saber qual.
       Felizmente, Billy no parecia atormentado por tais
       pensamentos. Animara-se, passara a ter interesse pela paisagem
       que viam desfilar e at perguntara a Wolff onde comprara a sua
       faca.
       Elene olhou para Wolff, que parecia dominado por um misto de
       excitao e nervosismo. operara-se nele uma modificao
       qualquer nas ltimas vinte e quatro horas. Quando o conhecera,
       era um homem brando e senhor de si. Agora essas
       caractersticas haviam desaparecido. Agitava-se, olhava
       inquieto em seu redor e de segundo
       .. a segundo um canto da sua boca estremecia quase
       imperceptivelnente. Curiosamente, Wolff, o implacvel, estava
       a ficar desesperalo, enquanto Vandam parecia tornar-se mais
       sereno.
       Elene e Billy desceram do comboio para o cais congestionado, 
       tras de Wolff. De sbito, um rapaz sujo, de pijama verde s
       riscas, agarrou na mala de Wolff e gritou:
         Eu arranjo txi !
       r Wolff encolheu os ombros, bem-humorado, e deixou o rapaz
       conduzi-los ao porto.
       Sairam para o largo e Elene olhou  sua volta,  procura de
       qualquer sinal da presena de Vandam. Wolff disse ao rapaz
       rabe:
         Quero um txi automvel.
       Estava um parado atrs dos carros puxados a cavalos, junto do
       qual o rapaz os conduziu.
         Sente-se  frente  ordenou Wolff a Elene.
       Deu uma moeda ao rapaz e sentou-se atrs, junto de Billy. o
       motorista usava culos escuros e um kaffiyeh  uma espcie de
       turbante rabe.
         Siga para sul  ordenou-lhe Wolff em rabe.
         Muito bem  respondeu o motorista.
       Elene sentiu o corao desfalecer-lhe. Conhecia aquela voz.
       olhou fixamente para o homem. Era Vandam.
       VANDAM afastou-se da estao, pensando: "Por enquanto, tudo
       bem." Embora os seus conhecimentos de rabe fossem
       rudimentares, sabia dar  e consequentemente
       receber  instrues. Correria tudo bem enquanto Wolff no
       resolvesse discutir o tempo e as colheitas.
       o capito Newman arranjara-lhe tudo quanto lhe pedira, alm de
       um revlver En.field .38 de seis balas. Como estudara o mapa
       de Newman da rea de Asyut, Vandam sabia encontrar a estrada
       que saa da cidade e seguia para sul. Atravessou o mercado
       sempre a buzinar,  maneira rabe, conduzindo perigosamente
       perto das grandes rodas de madeira das carroas e afastando os
       carneiros do caminho com leves toques de guarda-lamas.
       Simulando ajustar o retrovisor, lanou um olhar a Billy,
       perguntando a si prprio se ele o teria reconhecido. A criana
       tinha os olhos fitos na nuca de Vandam com uma expresso de
       
       deleite. "No denuncies o jogo!", pediu Vandam mentalmente.
       Deixaram a cidade para trs e seguiram para sul por uma
       estrada recta do deserto. A sua esquerda havia campos
       irrigados e bosquetes de rvores;  sua direita, uma muralha
       de penhascos de granito a que uma camada de areia pulverulenta
       emprestava uma tonalidade bege. Wolff disse:   Ruh yameen.
       Vandam sabia que a expresso significava "para a direita". Em
       frente viu uma curva que parecia conduzir directamente ao
       penhasco. Descreveu-a e verificou que se dirigia para um
       desfiladeiro atravs dos montes. A estrada comeava a subir e
       o velho automvel roncava penosamente, acabando por chegar ao
       cimo em segunda. Vandam contemplou o aparentemente infinito
       Deserto ocidental.
       A estrada transformou-se num caminho. Directamente  sua
       frente, o Sol afundava-se nos limites do horizonte. Wolff
       endireitou-se no lugar. e comeou a olhar  sua volta. Em
       breve a estrada atravessava um uadi, cuja margem Vandam desceu
       cautelosamente. Wolff disse:   Ruh shemal.
       Vandam virou  esquerda. o piso era firme. Estupefacto, viu
       grupos de pessoas, tendas e animais no uadi. Dir-se-ia uma
       comunidade secreta. Quilmetro e meio adiante, encontrou a
       explicao do fenmeno: um poo assinalado por uma parede
       baixa e circular de tijolos de lama. Para l dele estendia-se
       um grande acampamento, onde Wolff mandou Vandam parar. Havia
       um aglomerado de tendas, camelos e fogueiras. Wolff estendeu o
       brao, desligou o motor e retirou a chave da i nico. Saiu sem
       uma palavra.
       
       ISHMAEL estava sentado junto da fogueira, a fazer ch. Ergueu
       a cabea e disse to casualmente como se Wolff tivesse sado
       da tenda vizinha:
         A p.  seja contigo.
         E contigo sejam a sade, a misericrdia e as bnos de Deus
       respondeu Wolff formalmente.
       Ishmael estendeu-lhe uma chvena e Wolff bebeu. o ch era doce
       e muito forte.
         E os teus amigos?  perguntou Ishmael, olhando na direco do
       txi.
         No so amigos  respondeu Wolff.
       Ishmael assentiu com a cabea. No era curioso.
         Comes connosco?
         Infelizmente, no. o Sol j est baixo e eu tenho de estar
       de novo na cidade antes que escurea.
       o primo abanou tristemente a cabea e disse:
         Vieste buscar a tua mala.
         Vim. Vai busc-la, por favor, meu primo.
       Ishmael dirigiu algumas palavras a um homem que se encontrava
       de p atrs dele e que foi buscar a mala. Wolff abriu-a e
       sentiu-se invadir por uma grande euforia ao olhar para o
       emissor, para o livro e para a chave do cdigo. Sentia-se como
       que embriagado. com uma sensao de fora e de vitria
       iminente. Ergueu-se.
         Agradeo-te, meu primo. Deus te proteja.
         Vai com Deus.
       Wolff virou-se e dirigiu-se para o txi.
       
       ELENE viu Wolff afastar-se da fogueira com -disse:
         Vem a. E agora?
       
         Vai querer regressar a Asyut  respondeu Vandam, sem olhar
       para ela nem para Billy.  Aqueles rdios no tm pilhas,
       precisam de ser ligados  corrente. Ele tem de ir a qualquer
       lado onde haja electricidade.
       Wolff entrou no carro e ordenou:
         Asyut.
       !  Entregou a chave a Vandam, que ligou o motor e deu a volta.
       eguiram ao longo do uadi e depois pela estrada. o Sol, baixo, 
       :estava agora atrs deles. Nuvens nocturnas comeavam a
       acumular se sobre as colinas em frente.
         V mais depressa  ordenou Wolff em rabe.   Est escurecer.
       Vandam acelerou. o automvel seguia aos solavancos e; guinadas
       na estrada de cascalho solto.
         Estou enjoado  disse Billy.
       Elene virou-se para o olhar, e viu-o plido, sentado numa
       postura rgida.
         V mais devagar  pediu em rabe.
       Vandam afrouxou um momento, mas Wolff repetiu:
         V mais depressa.  E disse a Elene:  No se preocupe com o
       mido.
       Vandam acelerou.
       Elene olhou de novo para Billy. Estava branco como a cal
       prestes a romper em lgrimas.
         V para o inferno!  disse a rapariga a Wolff.
         Pare o carro  pediu Billy.
       Wolff ignorou-o e Vandam teve de fingir que no compreendia
       ingls.
       o carro chocou com um montculo, ergueu-se no ar e pousou de
       novo com fora. Billy gritou:
         Pai, pare o carro! Pai!
       Vandam travou a fundo. A alavanca de mudanas dobrou-se na sua
       mo. Elene amparou-se ao tablier e olhou para Wolff. Durante
       uma fraco de segundo este pareceu atordoado pela surpresa.
       os seus olhos iam de Vandam para Billy e de novo para Vandam.
       Elene sabia que ele pensava no incidente do comboio, no rapaz
       rabe da estao de caminhos de ferro e no kaffiyeh que cobria
       a cara do motorista. Depois, percebeu que ele compreendia
       tudo.
       o automvel parara, com os pneus a chiar, e Wolff envolveu
       Billy com o brao, puxou-o para si e sacou da faca.
       o carro parou. Elene viu a mo de Vandam aproximar-se da fenda
       lateral da galabia e deter-se, ao mesmo tempo que o major
       olhava para trs.
       Wolff tinha a faca a pouco mais de dois centmetros da
       garganta de Billy, cujos olhos se apresentavam desorbitados de
       pavor. Vandam ficou paralisado. Aos cantos da boca de Wolff
       desenhava-se a sombra de um sorriso dementado.
         Quase me levou a melhor  admitiu, e depois acrescentou:
       Tire esse trapo idiota da cabea.
       
       Vandam retirou o kaf iyeh e olharam todos silenciosamente para
       Wolff.
         Deixe-me ver se adivinho ...  disse Wolff.   o major
       Vandam.    Estava a gozar o momento.   Que excelente ideia
       ter-me apoderado do seu filho, como segurana!  Depois, disse
       a Elene:  Debaixo da galabia o major Vandam traz calas de
       caqui. Num dos bolsos, ou possivelmente no cinto, encontrar
       uma arma. Tire-a.
       
       Elene encontrou
       Wolff continuou:
         Dobre a parte de trs da arma, retire as balas e atire-as
       para fora do carro.  Ela obedeceu.  Ponha a arma no
       cho.  Mais uma vez Elene obedeceu, e mais uma vez Wolff
       passou a ser o nico possuidor de uma arma: a sua faca.  Saia
       do carro  ordenou ele a Vandam.
       Vandam permaneceu imvel.
         Saia  repetiu Wolff, e com um movimento sbito e preciso
       picou o lbulo da orelha de Billy com a ponta da faca.
       Formou-se uma gota de sangue e Vandam saiu do carro.
       Ento Wolff ordenou a Elene:
         Passe para o lugar do motorista.
       Elene passou por sobre a desengonaua ala al  u  IllUUa 
       p, ao lado do veculo, Vandam olhava para o seu interior.
         Arranque  ordenou Wolff.
       Elene ligou o motor e arrancou. Atravs do espelho retrovisor
       viu -.. olff guardar a faca e largar Billy. Atrs do carro, j
       a cinquenta
       metros de distncia, Vandam continuava imvel na estrada do
       deserto, com a silhueta recortada a negro contra o poente.
         Ele no tem gua!  exclamou Elene.
         Pois no  confirmou Wolff.
       Nesse momento, Billy perdeu a cabea.
         No pode deix-lo ficar!  ouviu-o Elene gritar.
       A jovem virou-se para trs, esquecida da conduo. Billy
       atirara-se a Wolff como um gato selvagem, desferindo murros e
       pontaps e esgatanhando-o  Wolff, que se descontraira julgando
       a crise terminada, ficou momentaneamente impossibilitado de
       resistir e ergueu os braos para se proteger.
       Elene olhou de novo para a frente. o carro saira da estrada e
       a roda esquerda da frente rolava sobre alguns arbustos. Virou
       o volante e carregoU no travo. As traseiras do automvel
       comearam a derrapar lateralmente. Tarde demais, Elene viu um sulco
       profundo que atravessava a estrada exactamente  sua frente. o
       veculo entrou no sulco com um impacte que pareceu
       desconjuntar-lhe os ossos e derrapou da berma da estrada para
       a areia solta. Depois, inclinou-se e comeou a rolar. Elene
       debatia-se com o volante e a alavanca das velocidades. o carro
       acabou por se imobilizar cado sobre o lado esquerdo. A
       alavanca soltou-se e ficou na mo de Elene, que caiu contra a
       porta, na qual bateu com a cabeca.
       A rapariga ps-se de gatas, sem largar a alavanca partida,
       apoiando um joelho na porta e o outro na janela. olhou para o
       banco de trs. Wolff e Billy tinham cado um sobre o outro,
       com Wolff por cima. Wolff levantou-se. Billy parecia
       inconsciente.
       Pondo-se de p sobre a porta esquerda da retaguarda, Wolff
       lanou-se com todo o seu peso sobre o cho do veculo, que
       estremeceu. Repetiu a manobra e o carro estremeceu mais uma
       vez. A terceira tentativa o automvel inclinou-se e apoiou
       estrepitosamente as quatros rodas no solo. Wolff abriu a porta
       e saiu. Depois, acocorou-se e sacou da faca.
       Elene viu Vandam aproximar-se. Acocorou-se como Wolff, pronto
       para saltar, erguendo as mos para se proteger. Tinha o rosto
       afogueado e a respirao arfante, pois correra atrs do
       automvel. os dois homens descreveram um circulo. Wolff
       coxeava ligeiramente. o Sol parecia uma laranja imensa atrs
       
       deles.
       Vandam avanou e depois hesitou. Wolff brandiu a faca, mas
       como a hesitao de Vandam o surpreendeu, falhou o golpe. Com
       o punho cerrado Vandam agrediu Wolff, que foi bruscamente
       impelido para trs com o nariz a sangrar. os dois adversrios
       enfrentaram-se de novo.
       Vandam saltou para a frente, o espio esquivou-se e a sua faca
       atingiu o ombro de Vandam. Este desferiu um pontap e Wolff
       brandiu de novo a faca, que rasgou a galabia de Vandam, em
       cuja perna das calas apareceu uma mancha escura. Vandam
       afastou-se lentamente e depois caiu, apoiado num joelho. o
       brao esquerdo pendia-lhe, inerte, do ombro coberto de sangue.
       Levantou o brao direito, defensivamente, e Wolff
       aproximou-se.
       Elene saltou do carro, ainda a segurar a alavanca partida. Viu
       Wolff erguer o brao, pronto para esfaquear de novo Vandam.
       Precipitou-se, ergueu a alavanca bem alto e bateu com toda a
       fora na nuca do espio. Wolff pareceu ficar um instante
       imobilizado e ela agrediu-o de novo. Wolff caiu e Elene largou
       a alavanca, ajoelhando-se ao lado de Vandam.
       
         Bom trabalho   disse este em voz dbil, enquanto lhe
       colocava uma mo no ombro e se levantava penosamente.   As
       coisas no esto to ms como parecem. A ora ajuda-me.
       Com o brao ileso agarrou uma perna de Wolff e puxou-o na
       direco do automvel. Elene agarrou um brao do espio
       inconsciente e puxou tambm, at Wolff ficar cado ao lado do
       veculo.
       Vandam inclinou-se sobre o banco da retaguarda e pousou a mo
       no peito de Billy.
         Vivo, graas a Deus  murmurou. Billy abriu os olhos.-Acabou
       tudo  disse-lhe o pai, e a criana fechou de novo os olhos.
       Vandam sentou-se no banco da frente do txi.
         onde est a alavanca?  perguntou.
         Partiu-se. Foi com ela que lhe bati.
       Van,dam ligou o motor, que pegou.
         optimo, ainda trabalha. Podemos sair daqui.
         Que fazemos a Wolff?
         Fechamo-lo no porta-bagagem.
       Vandam olhou de novo para o filho. J estava consciente e de
       olhos muito abertos.
         Como ests, filho?  perguntou.
         Desculpe, mas no pude evitar sentir-me enjoado  disse o
       rapaz.
       Vandam olhou para Elene e disse-lhe, com lgrimas nos olhos:
         Vais ter de yuiar.
       
       Captulo 13
       
       oWIu-sE o rugido sbito e aterrador da aviao. Rommel viu os
       bombardeiros britanicos surgirem por detrs dos montes e
       aproximarem-se.
         Protejam-se!  gritou, e saltou para uma trincheira.
       o rudo era to intenso que se assemelhava ao silncio.
       Deitado de olhos fechados, Rommel sentia uma dor no estmago.
       Haviam-lhe enviado um mdico da Alemanha, mas o marechal sabia
       que o unico remdio de que precisava era a vitria.
       Corria o dia l de Setembro e toda a operao fora um terrvel
       
       fracasso. o que crera ser o ponto fraco da linha de defesa
       aliada parecia-lhe cada vez mais uma emboscada. os campos de
       minas eram numerosos onde deveriam ser raros, havia areia
       movedia ondese esperara solo duro e a cordilheira de Alam Halfa, que
       deveria ser tomada facilmente, estava a ser fortemente
       defendida. A estratgia de Rommel estava errada; os seus
       servios de informao tinham-se enganado e o seu espio
       tambm.
       os bombardeiros passaram e Rommel saiu da trincheira. os seus
       ajudantes e oficiais emergiram dos abrigos e reuniram-se de
       novo  sua volta. Rommel ergueu o binculo e olhou para o
       deserto. Restavam ainda dezenas de tanques na areia, muitos
       dos quais a arder furiosamente. os Aliados, bem
       entrincheirados, atingiam os Panzers como quem pesca numa
       barrica.
       Era intil. As suas unidades avanadas encontravam-se a vinte
       e cinco quilmetros de Alexandria, mas estavam
       impossibilitadas de se mover. "Mais vinte e cinco
       quilmetros", pensou, "e o Egipto teria sido meu.  olhou para
       os oficiais que o cercavam e viu-lhes nas caras o que eles
       viam na sua: a derrota.
       
       SABIA que era um pesadelo, mas no conseguia acordar.
       A cela media um metro e oitenta de comprimento por um metro e
       vinte de largura e metade do espao era ocupado por uma cama.
       As paredes eram de pedra cinzenta e lisa. Uma lampada pendia
       do tecto, suspensa de um fio. Numa das extremidades da cela
       havia uma porta; na outra abria-se uma pequena janela
       quadrada, imediatamente acima do nvel dos olhos. Atravs dela
       via o cu azul e luminoso.
       No sonho, pensou: "Vou j acordar e encontrar uma mulher
       atraente a meu lado. Ela vai beijar-me e beberemos champanhe
       ... " Mas o sonho da cela prisional recomeou e ele sentiu-se
       to horrorizado que fez um esforo para abrir os olhos.
       olhou  sua volta. Estava acordado e o sonho terminara; mas
       continuava numa cela prisional que media um metro e oitenta
       por um metro e vinte e em que metade do espao era ocupada por
       uma cama. Levantou-se e, silenciosa e calmamente, comeou a
       bater com a cabec,a na parede.
       
       JERUSALM 24 de Setembro de 1942.
       Minha querida Elene
       Hoje fui ao Muro das Lamentaes. Detive-me diante dele com
       muitos outros judeus e rezei. Escrevi um kvilel e meti-o numa
       fenda do
       muro. oxal Deus atenda o meu pedido.
       Jerusalm  o lugar mais belo do Mundo. Atravessei o deserto
       num
       camio militar britanico. Durmo num colcho no cho. num
       quarto
       
       exguo, com cinco outros homens. Sou muito pobre, como sempre,
       mas agora sou pobre em Jerusalm, que  melhor do que ser rico
       no Egipto.
       Devo dizer-te que estou a morrer. A minha doena  incurvel e
       s
       me restam algumas semanas de vida. No fiques triste. Nunca
       fui mais feliz na minha vida.
       
       Quero dizer-te o que escrevi no meu kvitel. Pedi a Deus que
       desse
       felicidade  minha filha Elene. Creio que dar. Adeus.
       Teu pai
       
       o presunto fumado estava cortado em fatias finas. Naquela
       manha, os paezinhos eram frescos. Havia salada de batata feita
       com maionese autntica, uma garrafa de vinho, uma garrafa de
       gasosa e um cartucho de laranjas. Elene comeou a acondicionar
       a refeio no cesto de piquenique. Acabava de o fechar quando
       ouviu bater  porta. Foi abrir. Vandam entrou, fechou a porta
       e estreitou-a com tanta fora que a magoou. Abraava-a sempre
       assim, mas ela nunca se queixava, pois quase se tinham perdido
       um ao outro, e agora, quando estavam juntos, sentiam uma
       enorme gratido.
       Dirigiram-se para a cozinha.
         Novidades?  perguntou Elene.
         As foras do Eixo em retirada total, cito.
       Elene constatou quo descontrado o sentia ultimamente.
       Comeavam a aparecer-lhe alguns cabelos grisalhos, mas ria
       constantemente.
       Saram. o cu crepuscular apresentava-se estranhamente escuro,
       e Elene observou, surpreendida:
         Nunca o vi assim.
       Montaram na motocicleta e dirigiram-se para escola de Billy. o
       cu escureceu mais ainda. As primeiras gotas caram quando
       passavam pelo Shepheard's Hotel. Eram pingos enormes que lhe
       trespassavam o vestido e a encharcavam. Vandam virou a
       motocicleta e estacionou defronte do hotel. Quando
       desmontaram, as nuvens rebentaram.
       Permaneceram sob o toldo do hotel a ver a tempestade. A chuva
       era torrncial. Em poucos minutos as sarjetas transbordaram e
       os passeios ficaram inundados. Defronte do hotel, os lojistas
       mergulhavam na enxurrada para correrem os taipais. os
       automveis tinham de parar onde se encontravam.
         E Billy?  perguntou Elene.
         Deixam as ctianas na escola at a chuva parar.
       Por rlm, a tempestade dissipou-se e o sol brilhou de novo.
       Quando chegar.3m  escola, viram Billy  espera.
         Que tempestade!    exclamou o rapaz, entusiasmado, e
       sentou-se na motocicleta entre ambos.
       Seguiram p.3ra o deserto. Bem agarrada e de olhos
       semicerrados, Elene s viu o milagre quando Vandam parou. os
       trs desmontararn e contemplaram o esi3ectculo, mudos de
       assombro.
       o deserto estava atapetado de flores.
         Foi a chuva, obviamente  disse Vandam.   Mas ...
       Haviam tambm surgido, no se sabia de onde, milhes de
       insectos voadores, e borboletas e abelhas revoluteavam
       freneticamente de flor em flor, arrnazenando a inesperada
       colheita.
         As sementes deviam estar na areia  espera  observou Billy.
         Exactamente  confitmou o pai.  As sementes estiverarn na
       areia durante anos  espera disto.
       As flores, i equenas como miniahlras, apresentavam todas cores
       vivas. Billy saiu da estrada e inclinou-se para examinar uma.
       Vandam abraou Elene e beijou-a. o beijo na face
       transforrnou-se num longo beijo na boca. Por fim, ela
       
       soltou-se, rindo.
         Billy vai ficar embaraado  declarou.
         Vai ter de se habituar  disse Vandam.
       Elene deixou de rir e perguntou:
         Vai? Vai mesmo?
       Vandam sorriu e beijou-a de novo.
       
       A chave para o xito
       
       H vrios anos, Ken Follen, um obscuro e jovem reprter do
       Evenirlg Neus de !., ndres. de origem galesa, precisou de
       lhl7enas libras para mandar reparar o  eli alltomvel. Um
       amigo seu ganhara cxact3mente essa importncia escreven io um
       romance de mistrio. Conseque,ueincnte, Follen sentou-se 
       mquin l de escrever, escreveu um romance .,.sses em seis
       semanas e ganhou as duzentas libras. No s reps o autom(i ei
       na estrada, como iniciou o seu cammho de escritor.
       Em 1978, publicou o seu primeiro b sl Sl ller, Eye of the
       Needle. Nessa altura. Follen e sua mulher, Mary, viviam
       confortavelmente numa casa neogeorgiana no Surrey com os seus
       dois filhos. Pouco depois. para evitarem os proibitivos
       impostos de rendimento britanicos, mudaram-se para a pitoresca
       cidade de Grasse, no Sul da Frana. Gostam da sua nova
       vida  da cozinha, do tempo e da natao. "Arranjmos ptimos
       amigos, de vrias nacionalidades.. declara Follett, "e, o que
        mais importante, tenho continuado a trah lhar regularmente."
       Follett  um apaixonado pela Histria, e, tal como os seus
       antenores ronulnceS de aventuras, The Key to Rebecca teve a
       sua gnese em factos. .<ocorreu-me a ideia quando li Body uard
       of Lies, de Anthony Cave Brown", explica.  <Mais tarde, a
       ideia ganhou forma com a leitura de outros livros de histdria.
       Em 1942, havia uma rede de espies no Cairo; utilizaram uma
       dancarina do ventre para seduzir um major ingls, a fim de lhe
       revistarem a pasta: a danarina do ventre vivia de facto num
       barco-habitao no Nilo; An ar el-Sadat pediu o rdio
       emprestado aos espies para tentar negociar com Rommel, e
       foram todos apanhados por terem utilizado dinheiro falso.
       Subsequentemente  os Ingleses utilizaram o cdigo Rebeca como
       parte de um plano de simulao relativo  batalha de Alam
       Halfa." A fim de aumentar .a autenticidade do relato e
       transmitir a verdadeira atmosfera do Cairo, Follett . isitou
       esta cidade.
       o seu prximo romance, diz, passar-se- na Londres eduardina,
       tendo sufragista como herona e um anarquista como vilo.


&&&
Fim.
Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da  Internet!
